Miriam Leitão foi insultada por militantes do PT. Do mesmíssimo PT que Miriam Leitão tanto elogia. É a típica Síndrome de Estocolmo.

O filósofo e matemático alemão Gottlob Frege carrega em sua filosofia algo que explica à perfeição o ocorrido com a jornalista Miriam Leitão, da Globo News, em um vôo da Avianca, conforme seu relato no jornal O Globo. Trata-se da confusão costumeira entre sentido (Sinn) e referência (Bedeutung).

Certos discursos que inculcamos em nosso linguajar podem fazer um certo sentido interno ao que nós estamos dizendo. Por exemplo, se nos julgamos contra a exploração e a opressão (e quem não se julga?), nosso pensamento, para fazer sentido, precisa trabalhar no sentido de evitar ambas as coisas.

No entanto, fora do reino do mero discurso, e noves fora as contradições internas que podem fazer um discurso deixar de fazer sentido por si, quando o que dissemos precisa ter uma referência externa na realidade, será que conseguimos transubstanciá-los de fato naqueles partidos ou políticos que não exploram e não oprimem? Ou não sejam corruptos, ou defendam o mesmo que o povo defende?

Miriam Leitão, como boa parte do staff atual da Rede Globo, foi perseguida durante a ditadura. Suas idéias sobre feminismo, programas sociais, aborto, cotas, política fiscal, democracia ou qualquer tema polêmico à escolha do freguês têm chance de serem, 9 de cada 10, idênticas às do PT. Tal como vários jornalistas da Globo News, do jornal O Globo ou de qualquer parcela jornalística da Rede Globo, a visão de Miriam Leitão é progressista e “social”.

Atores da Rede Globo fazem campanha pró-abortoNo entanto, o PT trata a Globo como um poço de reacionarismo, como se as novelas da Globo louvassem a Igreja Católica ou o protestantismo weberiano, como se a emissora estivesse empenhadíssima em um livre mercado laissez faire absoluto, como se a visão dos jornalistas da Globo fosse pró-Partido Republicano (e pró-Trump) e pró-Tories, como se a Globo odiasse o PT e estivesse desde O Rei do Gado martelando no Jornal Nacional e no imaginário coletivo das novelas e das celebridades que o MST é violento, que as drogas devem ser proibidas, que aborto é assassinato de crianças, que a sexualidade precisa conter freios, que a família é mais importante do que o Estado ou prazeres secundários.

Ou seja: até mesmo ignorando se o discurso interno do PT faz sentido (se seu modelo econômico é bom, se é honesto, se joga limpo, se tem alguma vantagem sobre outros partidos etc), há uma falha de referência, como oposto por Gottlob Frege: a Rede Globo que o PT descreve é a mesmíssima Rede Globo de 1965, como se ela não tivesse mudado uma vírgula de sua linha editorial daquela época até hoje.

O PT, com uma visão parada no tempo há meio século, acredita que Malhação é uma novela sobre estudo e disciplina, que o Videoshow é um programa sobre os valores morais das celebridades, que Fátima Bernardes fala sobre música erudita e educação escolástica, que Amor & Sexo é sobre castidade e fidelidade, que as novelas são sobre família, tradição e propriedade privada, que o BBB pariu Jair Bolsonaro.

O pior: o PT, ou qualquer professor de História clichê no país, acredita que foi o único a perceber que a Rede Globo, digamos, é ruim, e portanto, é direitista (afinal, na época em que nossas avós estavam com seus 20 e poucos anos, a Globo apoiou a ditadura). É uma dissonância da realidade que, antes mesmo de se analisar o sentido de seu discurso (se a esquerda é mesmo boa, se a direita é esse poço de tortura e abatimento de crianças etc), tem um referencial insanamente oposto à realidade.

Não é só Miriam Leitão: a Rede Globo inteira hoje incensa o PT, comprou o discurso “Fora Temer” com uma velocidade impressionante (vide a trapalhada de Lauro Jardim, que vendeu o áudio de Joesley Batista como uma “prova cabal” contra Temer, no que foi repetido roboticamente por todos os petistas do país, quando o revelador áudio não é tão cabal assim), enquanto chamou por meses a fio as manifestações contra Dilma e o PT de “protestos contra a corrupção”.

Miriam Leitão, diga-se, tem uma fundamental divergência com o PT: o desastre econômico. Não é, não quer ser, se ofenderia se fosse chamada de liberal ou de (horresco referens) conservadora. Não cansou de elogiar o PT, até mesmo quando o partido não merecia elogio algum (naquela velha litania de “o PT manteve nossa economia de 2% ao ano ‘nos eixos’, então merece aplausos”, que não convence senão quem se informa pela própria Globo). Seus valores, diga-se, estão incrivelmente mais próximos do PT do que de um DEM, PSC, NOVO ou qualquer partido com nítido viés anti-esquerda.

Mas, como o PT ainda tem referências da década de 60, como o PT ainda fala em ditadura (sic), ainda fala de privatização com nojinho (ZZzzzz), ainda está lutando contra o “neoliberalismo” (!) e ainda acha que não tem voz na mídia, que toda a elite está contra ele, naquele surrado discurso determinista de luta de classes que acha que ricos são ultra-capitalistas e pobres são revolucionários por força de classe, e não que isso seja uma ideologia panacona que se contradiz tão logo um mauricinho a pronuncie após aprendê-la para o vestibular num cursinho de R$ 2 mil de mensalidade.

Malgrado seu, tanto Miriam Leitão quanto boa parte do staff da Rede Globo, com as prováveis únicas exceções jornalísticas de William Waack e Alexandre Garcia, sofrem da Síndrome de Estocolmo: não é de hoje que passaram a defender a esquerda, não exatamente por economia (ao contrário do que brasileiro pensa) ou por consonância ao método da velha esquerda (sindicato, revolução armada etc), mas por progressismo, politicamente correto e globalismo (sexo conta muito mais do que política ou economia). Em troca, recebem o mais profundo desprezo e nojo da esquerda, que não pesquisa e nem reflete sobre algo nem mesmo que todo o seu esforço seja apertar o controle remoto e assistir passivamente por 5 minutos.

Quando delegados do PT atacam Miriam Leitão, estão se suicidando, comprando uma briga com uma emissora de quem só receberam afagos em tempos recentes. Quando a Rede Globo, e mesmo Miriam Leitão, defendem a esquerda com sua Síndrome de Estocolmo, estão também se suicidando: o povo sempre desconfiou da Globo da boca pra fora, mas votou em seus candidatos. Desta vez, seus programas estão perdendo em audiência para A Praça é Nossa ou novelas bíblicas da Record.

É uma falha de referência de ambos os lados, e isso porque ambos os lados também têm falha de sentido.

Em seu relato sobre o vôo da Avianca, Miriam Leitão confessa que “não é inimiga do partido” (quem pode não ser inimigo do PT, hoje?). Escreve: “Quando os governos do PT acertaram, fiz avaliações positivas”, confessando um wishful thinking em crer no ouro de tolos da produção artificial de riqueza petista. E ainda alivia: “Não acho que o PT é isso”. Quem é realmente contra o PT sabe bem que o PT não apenas é isso: hoje, é apenas isso.

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  • Jonny Hawkye

    Ano passado havia notado um diminuição nos “revolucionários de apartamento”, pois seus comentários estavam apenas “limitados” ao sites e blogs simpatizantes de esquerda. Esse ano muitos deles voltaram a fazer comentários de “fake news” em sites que não aceitam a esquerda. O que aconteceu? Dá onde está vindo o dinheiro para essa “guerrilha virtual” começar de novo?

  • Ilbirs

    Eis que um velho conhecido do ramo dos inocentes úteis resolve dar as caras xingando o Alexandre Garcia:

    Esse cara é Rodrigo Grassi Cademartori, que já foi assessor da deputada Erika Kokay (PT-DF) e esse não é seu primeiro ataque a figuras que impedem o avanço do PT e do Foro de São Paulo, conforme poderão ver aqui e neste vídeo:

    Esse mesmo cara recentemente está sendo processado por calúnia e injúria a Rodrigo Janot e anteriormente já foi preso pela Polícia do Senado em 2014 e comandou protesto contra Yoani Sánchez em 2013.
    O cara tem um canal no YouTube chamado “Botando Pilha” e a pergunta que fica é quem paga o cara para fazer o que faz. Se considerarmos que ele ficou assediando o Alexandre Garcia, perguntaremos sobre como ele soube que o jornalista estaria exatamente naquele voo, isso sem falar na noção de tempo que ele teve de ficar apenas um passageiro atrás dele. Claro que no fim do vídeo o Rodrigo em questão ficou com o típico choramingo de comunista de reclamar que seu alvo tomou providência com o comandante do avião (autoridade máxima a bordo) em função daquilo que ele estava recebendo na fila de embarque.

    Sobre o episódio envolvendo Alexandre Garcia, ele se vangloriou do feito e postou um vídeo não apenas cheio de chavões esquerdistas como também com suspeita de haver “apito de cachorro” embutido para que outros militantes do PT e por extensão do Foro de São Paulo (incluindo aí outros partidos integrantes como PSB, PPS, PCB, PSL e PC do B e satélites do Foro como PSOL, Rede, PCO e PSTU):

    O número de visualizações desse vídeo é baixíssimo (na hora em que escrevo isto é de menos de 700) e o de inscritos no canal, também (algo na casa de 1.800 pessoas). Esse canal é sucessor de outro, com 980 inscritos, que tinha o nome do próprio Rodrigo em questão e no qual há os vídeos com assédio a Joaquim Barbosa e Aloysio Nunes, coincidentemente os de maior número de visualizações. No canal atual, o vídeo mais visualizado é justamente o do assédio a Alexandre Garcia no aeroporto. Tanto no atual quanto no sucedido, pelo número de visualizações baixo da maioria dos vídeos excetuando os que envolvem gente com alguma fama, é razoável considerar que o perfil seja mais mesmo o de um canal de militante para militante do que de militante para o amplo público, o que nos fará pensar em quem é a maioria dentro das centenas de visualizações de um canal de tão pouca audiência. Provavelmente é intencional que a audiência seja pouca e que na prática consista de outros militantes que conseguiram um pouco mais de destaque dentro da ação de rua da petistosfera, sendo aí mais mesmo um instrumento de troca de informações que por um acaso da vida é acessível ao amplo público que se dispuser a procurar no YouTube.
    Sobre Miriam Leitão, o mesmo Rodrigo se posicionou exatamente como gente graúda do PT se posicionou:

    Vamos agora nos perguntar qual será o próximo que receberá agressões dessa turma que está sob as asas do Lula.

  • Rafael Nascimento

    Existem ex-comunistas, mas ex-guerrilheiros é impossível. Miriam Leitão abandonou o combate na linha de frente, mas o coração ainda bate forte pela extrema esquerda

  • Leander H. Alves

    Haha…se enxerga coxinha….viro vc o disco…
    Quem tem como ídolos Aécio Neves, Eduardo Cunha, Temer, Gedel entre outros falar em mamar em bandido e quadrilheiro é patético!!!!

    • Odeio social-democrata, afinal, sou de direita. Meus ídolos são G. K. Chesterton, Eric Voegelin, Ludwig von Mises… Se quer falar de político, cite gente de direita, não o VICE DA DILMA e o LÍDER DA DILMA NA CÂMARA, nem oposicinha social-democrata. Cite Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Friedrich Naumann etc. SAIBA do que você está falando, aí vai passar vergonha de usar imagem de um genocida racista e anti-semita no avatar.

      • Leander H. Alves

        Grande bosta….Não te sobrou ninguém por aqui como referência?
        Que tal Medici, Batista e Hitler pra completar sua lista!!!
        Babaca midiota!!!

      • Leander H. Alves

        Grande merda…

      • Leander H. Alves

        Esqueceu o Bolsonaro, o Fugencio Batista, Medici, Geisel, Castelo Branco, HItler, Afonsin, Pinochet, Franco, Salazar e Mussolini…bobalhão!!!

  • Carlos Alberto Guedes Pereira

    Cara, já que você gosta tanto da Leitão, respeite-a também. Eu que não gosto dela respeito a opinião dela quando ela própria se diz PT, bajula o PT, adere à pauta petista e chora por não ser amada pelo PT. Recorde, nesse caso do avião ela disse: o PT não é isso. Snif, snif.

  • Renato Lorenzoni Perim

    Boa, Marcelo, concordo.

  • Renato Lorenzoni Perim

    Competente jornalista pra quem, cara-pálida? Em que planeta você vive? Absolutamente toda a equipe da Globosta é petista.

  • Julio, discordo do Waack em muitas coisas (e nem precisa citar Trump), mas peraí, então não pode criticar Maomé?! Ser de direita é defender isso?! :O

    • Julio Cesar

      Então, poder até pode (ou melhor, se deve criticar), sobretudo quando se trata de Maomé, sharia e essa “religião da paz”.
      A questão é, por exemplo, o nível de obscenidade das charges. Não obscenidades do tipo Danilo Gentili esfregando um papel nas nozes (cujo o motivo foi totalmente compreensível), mas do tipo ilustrações sexuais envolvendo a Santíssima Trindade.
      E, dessa forma, eu não consigo ver o W. Waack dentro desse quadro das “prováveis únicas exceções jornalísticas” como você colocou, uma vez que ele prontamente defendeu o Charlie na época – sob a justificativa da liberdade expressão -, tomando as dores da classe jornalística (só para variar), embora eu não veja o Charlie Hebdo como jornalismo.

      • Julio, novamente tirando o Waack à parte (já que concordo que ele não seja lá tão direitista assim), eu prefiro defender o direito do Charlie em ser pornograficamente sacrílego, ainda que não confie em Estado laico (um confessional é bem diferente do que crêem por aí). Já até fiz palestra mostrando como o caso do Charlie Hebdo resume o Ocidente (defende quem o maltrata, ataca quem o defende). Mas não vejo por que não defender o direito do jornaleco, apesar de ele ser mesmo um nojo.

  • josemar silva

    Eu acrescento a SÍNDROME de BÁRRÁBÁS, ou seja sempre ficar e escolher o lado do bandido.

  • Carlocarlus

    Somente uma mente esquerdopata para não distinguir o que é o PT.

  • ### Andreis###

    Duro é ouvir seu comentário pela manhã! Sem sal, sem açúcar. Ela está sempre em cima do muro.

  • Phillip Garrard

    Uma pessoa que foi terrorista no passado e continua a ser terrorista 40 anos depois…triste fim para uma velha senhora…deveria ir cuidar dos netos e bisnetos.

  • Leander H. Alves

    Pelo que estou entendo entoar a frase “A verdade é dura a rede globo apoiou a ditadura” é uma grande ofensa aos coxinhas… É isso?

    • Não. Se lesse, descobriria que coxinha pensa em mais de uma frase, que a Rede Globo tá do SEU lado, não do lado dos coxinhas, e que coxinha só tira sarro de gente de uma frase só.

      • Renato Lorenzoni Perim

        Nooooooossa!!! Entrou até as bolas!!! Kkkkkkkkkkkk
        Toma petista!

  • Katherine Queiroz

    O que acho estranho é que com tantos smartphones por aí não havia O que acho estranho é que com tantos smartphones por aí não havia nenhum filmando nada? Filmam até gente defecando em foto mas uma discussão dessas não havia nenhumzinho? No mínimo estranhoa.
    Tendo a achar que foi tudo armado filmando nada? Filmam até gente defecando em foto mas uma discussão dessas não havia nenhumzinho? No mínimo estranhoa.
    Tendo a achar que foi tudo armado

  • WillMDias

    Será que ela vai altear sua análise sobre a forma de agir do partido?

    Creio que não.

    No máximo ficará chateadinha e vida que segue, fingindo fazer análise dos fatos e que não tem pensamento alinhado.

    Aqui nas minhas “áreas”, costuma-se dizer; “bem pouco” ou “bem feito”.

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