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No dia 28 de setembro, à convite do programa Radioatividade da Jovem Pan, comenteisociologia de 140 caracteres que estava sendo feita sobre os arrastões nas praias do Rio de Janeiro. Para os justiceiros sociais de Twitter, muito bem assentados em sua classe média que pode passar o dia na internet, tratava-se de “justiça social”, pois eram pobres roubando ricos.

Os fatos não demoraram a complicar um pouco tal narrativa. Uma das vítimas que teve o celular roubado ganhava pouco mais de mil reais por mês. O ladrão de seu celular possuía até videogame de última geração dado por seu pai.

Expliquei como isto se devia a uma visão determinista da sociedade, herdada do Iluminismo que culminou na Revolução Francesa. Se existe algo errado na vida pública, como um assalto, tal se deveria a uma falta de “planejamento racionalista” na sociedade. Os pensadores do Iluminismo acreditavam que fariam uma sociedade perfeita se ela fosse comandada por eles próprios, impedindo desajustes do seu modelo central racionalista. Assim, um assalto nunca seria culpa de uma maldade individual no ser humano, mas sim de um erro “na sociedade”. Toda apropriação de propriedade alheia pela força, ou mesmo pela morte, seria culpa da “desigualdade”.

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A apresentadora Madeleine Lacsko me perguntou por que as pessoas não enxergam o mal. Tenho uma explicação lingüística simples. Da complexa tessitura da realidade, as pessoas apenas enxergam aquilo que são capazes de nomear e compreender – o restante fica num capiloso mundo caótico dos mistérios que não merecem explicação.

Para compreender um fenômeno como o mal ou um crime, é costume aferrar-se ao vocabulário já cristalizado. Todos sabem o que é um assalto, um seqüestro, um homicídio. Poucos sabem o que é peculato ou tráfico de influência – tais crimes, então, são via de regra ignorados como crimes, a não ser quando são assim nomeados por um terceiro – e mesmo assim, tão somente pela força psicológica que tais palavras evocam nos substratos inconscientes das pessoas.

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tripe-morgensternHoje em dia, vários novos vocábulos apareceram para descrever crimes ou comportamentos que grupos querem criminalizar. Surge o machismo, a homofobia, a transfobia. Alarga-se o conceito de racismo até os limites do racismo invertido. Ataca-se a liberdade de pensamento e expressão através do politicamente correto ou, já que o termo assentou-se como sinônimo de patrulha moralista, a responsabilidade social – ou a internet “humanizada”. Palavras em desuso por falência explicativa retornam como non plus ultra da fria descrição do concreto, como colonialismo e imperialismo. E elas convivem com novos termos que são quase o seu sinônimo, mas colocados em sinal invertido, como “apropriação cultural”.

A mentalidade coletiva, desta forma, fica refém apenas destas palavras que são aventadas por aí, e não consegue escapar desta gaiola conceitual. Ao ver um tiroteio, degolações pelo Estado Islâmico, estupros ou a obra final de um serial killer, não olham para a realidade diretamente, mas apenas através do filtro das palavras que crêem descrever todo o real: enxergam apenas os crimes da desigualdade, do colonialismo, do machismo (nunca definido com fronteiras claras), da homofobia, da intolerância, do desarmamento ou de outras crenças e palavras de ordem de sentido muito mais psicológico do que factual.

Cristalizados tais vocábulos de sentido oco, mas poder de agitação e sentimentalismo altíssimo, eles se tornam não apenas filtros que fingem “descrever” a realidade, fazendo com que o usuário dos vocábulos na verdade passe a ver cada vez menos os fatos – mas fazem também com que o falante ou leitor perca-se no poder impressionista de atração de palavras exageradamente repetidas por uma comunidade de bem falantes selecionada. Não à toa, a esquerda e o pensamento progressista assentam-se em grandes lingüistas e semioticistas, de Roman Jakobson a Noam Chomsky, de Lacan e da Escola de Frankfurt a Derrida e Foucault.

Este poder de cristalização, de uso freqüente que se confunde com a revelação de uma verdade óbvia, faz com que tais palavras também se tornem armas. Basta, na peneira que observa apenas “desigualdade” na vida concreta, declarar-se pertencente a um grupo escolhido a dedo como “menos favorecido” em relação a outro. Uma homem rico pode se considerar gordo e gay, uma mulher bonita só precisa se auto-declarar mulher, um universitário bem nascido não precisa de muito além de ser ciclista ou ateu, uma negra bem sucedida será sempre a vítima de racismo e opressão.

Os vocábulos correntes, apesar de ocos, são bem afiados. Na famosa análise de John Stossel, “quando se ofender dá poder às pessoas, as pessoas se ofendem mais facilmente”.

Uma notícia recente não surpreende quem conhece tal dinâmica. Um aluno transexual da Casper Líbero, Samuel Silva, 22 anos, foi expulso da faculdade após “criticar”, sabe-se lá em quais termos, a metodologia de uma professora.

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samuel silva casper liberoO aluno (a aluna, x alunx, algo), numa prova de redação universitária, segundo sua professora, foi o único (a única, x únicx) “aluno universitário que não teve capacidade de assimilar um áudio com sonora em Inglês, narrado lentamente, em linguagem cotidiana, de um filme de 30. Foi o único aluno a se sentir ‘colonizado’ por meio dessa solicitação. Foi o único aluno a não compreender o enunciado da questão que tratava de um comercial premiado, e era fundamentada por um texto base oferecido como consulta a todos”, como narra O Globo.

O aluno (a aluna, x alunx, algo) não fala inglês, e foi o único da sua turma a ser reprovado na prova. É estranho que um aluno (umx alunx, como queira) queira fazer um curso também chamado de marketing desconhecendo a língua universal da propaganda moderna. Da mesma forma, se sentiu “colonizado” por tal metodologia auto-explicável – mas não “colonizado” o suficiente para se furtar a utilizar o Facebook, ferramenta americana com nome em inglês.

A acusação do aluno perante a Universidade? Sem muita surpresa: transfobia. Se o aluno (x alunx, ele, digo, ela, quer dizer, elx) sofre algo, basta sacar sua condição de transexual para se portar como vítima e forçar com que os usuários do vocabulário cristalizado, mas não definido, creiam piamente que um caso como este não se refere a um aluno (01 alunx) sendo reprovado em uma prova em que até universitários de Exatas são obrigados a passar no Vestibular, e sim que apenas enxerguem “transfobia”, embora em nenhum momento (nem mesmo nas justicativas do alun… da pessoa) tenha alguma menção a um “preconceito” por ele ser transexual.

A Frente LGBT da faculdade (!) imediatamente lançou uma nota, acusando a faculdade e os professores de transfobia. E de muitas outras -fobias e -ismos:

“Nós, da Frente LGBT Casperiana, repudiamos toda e qualquer atitude classista, elitista e transfóbica por parte do corpo docente e administrativo da Cásper Líbero, e exigimos um posicionamento e retratação por parte da Faculdade, bem como apoio para políticas de inclusão e integração para alunas e alunos LGBTs e para estudantes que não têm como pagar a mensalidade”.

Há tudo no pacote apenas para um aluno: classe, na crença marxista de que existem “classes sociais” estanques (o velho polilogismo criticado por Ludwig von Mises), crítica à “elite” (um caso de paralaxe cognitiva, justamente em uma das Universidades mais elitistas de São Paulo) e a acusação de “transfobia” que parece um crime obscurantista por si só.

O que não se viu na nota foi nem meia palavra a respeito da incapacidade [email protected] [email protected] de ter uma nota num curso de marketing sendo o único publicitário de sua turma incapaz de compreender inglês. Sem exigir muito brilhantismo matemático, parece que dar nota para tal alun% é uma medida que geraria uma certa desigualdade social.

Já o Catraca Livre afirma que x alunx criou uma página no Facebook (americano e de nome inglês) “como espaço de luta e empoderamento”. Hoje está fácil tirar notas sem fazer provas, apenas afirmando-se estar “lutando”. Mas “empoderamento”, este também neologismo vitimista, não é um aportuguesamento um tanto canhestro do inglês empowerment, dos movimentos gays (outra palavra inglesa) justamente nos países acusados de colonialismo?

O aluno, @ [email protected]#$%&, na verdade, foi expulso sob acusação de agredir o coordenador do curso. Deu sua versão: Eu não o agredi, eu trombei com ele num corredor da faculdade”. Para conceitos tão assentados como “transfobia” sem uma definição objetiva, também urge entender como se “tromba” com um coordenador em um corredor sem que isso seja uma agressão.

Em tempo: sua professora foi demitida, e o coordenador, além de “trombado”, perdeu o cargo, mas segue como professor.

Enquanto a “Frente LGBT Casperiana” vocifera contra a transfobia e o elitismo (!) classista, além de “integração” para LGBTs (aparentemente, desobrigando-os dos mesmos conhecimentos exigidos dos outros alunos), a professora e o coordenador têm suas vidas e carreiras prejudicadas sem demonstração nenhuma dos motivos para terem sofrido isso. Deixamos aqui nossa “exigência de um posicionamento e retratação por parte da Faculdade” para estes profissionais, que estão sozinhos sem um -ismo e uma -fobia para que progressistas enxerguem a injustiça que sofrem.

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