samuel_trans

No dia 28 de setembro, à convite do programa Radioatividade da Jovem Pan, comenteisociologia de 140 caracteres que estava sendo feita sobre os arrastões nas praias do Rio de Janeiro. Para os justiceiros sociais de Twitter, muito bem assentados em sua classe média que pode passar o dia na internet, tratava-se de “justiça social”, pois eram pobres roubando ricos.

Os fatos não demoraram a complicar um pouco tal narrativa. Uma das vítimas que teve o celular roubado ganhava pouco mais de mil reais por mês. O ladrão de seu celular possuía até videogame de última geração dado por seu pai.

Expliquei como isto se devia a uma visão determinista da sociedade, herdada do Iluminismo que culminou na Revolução Francesa. Se existe algo errado na vida pública, como um assalto, tal se deveria a uma falta de “planejamento racionalista” na sociedade. Os pensadores do Iluminismo acreditavam que fariam uma sociedade perfeita se ela fosse comandada por eles próprios, impedindo desajustes do seu modelo central racionalista. Assim, um assalto nunca seria culpa de uma maldade individual no ser humano, mas sim de um erro “na sociedade”. Toda apropriação de propriedade alheia pela força, ou mesmo pela morte, seria culpa da “desigualdade”.

A apresentadora Madeleine Lacsko me perguntou por que as pessoas não enxergam o mal. Tenho uma explicação lingüística simples. Da complexa tessitura da realidade, as pessoas apenas enxergam aquilo que são capazes de nomear e compreender – o restante fica num capiloso mundo caótico dos mistérios que não merecem explicação.

Para compreender um fenômeno como o mal ou um crime, é costume aferrar-se ao vocabulário já cristalizado. Todos sabem o que é um assalto, um seqüestro, um homicídio. Poucos sabem o que é peculato ou tráfico de influência – tais crimes, então, são via de regra ignorados como crimes, a não ser quando são assim nomeados por um terceiro – e mesmo assim, tão somente pela força psicológica que tais palavras evocam nos substratos inconscientes das pessoas.

tripe-morgensternHoje em dia, vários novos vocábulos apareceram para descrever crimes ou comportamentos que grupos querem criminalizar. Surge o machismo, a homofobia, a transfobia. Alarga-se o conceito de racismo até os limites do racismo invertido. Ataca-se a liberdade de pensamento e expressão através do politicamente correto ou, já que o termo assentou-se como sinônimo de patrulha moralista, a responsabilidade social – ou a internet “humanizada”. Palavras em desuso por falência explicativa retornam como non plus ultra da fria descrição do concreto, como colonialismo e imperialismo. E elas convivem com novos termos que são quase o seu sinônimo, mas colocados em sinal invertido, como “apropriação cultural”.

A mentalidade coletiva, desta forma, fica refém apenas destas palavras que são aventadas por aí, e não consegue escapar desta gaiola conceitual. Ao ver um tiroteio, degolações pelo Estado Islâmico, estupros ou a obra final de um serial killer, não olham para a realidade diretamente, mas apenas através do filtro das palavras que crêem descrever todo o real: enxergam apenas os crimes da desigualdade, do colonialismo, do machismo (nunca definido com fronteiras claras), da homofobia, da intolerância, do desarmamento ou de outras crenças e palavras de ordem de sentido muito mais psicológico do que factual.

Cristalizados tais vocábulos de sentido oco, mas poder de agitação e sentimentalismo altíssimo, eles se tornam não apenas filtros que fingem “descrever” a realidade, fazendo com que o usuário dos vocábulos na verdade passe a ver cada vez menos os fatos – mas fazem também com que o falante ou leitor perca-se no poder impressionista de atração de palavras exageradamente repetidas por uma comunidade de bem falantes selecionada. Não à toa, a esquerda e o pensamento progressista assentam-se em grandes lingüistas e semioticistas, de Roman Jakobson a Noam Chomsky, de Lacan e da Escola de Frankfurt a Derrida e Foucault.

Este poder de cristalização, de uso freqüente que se confunde com a revelação de uma verdade óbvia, faz com que tais palavras também se tornem armas. Basta, na peneira que observa apenas “desigualdade” na vida concreta, declarar-se pertencente a um grupo escolhido a dedo como “menos favorecido” em relação a outro. Uma homem rico pode se considerar gordo e gay, uma mulher bonita só precisa se auto-declarar mulher, um universitário bem nascido não precisa de muito além de ser ciclista ou ateu, uma negra bem sucedida será sempre a vítima de racismo e opressão.

Os vocábulos correntes, apesar de ocos, são bem afiados. Na famosa análise de John Stossel, “quando se ofender dá poder às pessoas, as pessoas se ofendem mais facilmente”.

Uma notícia recente não surpreende quem conhece tal dinâmica. Um aluno transexual da Casper Líbero, Samuel Silva, 22 anos, foi expulso da faculdade após “criticar”, sabe-se lá em quais termos, a metodologia de uma professora.

samuel silva casper liberoO aluno (a aluna, x alunx, algo), numa prova de redação universitária, segundo sua professora, foi o único (a única, x únicx) “aluno universitário que não teve capacidade de assimilar um áudio com sonora em Inglês, narrado lentamente, em linguagem cotidiana, de um filme de 30. Foi o único aluno a se sentir ‘colonizado’ por meio dessa solicitação. Foi o único aluno a não compreender o enunciado da questão que tratava de um comercial premiado, e era fundamentada por um texto base oferecido como consulta a todos”, como narra O Globo.

O aluno (a aluna, x alunx, algo) não fala inglês, e foi o único da sua turma a ser reprovado na prova. É estranho que um aluno (umx alunx, como queira) queira fazer um curso também chamado de marketing desconhecendo a língua universal da propaganda moderna. Da mesma forma, se sentiu “colonizado” por tal metodologia auto-explicável – mas não “colonizado” o suficiente para se furtar a utilizar o Facebook, ferramenta americana com nome em inglês.

A acusação do aluno perante a Universidade? Sem muita surpresa: transfobia. Se o aluno (x alunx, ele, digo, ela, quer dizer, elx) sofre algo, basta sacar sua condição de transexual para se portar como vítima e forçar com que os usuários do vocabulário cristalizado, mas não definido, creiam piamente que um caso como este não se refere a um aluno (01 alunx) sendo reprovado em uma prova em que até universitários de Exatas são obrigados a passar no Vestibular, e sim que apenas enxerguem “transfobia”, embora em nenhum momento (nem mesmo nas justicativas do alun… da pessoa) tenha alguma menção a um “preconceito” por ele ser transexual.

A Frente LGBT da faculdade (!) imediatamente lançou uma nota, acusando a faculdade e os professores de transfobia. E de muitas outras -fobias e -ismos:

“Nós, da Frente LGBT Casperiana, repudiamos toda e qualquer atitude classista, elitista e transfóbica por parte do corpo docente e administrativo da Cásper Líbero, e exigimos um posicionamento e retratação por parte da Faculdade, bem como apoio para políticas de inclusão e integração para alunas e alunos LGBTs e para estudantes que não têm como pagar a mensalidade”.

Há tudo no pacote apenas para um aluno: classe, na crença marxista de que existem “classes sociais” estanques (o velho polilogismo criticado por Ludwig von Mises), crítica à “elite” (um caso de paralaxe cognitiva, justamente em uma das Universidades mais elitistas de São Paulo) e a acusação de “transfobia” que parece um crime obscurantista por si só.

O que não se viu na nota foi nem meia palavra a respeito da incapacidade d@ alun@ de ter uma nota num curso de marketing sendo o único publicitário de sua turma incapaz de compreender inglês. Sem exigir muito brilhantismo matemático, parece que dar nota para tal alun% é uma medida que geraria uma certa desigualdade social.

Já o Catraca Livre afirma que x alunx criou uma página no Facebook (americano e de nome inglês) “como espaço de luta e empoderamento”. Hoje está fácil tirar notas sem fazer provas, apenas afirmando-se estar “lutando”. Mas “empoderamento”, este também neologismo vitimista, não é um aportuguesamento um tanto canhestro do inglês empowerment, dos movimentos gays (outra palavra inglesa) justamente nos países acusados de colonialismo?

O aluno, @ alun@#$%&, na verdade, foi expulso sob acusação de agredir o coordenador do curso. Deu sua versão: Eu não o agredi, eu trombei com ele num corredor da faculdade”. Para conceitos tão assentados como “transfobia” sem uma definição objetiva, também urge entender como se “tromba” com um coordenador em um corredor sem que isso seja uma agressão.

Em tempo: sua professora foi demitida, e o coordenador, além de “trombado”, perdeu o cargo, mas segue como professor.

Enquanto a “Frente LGBT Casperiana” vocifera contra a transfobia e o elitismo (!) classista, além de “integração” para LGBTs (aparentemente, desobrigando-os dos mesmos conhecimentos exigidos dos outros alunos), a professora e o coordenador têm suas vidas e carreiras prejudicadas sem demonstração nenhuma dos motivos para terem sofrido isso. Deixamos aqui nossa “exigência de um posicionamento e retratação por parte da Faculdade” para estes profissionais, que estão sozinhos sem um -ismo e uma -fobia para que progressistas enxerguem a injustiça que sofrem.

casper libero avenida paulista

Curta e divulgue nossa página no Facebook

E nos siga no Twitter: @sensoinc

  • Filomena

    Esse é o problema da internet… As informações chegam totalmente desencontradas. O Samuel não foi reprovado. Ele foi até muito bem na prova. O questionamento dele era: “porque uma matéria de redação publicitária apresenta uma prova em inglês, quando estamos em um país que tem o português como língua oficial?”. E ele só fez um questionamento na página dele do facebook. Como ele JÁ sofria muito na sala de aula, por estar passando pelo tratamento de transexualização, recebendo frequentemente mensagens agressivas dos colegas e sendo excluído de atividades, no mesmo ritmo deram um “print” no questionamento dele (em sua página do facebook) e enviaram à professora. A professora se sentiu ofendida e resolveu mandar um e-mail PARA TODA A TURMA e focado no Samuel. O coordenador do curso, que deveria resolver o problema de forma pacífica, em uma reunião, tratou o Samuel pelo pronome feminino e disse que estava fazendo isso para irritá-lo (o que foi confirmado por testemunhas). Quando ele foi recebido na faculdade, eles ACEITARAM em tratá-lo apenas pelo nome social. Bem… não entro aqui na questão da existência ou não de vitimização. Só gostaria de propor uma questão: quando uma pessoa passa por frequentes confrontamentos, como imagino que passe um transexual, exatamente por ser transexual, não seria normal que essa pessoa se tornasse “calejada” a ponto de achar que o resultado dos seus problemas é exatamente esse confrontamento constante?

    • Flavio Morgenstern

      Filomena, obrigado pelos esclarecimentos, eles provam todos os nossos pontos. O “questionamento” do Samuel é bem infundado: ele faz marketing, que não é uma palavra da língua portuguesa. Querer conhecer menos não é exatamente uma postura universitária de muito futuro. Bastante engraçado que quando o Samuel se sente ofendido é lícito, quando a professora se sente ofendida com algo que a ataque, é preconceito. Quando Samuel posta algo público no Facebook contra alguém é de foro íntimo, quando a professora responde, é algo “PARA TODA A TURMA e focado no Samuel” (caixa alta do original). Toda a “transfobia”, então, foi terem usado o pronome feminino!!!!!! Um pronome!!!!!! Estamos mesmo sob uma ameaça fascista e homofóbica enorme. Curioso que alguém trans, por definição, é justamente alguém que é uma mulher que se sente homem (ou vice-versa). Mas tudo bem, devemos aceitar não ver a realidade, em nome de não sermos acusados de algum -ismo ou -fobia inventada ad hoc para nos calar e não ferir a hipersensibilidade momentânea de grupos lutando contra a elite na Casper Líbero.

      • Filomena

        Veja bem, se a justificativa para a necessidade de se saber inglês é o nome do curso, o curso se chama Publicidade e Propaganda e não Marketing… E quanto a ele ter ofendido a professora, não sei… não tive acesso ao post para saber se ele citou a professora ou apenas questionou o conteúdo da prova. Ele diz que não mencionou a professora. Você teve acesso? Agora, eu entendo que sim, um aluno deve procurar se aperfeiçoar ao invés de simplesmente reclamar. Mas não concordo de jeito nenhum com a atitude da professora, em expor um aluno para toda uma turma. Acho que nem eu concordo e nem a faculdade. Afinal a faculdade recomendou que a professora esperasse antes de se manifestar. Ela se precipitou, expôs um aluno e contrariou o empregador. Pensemos como uma relação de consumo: você se sente insatisfeito com um serviço prestado. Posta na sua rede social a insatisfação e o prestador de serviço te expõe para todo o seu grupo de convívio, te chamando de “ser humano que não tem o que fazer” e “com peculiares características intelectuais”. Não dá, não é mesmo? Acho que qualquer um entende que um aluno tem o dever de respeitar um professor, mas em um suposto caso de desrespeito, espera-se que o professor tenha uma resposta mais madura para a situação. Formei em duas faculdades e nunca vi uma atitude tão infantil para um professor. E mais. Formei em Publicidade e em Direito em duas faculdades renomadas e em nenhum dos dois cursos e em nenhuma das minhas pós graduações vi um professor tomar uma atitude tão pueril para uma situação tão boba. Alunos reclamam de provas. Alunos criticam metodologias de ensino. Professores não respondem aos alunos por e-mail para toda a turma. Não gostaria que tivesse sido comigo e imagino que ninguém gostaria de passar por isso. Por mais que reclamasse da metodologia do professor…

        • Flavio Morgenstern

          Filomena, a necessidade de se entender inglês não advém do nome do curso, mas sim do conteúdo do curso. Língua estrangeira cai em todo vestibular, até mesmo de Exatas. Se não se quer aprender inglês, que se escolha um curso em que ele não é exigência. O aluno reclamou publicamente, a professora também respondeu da mesma forma. Não faz sentido reclamar de uma “atitude pueril” em uma resposta feita da mesma forma da reclamação do aluno.

          • Robson

            Eu formei em engenharia civil na federal de Brasília e era praxe professor recomendar “fortemente” bibliografia em inglês, espanhol, francês e até alemão. Todo mundo se virava. Enquanto me virava no curso de engenharia, fiz o equivalente a metade do curso de administração, pegando disciplinas obrigatórias deste curso. No último semestre de engenharia fiz a disciplina “Administração de marketing” cuja a bibliografia era o livro do Kotler “Administração de marketing”. É um livro que, apesar de ser editado em português, está repleto de “cases” e termos em inglês e a obra é considerada a Bíblia dos profissionais da propaganda. O ponto é : como o cara (ou a cara) espera que a universidade, a professora e todos os demais alunos tenham que baixar o nível da disciplina só pelo motivo de ter preguiça de usar um dicionário ou mesmo pedir ajuda a alguém e, quando não compactuam com o corpo mole, joga a carta coringa do ismo? O ismo faz dele menos capaz? Eu como estudante de engenharia e que nunca fiz curso de inglês na vida (aprendo sozinho)fui capaz de apresentar case da Gillette e Starbucks do último livro do Kotler que só encontrei em inglês… Os ismos servem de muleta para tudo que é picareta.

  • Maninho Sá

    “Quando se ofender dá poder às pessoas, as pessoas se ofendem mais facilmente”.
    John Stossel
    Estamos vivendo tempos da geração mais dengosa, vitimista, agressiva e desonesta intelectual da história; Ortega e Gasset se assustaria hoje com o nível do atual “homem massa”…

  • Gutemberg Valdivino Feitosa

    Desvalorização do profissional de educação.
    Fundamentalistas do oprimido.

  • Rodrigo Costa

    Flávio, fui aluno desta faculdade, no curso de PP também. Posso lhe dizer com firmeza que fatos como este mostram que todos colhemos o que plantamos. Digo isso porque nos 4 anos de curso fui bombardeado com marxismo cultural (Escola de Frankfurt era o tema mais recorrente) por quase todos os professores (raras excessões), o que não condiz com um curso que pretende formar profissionais para o mercado da propaganda, algo intimamente ligado à sociedade de livre mercado e à livre iniciativa.

    Na minha época (me formei em 2008) não havia estes grupelhos como a Frente LGBT Casperiana (seja lá o que isso for), mas as idéias por traz disso já estavam sendo plantadas. A doutrinação era descarada e posso afirmar que não é exclusividade da Cásper Líbero, já que, pelo que vi em outros departamentos de criação publicitária (sou redator), a postura “progressista” (e tudo que vem junto com isso) impera.

    Minha esposa trabalhou em várias agências voltadas para o mercado online, onde faziam propagandas, sites e ações em redes sociais para grandes marcas, ou seja, capitalismo e tecnologia fazendo a máquina funcionar. Uma vez estive em uma dessas agências e, para minha surpresa, havia um boneco em miniatura de Fidel Castro (com uma carinha bem simpática) entre enfeites e livros em uma estante.

    A Cásper Líbero só colheu o que plantou. Criou seu próprio algoz em um universo onde o centro acadêmico se chama “Vladimir Herzog” e a atlética é o “Exército Vermelho”. Não posso esconder que fico com um leve sentimento de “bem feito, ninguém mandou poluir a mente de estudantes com porcaria ao invés de gastar o tempo com o que realmente interessava para a vida profissional”, mas estas coisas realmente me preocupam, principalmente em um mercado que o “porralouquismo”, mais que a competência, parece critério para contratação.

  • Carlo Manfredini

    Humanos transformaram-se (linguisticamente) em uma massa uniforme e rasa, com termos de “senso comum” utilizados genericamente, moldando situações diversas a uma única interpretação. E o que dizer quando a “vítima”, de oprimida passa a ser opressora e algoz, mostrando o que eu sempre disse em meus posts e comentários: toda imposição cultural de uma suposta minoria, acaba por gerar um fundamentalismo, que é a própria distorção do fundamento, ou seja: a outra face exagerada da igualmente obscura moeda.

Sem mais artigos