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CRÔNICA: Sobre flatos e fiotos

A putaria, a perversão e a doideira humana não foram descobertas em 2000, amiguinho. Não acredita? Pois vamos dar só uma espiada na França, no umbral do século XX, onde ninguém se chocava com bizarrices

Luigi Marnoto
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CRÔNICA: Sobre flatos e fiotos

Soube há uns dias que a… erh, como direi… cantora? Performer? (me sopraram aqui, funkeira.) Vá lá, funkeira. Soube que a funkeira Anitta cravou uma tatuagem na própria boga, no próprio toba, no próprio… ah, você entendeu. Problema nenhum. Faça o que quiser com seu butico, ninguém tem nada com isso. Mas é curioso como essa choldra lacradora tem a obsessão em tornar seus oritimbós públicos.

Dizem os psicanalistas que a fase anal ocorre quando a criança está aprendendo a soltar o seu barrinho no penico, lá entre um e três anos. Qualquer bug neste estágio pode resultar em uma personalidade muito desordenada. Não entendo picas de psicanálise, mas faz sentido. O que terá acontecido com essa gente no momento em que aprendiam que não se deve cagar no chão nem espalhar cocô pelas paredes?

O fato é que, com alguma frequência, nos deparamos com “artistas” em performances coprofágicas ou exibindo (quando não cheirando) briocos (tatuados ou não) alegando tratar-se de “expressão artística” contra o sistema, contra a sociedade de consumo, contra isso tudo que taí e outras abstrações. Pois, dizem eles, a intenção é chocar a nós, cidadãos comuns, com nossos desprezíveis hábitos burgueses tais como fazer totô no vaso sanitário e esconder nossos fiofós.

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Chocar a quem, cara pálida? Alguém em pleno século XXI ainda se espanta com exposições de fezes e roscófes? (sem falar dos que ainda pretendem afrontar o “sistema” exibindo muxibas e monjolos balouçantes). Reações de tédio e muxoxo é tudo que conseguem. Essa escumalha ficaria surpresa com o que suas bisavós andaram fazendo nos anos 1960.

A putaria, a perversão e a doideira humana não foram descobertas em 2000, amiguinho. Não acredita? Pois vamos dar só uma espiada na França, no umbral do século XX, onde ninguém se chocava com bizarrices. Ao contrário, ria-se delas.

O extraordinário instrumento de sopro de Monsieur Pujol

Naturalmente você já ouviu falar na grande atriz Sarah Bernhardt. Mas aposto a minha coleção do Zéfiro que pouco (ou nunca) ouviu falar em Joseph Pujol, certo? Por que será, já que ambos dividiram o sucesso e os palcos na mesma época? Mais intrigante ainda é que no auge de suas carreiras, lá pelo final do século XIX e começo do XX, enquanto Sarah faturava 8 mil francos por apresentação, Pujol embolsava 20 mil e lotava as melhores e maiores casas de espetáculos de Paris.

E saiba que numa atuação, o esforço físico e intelectual da grande dama do teatro era infinitamente maior que o de Le Pétomane – o apodo artístico de Joseph Pujol. Enquanto Sarah se esfalfava decorando, encenando e contracenando com grande elenco um texto como A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho, nosso herói, com sua indefectível gravata vermelha e culote preto de cetim, entrava em cena sozinho, curvava-se levemente diante da plateia atenta e, minimalista, executava La Marseillaise, o hino que convoca os cidadãos franceses à luta.

Injusto, não? Nem tanto, se considerarmos que o “instrumento” que Monsieur Pujol usava para as performances era o seu próprio frinfra.
Sim, você entendeu bem. Com seu exclusivo “instrumento de sopro”, o sujeito não só interpretava solos e escalas musicais pelo traseiro, como realizava uma série de imitações sonoras que ia de pássaros e outros animais, até o choro de um bebê ou o estrondoso tiro de um canhão (uma de suas obras máximas). Mas tudo com muito glamour e, é importante que se diga, nenhum odor – Pujol não expelia gases, mas o próprio ar que aspirava.

Nascido em Marselha em 1857, Joseph ainda era um menino quando manifestou seu extraordinário dom. Em uma excursão pela costa francesa, ao submergir no mar, descobriu que, abrindo seus esfíncteres, era capaz de absorver grande quantidade de água. Assustado, correu para praia e, voilà! – diante de banhistas atônitos expeliu o líquido a uma distância de vários metros. Aplausos.

Joseph gostou daquela aprovação pública e, já prestando o serviço militar, divertia a soldadesca com o número do “chafariz”. Até que sua popularidade chegou aos ouvidos do oficialato. Pois acredite, seus superiores, depois de esfregarem os olhos para poderem acreditar no que viam, foram os primeiros a valorizar suas habilidades artísticas (lembre-se de que estamos na maluca França fin-de-siècle). O jovem Pujol começou então a treinar seus intestinos de maneira contínua, passando boa parte do dia absorvendo e expelindo água, para deleite da tropa. Esta ginástica intestinal e a troca da água pelo ar seriam os segredos do êxito que o acompanharia por toda sua vida artística.

Sarah Bernhardt: concorrência desleal

Ao sair do exército, Pujol foi trabalhar como padeiro durante o dia e, à noite, frequentava os music halls de Marselha realizando aqui e ali pequenas exibições de comédia musical. Porém, seu exclusivo “espetáculo de sons e ventos” ficava restrito aos amigos de boemia. Foi a insistência desses amigos que o levou a aperfeiçoar o número e, finalmente, apresentá-lo ao público. Seus originalíssimos shows logo começaram a lotar os pequenos teatros de Marselha, levaram-no a Paris e, em pouco tempo, só um palco estaria à altura daquele estrondoso sucesso: o Moulin Rouge, a casa de espetáculos mais importante da Cidade Luz.

Com o teatro lotado, Pujol começava a apresentação explicando cada som: “Isto é o choro de uma criança” (ruído suave). Em seguida vinha o traque da noiva antes e depois da noite de núpcias (a diferença era notável), o pum de um monge, o de uma freira, o de um general e por aí afora. Quando o público já estava com o diafragma em frangalhos de tanto rir, vinham os números musicais.

De uma simples e impecável escala tonal (dó, ré, mi etc.) passava a entoar melodias completas de canções como Frou-Frou ou Fascination, e a imitar diversos instrumentos musicais. A flauta, por exemplo, era executada com a instalação – você pode imaginar onde – de um tubo de um metro e meio de extensão. Entre uma atração e outra, fumava um charuto pelas duas extremidades do seu corpo. Simultaneamente! Seu ato final consistia em colocar uma vela a quatro metros de distância e apagá-la com um único sopro de seu traseiro. Um fenômeno!

A platéia ia a tamanho delírio que Monsieur Vidler, diretor do Moulin Rouge, passou a distribuir enfermeiras uniformizadas pelo auditório a fim de atender aos desmaios e convulsões do público. Há de se desconfiar que o termo nonsense tenha surgido em uma dessas apresentações. Pujol, no entanto, sempre impecavelmente vestido, jamais perdia a expressão austera, o que tornava o espetáculo muito mais hilariante.

Na volta de uma temporada pela Europa e norte da África, Pujol rompeu contrato com o Rouge e montou sua própria companhia, no The Centre Pompidou. Ali, no final de uma de suas apresentações, foi abordado por um distinto senhor que, discretamente, passou-lhe uma moeda de ouro de 20 francos, agradeceu comovido por tanta diversão e sumiu-se.

Curioso, Joseph perguntou à sua amiga Liane de Pougy – a cortesã mais badalada de Paris, na época – quem era o nobre e apressado cavalheiro. Liane, com o nonchalance de quem tudo sabe, disse tratar-se de ninguém menos que Leopoldo II, o rei da Bélgica, que viera incógnito a Paris testemunhar o talento do Pétomane.

Rei Leopoldo II, da Bélgica: fã anônimo

Sentiu o prestígio do sujeito? Pujol talvez tenha sido o primeiro artista a realizar o prodígio de misturar a noblesse francesa (aquela, avessa à vulgaridade) com os pintas-bravas do bas-fond parisiense no mesmo espaço, unindo ambas as classes pelo riso.

Por 20 anos (de 1894 a 1914), Le Pétomane fez fama e fortuna por toda a Europa. Até que a I Grande Guerra entrou em cena e deixou o mundo bem menos divertido. Depois de perder três de seus nove filhos nas trincheiras do front, recolheu-se ao silêncio e foi viver como próspero confeiteiro em Toulouse, onde morreu aos 88 anos, em 1945.

Quando soube de seu falecimento, a Universidade de Sorbonne ofereceu 25 mil francos aos seus herdeiros para obter o cadáver do artista e estudar o fenômeno eólico de suas entranhas. Seu filho mais velho, porém, sem esconder o orgulho pelos dons naturais do pai, recusou: “Meu pai, no curso de sua longa vida deu de si o melhor. Certas coisas têm que ser tratadas com as devidas reverências”.

Assim, Monsieur Pujol, Le Pétomane, teve um funeral digno de chefe de estado, onde não faltaram estrondosos tiros de canhão e a execução de La Marseillaise.


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Luigi Marnoto
Luigi Marnoto

Luigi Marnoto é cozinheiro e só não foi guia de cego e bombeiro. Atualmente escreve no Senso em troca de uns caraminguas. É pai e avô quase exemplar e campeão de porrinha.

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