Eles estão por toda a parte, e estão dominando nossa mente, nossas ações, nossos corações. Eles definem com o que concordaremos antes de concordarmos, eles até votam por nós.

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Não são nanorobôs programados para o mal e nem uma conspiração de poder global. São os shibboleth’s.

Na última década, sempre que o debate político esquenta, considera-se que o país ou o mundo está numa nova era de extremismo, em que a emoção domina o racional. Na verdade, quase sempre a culpa é dos shibboleth’s.

Na Bíblia, em Juízes 12, narra-se a contenda entre Efraim, fundador da tribo israelita de mesmo nome, e Jeftá de Gilead (a mesma do “is there balm in Gilead?” d’O Corvo de Edgar Allan Poe e da canção popular), da tribo Manassé – as duas que formariam a Casa de José.

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Ambas possuíam uma contenda com os amonitas, mas Jeftá lutou sozinho contra a tribo que sacrificava crianças ao deus Moloch. Os gileaditas afirmaram que buscaram ajuda dos eframitas, mas estes teriam recusado, pois aqueles seriam desertores. Jeftá de Gilead massacra a tribo de Efraim, deixando poucos sobreviventes.

Os gileadistas, então, tomaram as passagens do rio Jordão por onde fugiam os homens de Efraim sobreviventes. Sempre que um efraimita buscava fugir, os homens de Gilead perguntavam: “Você é efraimita?” Se respondesse que não, diziam: “Então diga: shibboleth”.

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senseless sacrificeShibboleth é a palavra hebraica para a parte das plantas que contém grãos. Mas os efraimitas pronunciavam o sh sem chiado, como “sibboleth”, enquanto os gileadistas chiavam. Assim, a tribo de Gilead pode identificar os efraimitas e matá-los, um a um.

Na lingüística moderna, chamamos de shibboleth qualquer traço de pronúncia que permita identificar um grupo. Alargando-se o conceito sem se restringir à pronúncia, também o uso de determinados termos pode identificar shibboleth’s modernos.

Quando se usou a palavra shibboleth na passagem bíblica aludida, não se fazia referência à espiga de grãos, mas a algo interno da própria língua: o traço característico do uso de um termo por um determinado grupo.

Costuma-se dizer que o debate político moderno está tomado de ódio, intolerância e preconceito – e que isto seria um pioneirismo indevido da emoção sobre a conversa racional. Apesar de ter sua verdade, tal diagnóstico não encara a matiz do problema: nossa linguagem política atual não faz mais referências a uma realidade externa, na qual podemos testar se nossas idéias são ou não válidas.

Pelo contrário: os termos usados no vocabulário político contemporâneo, cada vez mais enxutos, reportam-se apenas à sensação de pertencimento a grupos pré-determinados que usam ou deixam de usar algum termo.

Não é, portanto, apenas o sentimentalismo, o ódio desenfreado ou preconceitos obscurantistas que minam o debate político: o uso de certas palavras e expressões, por mais que encadeadas em um raciocínio friamente calculado, destrói a comunicação, e apenas reforça alguma senha de pertencimento a determinado grupo.

Experimente-se conversar racionalmente com alguém calmo e inteligente, e analisar os sentimentos evocados ao se pronunciar palavras como direita, esquerda, conservador, liberal, comunista, progressista, ditadura, privatização, exploração, social, mercado, desigualdade, opressão ou mesmo democracia.

Basta testar se o interlocutor (ou mesmo alguém em diálogo interno) está mesmo referindo-se a algo claramente definido na realidade, a que o interlocutor vai atribuir o mesmo sentido – ou se está atribuindo bons ou maus sentimentos a cada palavra, para então reforçar o que é a ela atribuído (ou temporariamente atribuído por algum grupo), rejeitando os fatos mais inescapáveis apenas por ojeriza a algum grupo que tenha uma visão distinta. São os shibboleth’s modernos.

Talvez os maiores do debate público nacional sejam “coxinha” e “petralha”, cuja mera pronúncia já determinam a qual corrente ideológica a pessoa pertence.

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Tal se dá porque antes de preencher o esquematismo lógico com objetos da realidade (e com referencial na realidade), a carga psicológica de determinados vocábulos faz com que quaisquer coisas a eles atribuídas sejam defendidas, antes mesmo de serem definidas adequadamente, recortadas do capiloso tecido do real.

Por exemplo, as feministas consideram que o “machismo” e o “patriarcado” são errados. Então, sua premissa natural ao formular qualquer raciocínio é sempre de que “o patriarcado é opressor”.

Sem definir o que é patriarcado e o que é opressão, é comum (na verdade, inevitável) flagrar feministas garantindo que um homem abrir a porta do carro para uma mulher é “opressão”, por ser algo que advém do patriarcado.

O raciocínio é até acertado, embora a referência ao real seja absolutamente falha – o patriarcado pode ser chato e muitas vezes abusa do poder, mas também garantiu às mulheres vantagens que nunca teriam em uma sociedade “não-patriarcal”.

Não se trata mais de premissas buscando uma conclusão – o shibboleth “patriarcado” exige obediência imediata, faz com que algo não precise mais ser definido, mas sim apenas aceito como advindo de território inimigo ou amigo.

Todo julgamento não deriva mais de premissas, mas da acusação de aversão absoluta imediata. Muito antes de verificar algo na realidade, o verdadeiro sentimentalismo no debate político está em aceitar a força centrípeta de determinados vocábulos que apenas te puxam para um grupo do qual se tenha afinidade, antes de verificar se o discurso é factual.

Ao invés de uma comparação de objetivos, métodos, meios e resultados na concretude histórica, opta-se por reforçamentos ao sentimento de pertencimento a determinado estrato social, considerado heróico e correto em relação a seu adversário. E também se divide os adversários e, naturalmente, toda a sociedade em estratos pré-determinados por algum shibboleth que imprima obediência imediata e inquestionável, determinando quem deve ser defendido e quem deve ser atacado independentemente de motivos.

Não importa o quanto se argumente – antes do nível argumentativo, o interlocutor já estará tomado por sentimentos de positividade ou negatividade em relação a determinado vocábulo (já que não falamos como manuais de lógica esvaziada de materialidade), e simplesmente irá rejeitar qualquer esquema de pensamento, simplesmente desqualificando o interlocutor como pertencente a uma tribo inimiga.

São os shibboleth’s, e não o raciocínio ou os fatos, que determinam o que pensamos e o que defendemos. É um exercício mental dificílimo escapar da gaiola conceitual em que eles nos prendem com seu sentimentalismo – por tal razão o século dos filósofos nos legou tantos filósofos ruins.

Se são perigosos por aparentarem ser fruto de uma fria análise da vivência, mas apenas ocultarem a realidade de nossos olhos e nos obrigar a obedecer a um grupo, seu poder de destruição da percepção é ainda potencializado pelo exagero de linguagem metonímica, usando-se comparações que apenas reforçam uma ideologia que nos cegou para a realidade.

O linguajar político recente basicamente é esta comparação descabida entre objetos sem nenhum parentesco ou semelhança entre si, mas que assustam uma platéia apatetada pelo poder de palavras como golpe, ditadura, fascismo (a palavra preferida da esquerda, sem perceber que a direita é mais inimiga do fascismo do que a própria esquerda).

Como a direita é especialista em economia, direito, ciências políticas e internacionais, enquanto a esquerda domina áreas como a literatura, as ciências sociais, a psicologia, a comunicação e tudo o que trabalhe com o imaginário coletivo, é natural que esta última perca de lavada no que se refere a argumentos com planilhas, dados e métodos concretos para lidar com a realidade, mas sempre ganhe eleições e corações com o sentimento de grupo evocado pelo seu linguajar.

E tome-se uma carrada de shibboleth’s como opressão, desigualdade, exploração, minoria, oprimido, tolerância… mesmo que estes shibboleth’s não se refiram na prática a nada que evoque tais envolvimentos afetivos – alguns, na verdade, até são coisas normais e mesmo boas, mascaradas por palavras que nos acostumamos a ouvir como se fossem o mal em si, como o desespero contemporâneo com a “desigualdade” – a um só tempo em que prega a diversidade…

Já bem dizia Nietzsche que não nos livraremos de nossos deuses enquanto não nos livrarmos de nossa gramática. Percebendo shibboleth’s descobriremos o quanto ocultamos a realidade e somos enganados por nossa própria vontade de pertencer a um grupo de heróis contra supostos bandidos.

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