O tiro saiu pela culatra

Estadão quer mostrar que o nazismo é de direita usando Hannah Arendt, mas se contradiz

O Estadão, em desabalada carreira para se igualar à Folha de São Paulo, decidiu listar seis livros que supostamente afirmam a hipótese do nazismo ser uma ideologia de "extrema-direita", entre eles Origens do Totalitarismo, de Arendt, que afirma que nazismo e comunismo são irmãos totalitários

O Estadão, em desabalada carreira para se igualar à Folha de São Paulo, decidiu listar seis livros que supostamente contrariam a hipótese do nazismo não ser uma ideologia de “extrema-direita”,

Marcos Guterman, historiador, cita os seguintes livros: os três volumes do historiador marxista Richard Evans (A Chegada do Terceiro Reich, Terceiro Reich no Poder e Terceiro Reich em Guerra), a biografia de Ian Kershaw Hitler, Os Alemães de Norbert Elias e Origens do Totalitarismo, da filósofa Hannah Arendt.

Nunca foi possível entender muito bem o enamoramento da esquerda com Hannah Arendt. Ela adora se apropriar da autora, apesar de seu amor pelos EUA, crítica ao totalitarismo que incide no coração do comunismo e, sim, uma forte equiparação entre duas ideologias que ele ela classificava, exatamente, como totalitárias: nazismo e comunismo.

Não há recordação da querela ideológica entre direita e esquerda no clássico da autora. O que há, entre outras, é a citação a seguir, que basicamente equipara Hitler e Stalin e coloca nazismo e comunismo como únicos exemplos históricos concretos de totalitarismo (descartando, portanto, os fascismos italiano, espanhol e português) em toda sua geminalidade e admiração mútua:

“Os movimentos totalitários objetivam e conseguem organizar as massas – e não as classes, como o faziam os partidos de interesses dos Estados nacionais do continente europeu, nem os cidadãos com suas opiniões peculiares quanto à condução dos negócios públicos, como o fazem os partidos dos países anglo-saxões. Todos os grupos políticos dependem da força numérica, mas não na escala dos movimentos totalitários, que dependem da força bruta, a tal ponto que os regimes totalitários parecem impossíveis em países de população relativamente pequena, mesmo que outras condições lhes sejam favoráveis. Depois da Primeira Guerra Mundial, uma onda antidemocrática e pró-ditatorial de movimentos totalitários e semitotalitários varreu a Europa: da Itália disseminaram-se movimentos fascistas para quase todos os países da Europa central e oriental (os tchecos – mas não os eslovacos – foram uma das raras exceções); contudo, nem mesmo Mussolini, embora useiro da expressão “Estado totalitário”, tentou estabelecer um regime inteiramente totalitário, contentando-se com a ditadura unipartidária. Ditaduras não totalitárias semelhantes surgiram, antes da Segunda Guerra Mundial, na Romênia, Polônia, nos Estados bálticos (Lituânia e Letônia), na Hungria, em Portugal e, mais tarde, na Espanha. Os nazistas, cujo instinto era infalível para discernir essas diferenças, costumavam comentar com desprezo as falhas de seus aliados fascistas, ao passo que a genuína admiração que nutriam pelo regime bolchevista da Rússia (e pelo Partido Comunista da Alemanha) só era igualada e refreada por seu desprezo em relação às raças da Europa oriental. O único homem pelo qual Hitler sentia “respeito incondicional” era “Stálin, o gênio”, e, embora no caso de Stálin e do regime soviético não possamos dispor (e provavelmente nunca venhamos a ter) a riqueza de documentos que encontramos na Alemanha nazista, sabemos, desde o discurso de Khrushchev perante o Vigésimo Congresso do Partido Comunista, que também Stálin só confiava num homem, e que esse homem era Hitler

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo, 2012, ed. Cia de Bolso, p. 436 e 437, grifos nossos.

Teria o professor Guterman realmente lido – e se lido, compreendido – a autora e o livro que tentou usar como carteirada nos leitores do Estadão?


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