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Se você deseja saber o que está se passando nos Estados Unidos, não há de ser nos escritos dos especialistas brasileiros que você encontrará uma resposta. Isso não é novidade para ninguém e já há muito tempo é sabido que tudo o que se escreve na grande mídia brasileira sobre política americana não é senão um eco servil das palavras de ordem do Partido Democrata. A disputa eleitoral de 2016, contudo, atingiu o que os americanos chamam de a new low, e isso decorre sobretudo da total incapacidade, por parte de nossos analistas, de compreender a principal personagem do atual cenário político americano: o empresário nova-iorquino Donald J. Trump.

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Mesmo entre aqueles que não têm o New York Times e a CNN como suas únicas fontes, há muitos equívocos sobre quem de fato é o candidato que, com a desistência do Senador Ted Cruz, acaba de garantir seu lugar como representante do Partido Republicano na disputa presidencial dos Estados Unidos da América. Isso revela que a dificuldade de compreender a candidatura e, mais ainda, a força da candidatura de Donald Trump advém não de um posicionamento político-partidário, mas sim de uma divisão muito mais profunda, aquela que há entre as elites falantes e a realidade da vida popular.

dallas-trump-rallyAqui, como nos Estados Unidos, as elites falantes – jornalistas, consultores, acadêmicos, burocratas e insiders políticos – foram em grande medida corrompidas por um corporativismo intelectual que, alçando-os a posições muito superiores às suas competências, deformou completamente sua visão do mundo real e os tornou indiferentes à realidade, aos problemas e às preocupações do cidadão médio. Esse fenômeno se revela com clareza no contraste entre o trato dispensado a Donald Trump pela base do Partido Republicano, que o adora, e aquele dispensado pela elite do mesmo partido, que o odeia.

Incapazes de encontrar para a candidatura de Trump uma classificação tranquilizante no repertório de análises usuais, muitos são os que, para explicá-la, levantam toda sorte de hipóteses extravagantes. A perplexidade de analistas de esquerda e de direita traz à luz conjecturas as mais bizarras, tal como a crença, à esquerda, de que Trump é na verdade um fascista movido por incontrolável ódio racista que deseja realizar na América o que Hitler não foi capaz de realizar na Alemanha, ou a teoria, à direita, de que Trump é na verdade um democrata infiltrado no Partido Republicano com o propósito de garantir à Hillary Clinton uma vitória acachapante em novembro.

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O que quer que se pense a respeito do idealizador e apresentador do reality show O Aprendiz, é necessário evitar conjecturas simplistas que não resistem ao confronto com a realidade e ir aos fatos para tentar compreender o que foi, afinal, que o eleitor republicano e independente médio viu nele.

DONALD TRUMP É UM VERDADEIRO CONSERVADOR?

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Against Trump - NROQuem tem acompanhado as primárias republicanas está familiarizado com a rejeição que a maior parte dos intelectuais conservadores têm em relação a Trump, algo que rendeu até uma edição especial da histórica National Review, publicada com a finalidade exclusiva de liquidar a candidatura do bilionário nova-iorquino. Expressão e síntese de um debate muito mais amplo que ocorria e ocorre entre os intelectuais conservadores americanos, essa edição da revista fundada por William Buckley Jr. trouxe uma série de artigos nos quais intelectuais da grandeza de um Thomas Sowell apresentaram seus motivos para rejeitar a candidatura de Trump.

Muitos dos artigos apresentados na revista e, posteriormente, por outras figuras da elite intelectual conservadora podem ser resumidos em uma única frase: “Donald Trump não é um verdadeiro conservador”. Deixando de lado a tradição de seus melhores mestres – pense em um Eric Voegelin ou em um Russell Kirk –, esse respeitável grupo de intelectuais se deixou inebriar por uma visão doutrinária e ideológica do conservadorismo, adotando em decorrência disso uma série de categorias inadequadas para analisar um indivíduo como Trump – algo que, infelizmente, tem encontrado eco no Brasil.

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Russel Kirk dizia que o “conservadorismo é a negação da ideologia” e Eric Voegelin ensinava que à corrupção da realidade pelas ideologias não deveríamos contrapor uma outra ideologia ou nos pautarmos por princípios gerais abstratos, mas sim nos mantermos radicalmente abertos à realidade. É importante lembrar dessas lições pois mesmo os conservadores mais insuspeitos podem incorrer no erro de abordar a realidade pelo prisma ideológico e transformar o conservadorismo numa cartilha; e a casta intelectual está muito mais sujeita a esse risco do que o conservador médio, que indiferente às inefáveis discussões teóricas, pauta-se tão somente pelo seu bom senso (ou melhor, pelo velho e bom common sense da tradição anglo-saxã).

Desse modo, perguntar se Trump é um verdadeiro conservador é pouco inteligente e pouco útil, pois, como nos lembrou o Professor Olavo de Carvalho em uma discussão recente com o Reinaldo Azevedo sobre o Deputado Jair Bolsonaro, “não se pode julgar agentes ou movimentos políticos somente pelos valores que eles aparentam representar, mas sim pela substância das suas ações, pela qualidade da sua estratégia e sua base de apoio”.

trump hotelE o que isso nos revela sobre Donald Trump? Trump é o oposto de um intelectual; ele é um homem prático que ao longo de sua vida teve de se adaptar e se reinventar diversas vezes para prosperar no concorrido mundo imobiliário nova-iorquino e em diversos outros setores em que ele se arriscou – nem sempre com sucesso, é verdade. Para ele, a ideologia nada mais é do que um murmúrio distante, impossível de ser ouvido nas construções repletas de máquinas e operários barulhentos ou nas reuniões de negócios realizadas cinquenta andares acima do solo das grandes metrópoles.

Em outras palavras, Trump é um homem de negócios, um capitalista pragmático – e aqui capitalismo aparece como fenômeno real e não como publicidade ideológica do tipo que só existe nos livros de Ayn Rand e nos sonhos dos anarco-capitalistas. O Capitalismo é imperfeito, imprevisível, incontrolável e flexível exatamente como Trump. Não há, no Capitalismo, espaço para rigidez ideológica ou para o apego doutrinal a abstrações teóricas. O mesmo vale para o bilionário que vem desconcertando toda a classe falante de seu país.

Tentar entender um homem prático por intermédio de teorias rígidas ou princípios ideológicos é a fórmula certa para o fracasso. Trump certamente não é um conservador em sentido clássico, mas tampouco é um “liberal” (independentemente da conotação que se dê à palavra), um socialista, um nacionalista ou um populista, como defendem, não sem argumentos plausíveis, alguns dos analistas que melhor entenderam Trump.

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Assim, quando a National Review, e com ela a elite intelectual republicana, se levanta contra a candidatura de Donald Trump é criado um embate entre homens da teoria contra um homem que prefere a ação – e o resultado desse embate todos conhecemos: o público preferiu à ação à teoria e, dando de ombros para os clamores dos intelectuais, escolheu como representante do Partido Republicano o único candidato que a elite partidária dizia que não podia ser apoiado em nenhuma hipótese.

Entender a razão desse apoio não é difícil: a teoria falhou repetidas vezes e se distanciou tanto da realidade popular que já não é capaz de encantar o senso comum dos eleitores. Parte significativa dos problemas enfrentados pelo americano médio e muito do desprezo às elites de Washington têm sua origem justamente nesse apego excessivo à teoria – Barack Obama é um sujeito 100% ideológico e a impotência dos republicanos diante da destruição causada pelo discípulo de Bill Ayers e Frank Marshall Davis é também fruto dos conselhos desligados da realidade oferecidos pelas vozes mais proeminentes da classe intelectual republicana, as mesmas que se voltaram contra Trump.

Republican presidential candidate Donald Trump waves to supporters during a campaign rally in Mobile, Ala., on Friday, Aug. 21, 2015. (AP Photo/Brynn Anderson)

Enquanto os intelectuais, à esquerda e à direita, apressavam-se para enquadrar ideologicamente a candidatura de Trump e para formular contra ele argumentos numa linguagem que simula a racionalidade padrão do seu grupo de referência, o republicano médio via além do jogo de fumaça ideológico e percebia que, à sua semelhança, Donald Trump nunca aderiu de modo rígido a nenhuma ideologia e jamais ofereceu propostas fundamentadas em princípios ideológicos, preferindo sempre priorizar um discurso que defende que é necessário montar uma boa equipe, resolver os problemas, eliminar os entraves governamentais que impedem a iniciativa privada de propor respostas aos grandes desafios do nosso tempo e principalmente conseguir acordos melhores para restaurar a grandeza de seu país.

O que os intelectuais viam como um discurso vago e pouco confiável era visto pelos eleitores como uma mudança de atitude que abria caminho para soluções simples e práticas, ao gosto do bom senso do americano médio. As razões que o levaram a ser rejeitado pela classe falante foram, portanto, as mesmas que o levaram a ser escolhido e sagrado vencedor pelo eleitorado republicano, demonstrando mais uma vez que a política não é um jogo de idéias ou propostas, mas sim um jogo de identidades.

Adotando critérios objetivos de análise, pode-se ver com a maior clareza possível que Trump, longe de ser um aliado democrata, tem tudo para entrar para a história como um dos maiores inimigos da esquerda americana — suas ações têm demolido o politicamento correto e as restrições à liberdade de expressão tão caros à esquerda, sua estratégia tem permitido vencer todos os confrontos travados com a grande mídia americana, e sua base de apoio é formada por republicanos e independentes que estão cansados do domínio das ideologias.

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