Música

Let it Beatles!

A discussão do valor objetivo e artístico dos Beatles é urgente - e transcende e muito questões tribalistas e gostos pessoais

Há dois níveis de discussão estética: um mais superficial, baseado no gosto pessoal, algo completamente subjetivo e outro, mais profundo, que considera as questões técnicas, estético-filosóficas e a contextualização histórica do objeto em análise.

Quando falamos sobre música popular, há mais um fator a ser considerado, pois surge a idéia de “tribos”, ou seja, uma identificação pessoal a um ente coletivo e que envolve processos sociológicos extramusicais. O roqueiro precisa se vestir, falar e agir como um roqueiro, além de conhecer o repertório básico de sua tribo, geralmente desprezando os outros estilos. Idem para o funqueiro, o pagodeiro, o agroboy etc. Esse fenômeno vai além do simples gosto musical.

Portanto, deixemos de lado o imperativo subjetivo conhecido como “gosto pessoal” para que possamos encarar a exótica missão de, em pleno ano de Nosso Senhor de 2019, analisarmos objetivamente o valor musical dos Beatles.

De maneira socrática, vamos delimitar os termos usados no debate; para tanto, precisamos responder objetivamente, na medida do possível, à questão “o que é uma música boa”? O que faz com que uma música seja caracterizada como “boa”?

Seria a complexidade? Quanto mais complexos os seus elementos, melhor seria a música? Harmonias caminhando por regiões distantes, quantidade e complexidade dos acordes, contrapontos intrincados, polirritmias, instrumentações gigantescas, execução instrumental ou vocal virtuosística, tudo isso por si só faz com que uma música seja considerada – a priori – boa? Claro que não. Uma música pode ter tudo isso e ser um porre, enquanto uma outra, muito mais simples, pode ser uma obra-prima.

Tomemos como exemplo a música de Mozart, uma música límpida, transparente, perfeitamente equilibrada, refinada e… extremamente simples! Construída basicamente com três acordes. De fato, o sistema diatônico tonal concentra suas forças harmônicas em três acordes chamados de Tônica, Subdominante e Dominante (na tonalidade de dó maior: o acorde de dó maior seria a tônica, fá maior a subdominante e sol maior a dominante, ou seja, os graus I, IV e V da escala, respectivamente).

Qualquer melodia que não tenha alteração e se mantenha na mesma tonalidade pode ser harmonizada usando apenas esses três acordes. Esses três acordes são a sustentação do sistema tonal, são o que mantém o equilíbrio das suas forças motrizes (repouso na tônica, afastamento na subdominante e tensão/reaproximação na dominante). Obviamente dizer que a música de Mozart é construída tendo como base os três acordes principais do campo harmônico não é, de maneira alguma, um demérito ao mestre austríaco. A técnica de análise musical desenvolvida pelo teórico Heinrich Schenker (1868–1935) permite reduzir as obras mais complexas à sua estrutura fundamental mais sintética possível, o que invariavelmente acaba caindo na progressão IV-V-I.

É inegável a beleza contida na simplicidade de um Cânon de Pachelbel, na riqueza melódica dos cantos gregorianos, nas singelas canções infantis de Villa-Lobos, no equilíbrio delicado e sutil da melodia de Asa Branca. Assim, a complexidade não é um fator determinante que faz com que uma música seja boa.

Seria então o conteúdo intelectual? Quanto mais intelectualmente embasada, a música se tornaria melhor? Também não. Há canções ingênuas e totalmente despretensiosas belíssimas e obras mais cerebrais, porém péssimas. Quem sabe então o trabalho dispendido à sua composição? Quanto mais trabalhosa foi ao compositor, melhor? Também não, vide Mozart novamente, que compunha com extrema facilidade, enquanto devorava um chucrute com seu pai no almoço.

Haveria algum tipo de progressão harmônica que funcionasse como um elixir alquímico e assegurasse o seu sucesso? Também não, visto que progressões simples podem ser bastante eficientes. Seria simplesmente a beleza, compreendida como uma percepção comum dentro dos padrões da sociedade ocidental? Se assim fosse, todas as músicas mais agressivas, mais “duras” e rudes ficariam de fora da categorização de “música boa”. Mas estamos chegando perto.

Não consideraremos as questões morais que a canção possa transmitir porque assim sairemos do campo musical e adentraremos na seara poético-literária ao analisarmos as letras das canções que, certamente, contribuem para uma avaliação ética a respeito de seu conteúdo. Mas este é um outro assunto.

Também não faz sentido usar o caráter mercadológico para criticar ou elogiar algo. Se criticamos uma banda por pertencer à “indústria cultural” (expressão adorniana carregada de preconceito anticapitalista) devemos então criticar tudo: de Beatles a Iron Maiden, de Jamiroquai a Jobim, de Carmem Miranda a Molejão. Particularmente hoje em dia há a possibilidade de não se fazer parte da indústria da música, mas isso era praticamente impossível no período das chamadas “The Big Six”, as seis grandes gravadoras que dominavam a produção fonográfica (EMI, CBS, BMG, PolyGram, WEA e MCA que, após uma série de fusões, viriam a se tornar as atuais “The Big Three”, no caso Warner Music, Sony Music e Universal Music). Somente grandes empresas podiam arcar com os custos de equipamento e pessoal de um estúdio de gravação, não havia outra maneira de gravar.

Dois fatores estarão sempre presentes numa boa música, sem exceção, seja ela agradável ou agressiva, simples ou complexa, com ou sem conteúdo intelectual, virtuosística ou não. Esses dois fatores são: beleza e equilíbrio. Mesmo assim, corremos o risco de cair num reducionismo ao questionarmos a própria definição de beleza. Apesar disso, parece satisfatório considerarmos que a “música boa” é aquela que é bela e equilibrada. É aquela que preserva o que Aristóteles chamava de “justa medida”.

A definição de nossa idéia de música boa nos sugere uma outra definição: como caracterizar “música erudita” e “música popular”? O que faz com que uma música seja considerada popular ou erudita? Seria música erudita aquela feita por violinos e instrumentos de orquestra? Não, pois é perfeitamente possível tocar músicas populares com essa instrumentação, assim como é possível tocar música erudita usando cavaquinho e violão. Seria erudita a música mais complexa? Não, pois há músicas populares extremamente complexas e músicas eruditas simples. Também não seria a música intelectualizada, nem a que dispendeu trabalho em sua elaboração, nem mesmo aquela preservada pelo tempo, visto que Frère Jacques, por exemplo, é uma cançãozinha popular antiquíssima, presente em todas as culturas ocidentais e nem por isso é considerada música erudita.

O próprio Mozart era popular em seu tempo, assim como o jazz, hoje considerado erudito, era música para dançar nas noitadas da primeira metade do século XX. Egberto Gismonti é erudito ou popular? As modinhas de Villa-Lobos são música popular ou erudita? De fato, não existe qualquer parâmetro razoável que defina “música erudita” e a diferencie da “música popular”. Tal categorização é baseada somente em conceitos estéticos arbitrários e extramusicais. Mas esses termos acabaram “pegando” e podemos diferenciar uma da outra intuitivamente, embora sem conseguirmos explicá-los com segurança.

Uma divisão ideal seria baseada na função que a música desempenha na sociedade, por exemplo, a música artística, aquela feita para se curtir, que abrangeria de Vivaldi a Ramones, a música ritualística, feita para ritos religiosos e militares e a música folclórica, que seria uma mistura das duas primeiras. E ainda assim haveria exceções, alterações de acordo com o período histórico e discussões sem fim.

Desta forma, vemos que a simplicidade que faz com que uma música seja cantada, tocada e decorada facilmente não caracteriza qualquer juízo de valor. Vemos também que toda a harmonia se baseia em três acordes, o que tampouco causa qualquer depreciação na música que se utilizar deles. Vemos que há uma interrelação entre o que é considerado música popular e erudita, sendo impossível defini-las em parâmetros objetivos. Portanto, após esta reflexão introdutória, vamos enfim aos Beatles, propriamente ditos.

John Lennon, aos 15 anos de idade, já tocava acordeom e gaita. Depois de muito insistir, conseguiu ganhar seu primeiro violão aos 16 anos e, pouco depois, já havia formado uma banda de “skiffle” (uma música folk que fez grande sucesso entre a juventude britânica na década de 1950) chamada The Blackjacks e depois, The Quarrymen. Paul McCartney teve uma história parecida, seu primeiro contato com o violão foi aos 15 anos, também tocava skiffle e logo compôs sua primeira canção, “I Lost My Little Girl”, em homenagem à mãe, que havia morrido de câncer no ano anterior. A história de George Harrinson tampouco foi diferente. Ganhou seu primeiro violão aos 13 anos de idade, também tocou numa banda de skiffle e acabou conhecendo Paul e integrando mais tarde a banda The Quarrymen, que se tornaria no futuro The Beatles.

É necessário considerar que a formação musical para um garoto na chuvosa e pobre Liverpool em meados da década de 1950 era, geralmente, feita “na raça”, a não ser que fosse filho ou parente próximo de algum músico de orquestra ou então, rico. Cursos regulares de música ou eram caros ou seguiam uma metodologia antiqüada e rígida que acabava por espantar os garotos que queriam simplesmente tocar com os amigos.

A primeira inovação dos Beatles não foi musical, mas performática. O rock ‘n roll na década de 1950 era bastante comportado, até suave, apesar de marginalizado e odiado pelos pais e mães da época. Se é possível ouvirmos Beatles com nossos pais e avós hoje em dia, em 1957 definitivamente não era assim. A energia que emanava das apresentações da banda era algo completamente diferente de tudo que havia na época, exercia um poder magnético entre a juventude e influenciou todas as bandas de rock surgidas a partir de então, como relata o biógrafo Bob Spitz sobre o show em Litherland em 1960.

O primeiro vídeo clip foi dos Beatles (Papperback Writer, de 1966), a idéia de se fazer shows em estádios, a idéia de álbum conceitual, ou seja, um álbum coeso, como uma obra completa e não somente um apanhado de músicas; também a idéia de adicionar as letras impressas nos álbuns, para que as pessoas pudessem acompanhar foi deles, a primeira transmissão em rádio FM e em qualquer rádio de uma música maior que 3 minutos de duração (Hey Jude, de 1968), foram os primeiros a lançar um selo próprio, a Apple Records, foi deles a primeira transmissão global ao vivo pela TV, além de inovarem de maneira definitiva as técnicas de gravação. Tudo isso foram inovações dos Beatles.

Apenas o violão de Paul em Blackbird (1968) já seria um exemplo impressionante de competência, talento e conhecimento musical. Aliás, a própria estrutura da canção, com compassos quaternários alternando com ternários e binários é uma técnica bastante refinada e incomum para a música popular, ainda hoje.

Em I’ll Be Back (1964), Lennon e McCartney usam um procedimento harmônico bastante comum no período barroco, denominado “terça de picardia”, que consiste em terminar uma música que está numa tonalidade menor num acorde maior. Ao contrário do uso barroco, que usava este maneirismo apenas nos finais das músicas (por exemplo, no final do primeiro coro da Paixão Segundo São Mateus, de J.S. Bach), a canção repete a terça de picardia em todos os finais de frase.

A canção If I Fell, de 1964, tem uma modulação à região da Napolitana que é um procedimento harmônico completamente exótico na música popular, utilizado apenas pelos mestres românticos como Wagner, Mahler e Richard Strauss. A introdução começa em lá maior e, utilizando o acorde napolitano como pivô, modula marotamente para si bemol maior, que é a tonalidade principal, de uma maneira completamente diferente da modulação feita bruscamente só para subir meio tom e dar um “up” no som.

Michelle (1965) também é um exemplo interessante por usar a ambivalência entre os modos maior e menor, além dos trechos da letra em francês. Yesterday, uma das canções mais gravadas e interpretadas da História, contém logo de início uma segunda cadencial para o VI grau maior, ao invés do menor, que seria o “normal”. Só isso dá um sabor especial à canção. E por que tantos músicos, maestros e arranjadores optaram por gravá-la e executá-la? Porque é boa. É bela e perfeitamente equilibrada. Como arroz e feijão ou queijo e vinho.

Eleanor Rigby (1966) usa um recurso harmônico também bastante inovador ao alternar os modos eólio e dórico. A estrofe está no modo eólio (terça, sexta e sétima menores), enquanto o refrão está em dórico (modo menor com sexta maior). Assim como em Yesterday, a gravação contou com um grupo de cordas, no caso um octeto, composto por quatro violinos, duas violas e dois violoncelos. Enquanto as cordas tocavam legato em Yesterday, em Eleanor Rigby tocavam predominantemente em staccato. O arranjo para cordas, escrito por George Martin, foi inspirado na trilha sonora de Bernard Hermann para o filme Psicose.

Os Beatles também flertavam com as especulações estéticas da música erudita de vanguarda, surgida na segunda metade da década de 1940 na Europa. Em A Day In The Life (1967) foi utilizada uma orquestra de 40 integrantes e a gravação da orquestra, um grande crescendo atonal com 24 compassos de duração que chegava até algo próximo de um acorde de mi maior, foi então remixada diretamente na fita, gravada com camadas sobrepostas, trechos invertidos, loops, etc, procedimentos típicos da música concreta de Pierre Schaeffer, até explodir num acorde de mi maior gravado simultaneamente com três pianos. Paul, Lennon, Ringo e Evans dividiam três pianos diferentes enquanto Martin tocava um harmonium (uma espécie de órgão de palhetas). Enquanto o som dos pianos decrescia naturalmente após o ataque do acorde, o volume da gravação ia sendo aumentado gradativamente, resultando num som contínuo de 40 segundos.

Há o lado B do álbum Abbey Road em forma de suíte, os espetaculares Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e o The White Album (1968), dois dos álbuns mais importantes do século XX, que por si só dariam um livro, há as guitarras distorcidas e o som poderoso de Helter Skelter (1968) que foi o embrião do Heavy Metal, as influências orientais com cítaras, derbaques e mesmo estruturais, como em Within You Without You (1967), entre tantos outros exemplos antológicos. Sempre lembrando que o orientalismo foi um fenômeno cultural que influenciou o mundo desde o final do século XIX, com Shéhérazade (1888), de Rimsky-Korsakov, passando por Turandot (1924), de Puccini, até chegar em Music Of Changes (1951), de John Cage.

Assim como um time de futebol não depende apenas dos jogadores, mas precisa de um técnico e uma orquestra não depende apenas de seus instrumentistas e necessita de um maestro, assim é com qualquer banda de rock. O produtor é uma figura importantíssima e isso não é descrédito algum para a banda. A maneira como os acontecimentos confluíram de modo que houvesse um George Martin nos bastidores dos Beatles foi um privilégio do destino. Sem George Martin os Beatles não seriam os Beatles, mas também sem os Beatles, George Martin não seria quem foi. Houve uma troca. Também o fato dos Beatles serem a banda com o maior número de hits da História, absurdamente bem-sucedida no mercado musical, tampouco é um demérito, pelo contrário. A banda, que durou 10 anos, de 1960 a 1970, compôs 237 canções. Desde sua criação, os Beatles venderam 1 bilhão de álbuns (há 7,5 bilhões de pessoas no planeta) e ganharam 9 Grammy Awards.

Tudo isso não aconteceu por mágica, não foi artificialmente fabricado, as suas músicas não são impensadas, não há ghost writers por trás e eles não são, de forma alguma, analfabetos musicais. São apenas quatro moleques da fria, suja e pobre Liverpool que, a despeito de todas as influências negativas (pobreza, falta de apoio, falta de referências etc.), conseguiram fazer o que, no fim das contas, queriam: tocar em público.Beatles Revolucionários, beatles, adorno, olavo de carvalho

* O título deste artigo foi tomado emprestado de uma das melhores e mais conhecidas bandas cover dos Beatles. Perdoem a minha falta de originalidade, mas não havia título mais apropriado.

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