A estranha exigência do Estadão

vemprarua alexandre frota

O Estadão noticiou ontem (19) que o grupo Vem Pra Rua fez uma manifestação no Largo da Batata, Pinheiros, em São Paulo, para pressionar Eduardo Cunha pelo impeachment. Já no subtítulo de sua manchete, o Estadão escreveu:

Na manifestação, que chegou a fechar uma via da Av. Faria Lima, na zona oeste da capital paulista, grupo não comentou denúncias sobre as contas na Suíça do presidente da Câmara e seus familiares

Há um lógica estranha: o Vem Pra Rua honrou seu nome e foi para rua para pressionar Eduardo Cunha pelo impeachment, como a própria manchete escancara. Entretanto, o tratamento do jornal foi considerar que o grupo é, de alguma forma, amigo de Eduardo Cunha, favorável a Eduardo Cunha, defensor de Eduardo Cunha, por “não comentar denúncias” sobre suas contas na Suíça.

Ora, ninguém faz um protesto para pressionar alguém de quem se é aliado. Ninguém toma ruas, atitude feita para gerar notícia e fazer toda a população perceber uma reivindicação, para falar algo para alguém com quem se concorda ou se defende. Pelo contrário: como a própria reportagem demonstra, o protesto foi feito para pressionar Cunha, que é alguém com interesses contrários ao das pessoas pedindo o impeachment.

Não se sabe também como o grupo “comentaria as denúncias de contas na Suíça” em um protesto pelo andamento do impeachment. Talvez com cartazes escrito: “#AcolheCunha! E a propósito, você tem contas na Suíça que é um paraíso fiscal e isto pode significar que você recebeu dinheiro dos mesmos larápios da Petrobras que enriqueceram contas petistas e até estava apoiando o PT até ontem!”, o que aparentemente fica um pouco difícil de ler num cartaz.

A imprensa está ativamente tentando pintar Cunha como um opositor ao governo, simplesmente por ter rompido relações com o PT. Agora, até mesmo grupos pressionando Cunha são pintados como aliados de Cunha (quando claramente Cunha não tem nada a ver com a oposição), em parágrafos tentando menosprezá-los, buscando apontar alguma hipocrisia ou contradição, ou meramente irônicos como este:

Os manifestantes, contudo, não fizeram menção às denuncias que envolvem o presidente da Câmara Eduardo Cunha, denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato e que teve suas contas no exterior rastreadas pelo Ministério Público da Suíça. A documentação chegou ao Brasil nas últimas semanas e revelou que Cunha e seus familiares ocultaram R$ 61 milhões no exterior, incluindo contas em bancos suíços e nos EUA. O caso deu origem a um novo inquérito contra o presidente da Câmara e sua esposa no Supremo Tribunal Federal.

Seria curioso notar parágrafos iniciados com este mesmo “Os manifestantes, contudo, não fizeram menção…” quando a reportagem envolve manifestações de esquerda, pró-PT, pró-Palestina, pró-qualquer coisa que o próprio jornalista defenda.

Afinal, é comum pintar manifestações pró-impeachment como de alguma forma “aliadas” de alguém suspeito de corrupção como Eduardo Cunha, até mesmo quando são manifestações exigindo que ele troque seu posicionamento atual. Mas não vemos no jornalismo, que cria o imaginário coletivo das pessoas e manipula o seu senso comum, dizer o mesmo sobre a obviedade do pacto de silêncio sobre a corrupção e tantos outros crimes quando se lida com notícias envolvendo a defesa do PT e de causas afeitas à esquerda.

E, afinal, Eduardo Cunha não é suspeito de corrupção justamente pelo mesmo delator que afirma ter pagado as contas do filho e da nora de Lula? Talvez este já seja um “comentário” sobre suas contas na Suíça que mostra o que as pessoas a favor do impeachment pensam sobre Eduardo Cunha.

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