Tragicomédia Esquerdista

Quixote

Em O Riso: Ensaio Sobre a Significação do Cômico, o filósofo Henri Bergson explica-nos que uma das causas do cômico é a presença de certa rigidez mecânica ali onde deveria haver maleabilidade atenta e flexibilidade viva por parte de uma pessoa.

Um sujeito que, ao correr pela rua, tropeça e cai, provoca riso nos transeuntes porque, por falta de agilidade, por desvio ou teimosia do corpo, os músculos continuaram realizando o mesmo movimento quando as circunstâncias exigiam algo diferente.

Imaginemos também um homem demasiado metódico, que se empenhasse em suas pequenas ocupações cotidianas com uma regularidade matemática. Caso algum gozador embaralhasse os seus objetos pessoais – como numa conhecida sequência do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulin –, o resultado do contraste entre o comportamento habitual e a nova situação gerada pela broma provocaria-nos riso: o pobre mete a pena no tinteiro e sai cola; acredita sentar numa cadeira sólida e se estatela no chão; tenta calçar os sapatos, mas os pés estão trocados.

Sua situação é análoga ao do sujeito que cai na rua. A razão da comicidade é idêntica em ambos os casos: a incapacidade de se adaptar, em tempo, a um obstáculo imprevisto ou a uma alteração nas circunstâncias.

Trata-se, em outro plano, da mesma comicidade que caracteriza o Dom Quixote de Cervantes, pois o nobre fidalgo, congelado na história, continuava a se portar como no tempo mítico dos cavaleiros andantes, sem atinar para a mudança de era e para a realidade em que viviam os seus contemporâneos. Quando se comporta como autômato, reagindo de maneira estereotipada a novas situações, o indivíduo humano se faz cômico.

É precisamente nesse sentido que os intelectuais de esquerda no Brasil são cômicos, quando insistem em reagir à realidade política atual nos termos do golpe militar de 1964. Aferrados a uma maneira grotescamente estereotipada de lidar com a realidade, nossos intelectuais – e, na esteira deles, gerações de jovens e crianças seus alunos – recorrem ao vocabulário do “golpe” para se referir a qualquer fenômeno que contrarie seus anseios ideológicos e projetos de poder.

Para dizer mais precisamente, a situação da intelligentsia de esquerda no Brasil é mais tragicômica do que cômica, porque, ao contrário do que se dá no campo meramente artístico, onde podemos observá-la de fora, a postura cômica dos nossos intelectuais provoca efeitos trágicos na realidade política e cultural do país.

Ao interpretar, por exemplo, ações de combate à corrupção como um grande esquema da elite golpista contra um governo popular, a nossa intelectualidade acaba, na prática, por fornecer meios de sustentação a esse governo, que tanto tem prejudicado os brasileiros, sobretudo os mais pobres.

Em suma, o que, de um ponto de vista meramente estético, seria considerado cômico, afigura-se como trágico no plano da ética. O Brasil paga um preço muito alto para que a sua classe intelectual possa continuar brincando de heróis da resistência democrática em seu playground mental.

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