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Se você deseja saber o que está se passando nos Estados Unidos, não há de ser nos escritos dos especialistas brasileiros que você encontrará uma resposta. Isso não é novidade para ninguém e já há muito tempo é sabido que tudo o que se escreve na grande mídia brasileira sobre política americana não é senão um eco servil das palavras de ordem do Partido Democrata. A disputa eleitoral de 2016, contudo, atingiu o que os americanos chamam de a new low, e isso decorre sobretudo da total incapacidade, por parte de nossos analistas, de compreender a principal personagem do atual cenário político americano: o empresário nova-iorquino Donald J. Trump.

Mesmo entre aqueles que não têm o New York Times e a CNN como suas únicas fontes, há muitos equívocos sobre quem de fato é o candidato que, com a desistência do Senador Ted Cruz, acaba de garantir seu lugar como representante do Partido Republicano na disputa presidencial dos Estados Unidos da América. Isso revela que a dificuldade de compreender a candidatura e, mais ainda, a força da candidatura de Donald Trump advém não de um posicionamento político-partidário, mas sim de uma divisão muito mais profunda, aquela que há entre as elites falantes e a realidade da vida popular.

dallas-trump-rallyAqui, como nos Estados Unidos, as elites falantes – jornalistas, consultores, acadêmicos, burocratas e insiders políticos – foram em grande medida corrompidas por um corporativismo intelectual que, alçando-os a posições muito superiores às suas competências, deformou completamente sua visão do mundo real e os tornou indiferentes à realidade, aos problemas e às preocupações do cidadão médio. Esse fenômeno se revela com clareza no contraste entre o trato dispensado a Donald Trump pela base do Partido Republicano, que o adora, e aquele dispensado pela elite do mesmo partido, que o odeia.

Incapazes de encontrar para a candidatura de Trump uma classificação tranquilizante no repertório de análises usuais, muitos são os que, para explicá-la, levantam toda sorte de hipóteses extravagantes. A perplexidade de analistas de esquerda e de direita traz à luz conjecturas as mais bizarras, tal como a crença, à esquerda, de que Trump é na verdade um fascista movido por incontrolável ódio racista que deseja realizar na América o que Hitler não foi capaz de realizar na Alemanha, ou a teoria, à direita, de que Trump é na verdade um democrata infiltrado no Partido Republicano com o propósito de garantir à Hillary Clinton uma vitória acachapante em novembro.

O que quer que se pense a respeito do idealizador e apresentador do reality show O Aprendiz, é necessário evitar conjecturas simplistas que não resistem ao confronto com a realidade e ir aos fatos para tentar compreender o que foi, afinal, que o eleitor republicano e independente médio viu nele.

DONALD TRUMP É UM VERDADEIRO CONSERVADOR?

Against Trump - NROQuem tem acompanhado as primárias republicanas está familiarizado com a rejeição que a maior parte dos intelectuais conservadores têm em relação a Trump, algo que rendeu até uma edição especial da histórica National Review, publicada com a finalidade exclusiva de liquidar a candidatura do bilionário nova-iorquino. Expressão e síntese de um debate muito mais amplo que ocorria e ocorre entre os intelectuais conservadores americanos, essa edição da revista fundada por William Buckley Jr. trouxe uma série de artigos nos quais intelectuais da grandeza de um Thomas Sowell apresentaram seus motivos para rejeitar a candidatura de Trump.

Muitos dos artigos apresentados na revista e, posteriormente, por outras figuras da elite intelectual conservadora podem ser resumidos em uma única frase: “Donald Trump não é um verdadeiro conservador”. Deixando de lado a tradição de seus melhores mestres – pense em um Eric Voegelin ou em um Russell Kirk –, esse respeitável grupo de intelectuais se deixou inebriar por uma visão doutrinária e ideológica do conservadorismo, adotando em decorrência disso uma série de categorias inadequadas para analisar um indivíduo como Trump – algo que, infelizmente, tem encontrado eco no Brasil.

Conservatives-Against-Trump (1)

Russel Kirk dizia que o “conservadorismo é a negação da ideologia” e Eric Voegelin ensinava que à corrupção da realidade pelas ideologias não deveríamos contrapor uma outra ideologia ou nos pautarmos por princípios gerais abstratos, mas sim nos mantermos radicalmente abertos à realidade. É importante lembrar dessas lições pois mesmo os conservadores mais insuspeitos podem incorrer no erro de abordar a realidade pelo prisma ideológico e transformar o conservadorismo numa cartilha; e a casta intelectual está muito mais sujeita a esse risco do que o conservador médio, que indiferente às inefáveis discussões teóricas, pauta-se tão somente pelo seu bom senso (ou melhor, pelo velho e bom common sense da tradição anglo-saxã).

Desse modo, perguntar se Trump é um verdadeiro conservador é pouco inteligente e pouco útil, pois, como nos lembrou o Professor Olavo de Carvalho em uma discussão recente com o Reinaldo Azevedo sobre o Deputado Jair Bolsonaro, “não se pode julgar agentes ou movimentos políticos somente pelos valores que eles aparentam representar, mas sim pela substância das suas ações, pela qualidade da sua estratégia e sua base de apoio”.

trump hotelE o que isso nos revela sobre Donald Trump? Trump é o oposto de um intelectual; ele é um homem prático que ao longo de sua vida teve de se adaptar e se reinventar diversas vezes para prosperar no concorrido mundo imobiliário nova-iorquino e em diversos outros setores em que ele se arriscou – nem sempre com sucesso, é verdade. Para ele, a ideologia nada mais é do que um murmúrio distante, impossível de ser ouvido nas construções repletas de máquinas e operários barulhentos ou nas reuniões de negócios realizadas cinquenta andares acima do solo das grandes metrópoles.

Em outras palavras, Trump é um homem de negócios, um capitalista pragmático – e aqui capitalismo aparece como fenômeno real e não como publicidade ideológica do tipo que só existe nos livros de Ayn Rand e nos sonhos dos anarco-capitalistas. O Capitalismo é imperfeito, imprevisível, incontrolável e flexível exatamente como Trump. Não há, no Capitalismo, espaço para rigidez ideológica ou para o apego doutrinal a abstrações teóricas. O mesmo vale para o bilionário que vem desconcertando toda a classe falante de seu país.

Tentar entender um homem prático por intermédio de teorias rígidas ou princípios ideológicos é a fórmula certa para o fracasso. Trump certamente não é um conservador em sentido clássico, mas tampouco é um “liberal” (independentemente da conotação que se dê à palavra), um socialista, um nacionalista ou um populista, como defendem, não sem argumentos plausíveis, alguns dos analistas que melhor entenderam Trump.

Assim, quando a National Review, e com ela a elite intelectual republicana, se levanta contra a candidatura de Donald Trump é criado um embate entre homens da teoria contra um homem que prefere a ação – e o resultado desse embate todos conhecemos: o público preferiu à ação à teoria e, dando de ombros para os clamores dos intelectuais, escolheu como representante do Partido Republicano o único candidato que a elite partidária dizia que não podia ser apoiado em nenhuma hipótese.

Entender a razão desse apoio não é difícil: a teoria falhou repetidas vezes e se distanciou tanto da realidade popular que já não é capaz de encantar o senso comum dos eleitores. Parte significativa dos problemas enfrentados pelo americano médio e muito do desprezo às elites de Washington têm sua origem justamente nesse apego excessivo à teoria – Barack Obama é um sujeito 100% ideológico e a impotência dos republicanos diante da destruição causada pelo discípulo de Bill Ayers e Frank Marshall Davis é também fruto dos conselhos desligados da realidade oferecidos pelas vozes mais proeminentes da classe intelectual republicana, as mesmas que se voltaram contra Trump.

Republican presidential candidate Donald Trump waves to supporters during a campaign rally in Mobile, Ala., on Friday, Aug. 21, 2015. (AP Photo/Brynn Anderson)

Enquanto os intelectuais, à esquerda e à direita, apressavam-se para enquadrar ideologicamente a candidatura de Trump e para formular contra ele argumentos numa linguagem que simula a racionalidade padrão do seu grupo de referência, o republicano médio via além do jogo de fumaça ideológico e percebia que, à sua semelhança, Donald Trump nunca aderiu de modo rígido a nenhuma ideologia e jamais ofereceu propostas fundamentadas em princípios ideológicos, preferindo sempre priorizar um discurso que defende que é necessário montar uma boa equipe, resolver os problemas, eliminar os entraves governamentais que impedem a iniciativa privada de propor respostas aos grandes desafios do nosso tempo e principalmente conseguir acordos melhores para restaurar a grandeza de seu país.

O que os intelectuais viam como um discurso vago e pouco confiável era visto pelos eleitores como uma mudança de atitude que abria caminho para soluções simples e práticas, ao gosto do bom senso do americano médio. As razões que o levaram a ser rejeitado pela classe falante foram, portanto, as mesmas que o levaram a ser escolhido e sagrado vencedor pelo eleitorado republicano, demonstrando mais uma vez que a política não é um jogo de idéias ou propostas, mas sim um jogo de identidades.

Adotando critérios objetivos de análise, pode-se ver com a maior clareza possível que Trump, longe de ser um aliado democrata, tem tudo para entrar para a história como um dos maiores inimigos da esquerda americana — suas ações têm demolido o politicamento correto e as restrições à liberdade de expressão tão caros à esquerda, sua estratégia tem permitido vencer todos os confrontos travados com a grande mídia americana, e sua base de apoio é formada por republicanos e independentes que estão cansados do domínio das ideologias.

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  • Kalebe

    Olá Flávio, gostaria que você e os outros colaboradores do senso incomum me indicassem referências na mídia americana para que eu possa saber com sensatez oq se passa por lá, principalmente em relação à corrida presidencial. Grato!

  • Um exemplo ainda mais real de “publicidade ideológica” é o “Leviatã” de Hobbes.

  • Leonardo Leahy

    Eu simplesmente não consegui ler este artigo e não escrever nada, diante de tanta desconexão com o processo eleitoral americano. Vamos lá:

    (1) “Trump é o oposto de um intelectual; ele é um homem prático que ao longo de sua vida teve de se adaptar e se reinventar diversas vezes para prosperar no concorrido mundo imobiliário nova-iorquino e em diversos outros setores em que ele se arriscou”. É verdade, Trump é um homem prático, mas ser homem prático não quer dizer ser desprovido de valores com os quais possamos nos guiar. Donald Trump, como homem de negócios, doou milhões para políticos democratas, inclusive a tão desprezível Hillary Clinton, Donald Trump entrou com ações defendendo o que aqui seria semelhante à função social da propriedade, na tentativa de DESAPROPRIAR moradores de suas casas para construir um mega-resort. Donald Trump já declarou várias vezes que o que o guia é sua cobiça e avareza, etc, etc… Dizer que alguém é pragmático não o escusa de fazer escolhas morais.

    (2) “O Capitalismo é imperfeito, imprevisível, incontrolável e flexível exatamente como Trump.” Trump não é o capitalismo, e o sistema de livre mercado, para funcionar bem, precisa, à priori, da confiança das pessoas, e alguém como Trump é tudo menos confiável. Saber que um sujeito já foi contra e a favor do aborto, contra e a favor do aumento do salário mínimo, contra e a favor da ideologia de gênero é minar qualquer laço de confiança possível.

    (3) “Trump certamente não é um conservador em sentido clássico, mas tampouco é um ‘liberal'”. Trump é sim um progressista, no mínimo. Declarações recentes mostra que seu vácuo moral tem-lhe empurrado à esquerda, como quando disse que as políticas de gênero sobre banheiros deveriam ser deixada em paz em estado que não me vem à mente agora. Sem falar nas recentes declarações de aumento de salário mínimo para 15 dólares e políticas protecionistas. Falar que Trump vai melhorar a economia, assim, é brincadeira de mal gosto.

    (4) “Donald Trump nunca aderiu de modo rígido a nenhuma ideologia e jamais ofereceu propostas fundamentadas em princípios ideológicos, preferindo sempre priorizar um discurso que defende que é necessário montar uma boa equipe, resolver os problemas, eliminar os entraves governamentais que impedem a iniciativa privada.”

    Donald Trump vem cercando-se de analistas e políticos do stablishment americano, contradizendo-se com aquilo que alegava inicialmente: ser contra o stablishment. O que você parece ser incapaz de perceber, é que Trump é o outro lado da moeda do stablishment. Não é o político, mas é o econômico. A vida inteira relacionando-se com raposas velhas tanto do partido democrata quanto do partido republicano mostra que seria muito estranho esse mesmo relacionamento não continuar agora.

    Para finalizar, aponto para o seguinte fato: Donald Trump conseguiu 33% dos votos populares (desconsiderando o número de delegados), o que nem de perto é uma maioria ou uma expressão do povo americano, como você quis fazer seus leitores acreditarem. A corrida republicana foi muito disputada, e os votos simplesmente foram diluídos entre os candidatos. O que Trump conseguiu foi beneficiar-se do sistema eleitoral americano, que confere mais vantagem (e delegados) àquele candidato que está à frente.

    Diante de seu histórico, de suas ações pragmáticas e declarações, diga o que for de Trump, só não venha dizer que ele é um capitalista de livre mercado e a expressão do common sense americano, porque isto não é verdade. Trump é um populista e parte do stablishment econômico (o outro lado do stablisment político) e acaba de destruir o Partido Republicano como o conhecíamos, tendo em vista seus números de rejeição.

  • Maurício

    Flávio, parabéns, ótimo texto, mas falando de um assunto meio off-topic, você se expressa muito bem, eu vejo você e o Conde loppeux (vlogger), e admiro a capacidade de elucidação de vocês, o modo como vocês conseguem colocar suas ideias de forma muito clara e lógica. Você teria alguma dica pra mim? algum livro pra ler ou alguma técnica pra que eu possa argumentar melhor e melhorar minha retórica? Eu tenho problemas pra colocar minhas ideias e argumentar, estudar o Trivium resolveria isso? kkk, abraço!

  • Everton

    Vejam o vídeo deste tweet, é sensacional:

    “You think Trump won’t get Mexico to pay for the wall?

    He already has Hillary making his campaign ads.”

    https://twitter.com/Ricky_Vaughn99/status/728268569306378242

  • twitter_irjunqueira

    Dá para traçarmos um paralelo e afirmar que está acontecendo algo similar com o Bolsonaro no Brasil?

    • Pablo Dias

      Do ponto de vista da mídia e das forças políticas, em grande parte sim.
      Tanto Bolsonaro quanto Trump sofrem, por parte da mídia e de seus opositores, por parte da esquerda e da própria direita, pesados e contínuos ataques e tentativas de desconstrução (que ironicamente e frequentemente, acabam atraindo mais seguidores do que repelindo).
      Mas com relação aos candidatos em si, há diferenças grandes entre ambos.

  • Pablo Dias

    É assustador o quanto a rejeição emocional a algo ou alguém faz com que indivíduos ofusquem completamente a razão e passem a usar artifícios falaciosos para tentar justificar e dar um toque racional a uma rejeição que é meramente subjetiva e emocional.
    O caso de Trump é emblemático.
    “Ai, ele fala alto, ai ele parece grosso. Ui, ele aborda assuntos polêmicos. Ele não tem decoro para presidente. É um descontrolado. E quando precisar decidir se vai apertar o botão para a bomba atômica?”.
    Pouco importa o que ele fala. A rejeição das pessoas é muito mais visceral e estética (como ele fala) a princípio do que ética.
    Mas é quando tentam passar para a crítica ética e substancial (o que ele fala) que constroem as falácias.
    “Homofóbico” (sendo que nunca falou nada contrário a gays em geral, aliás, dos republicanos, é um dos candidatos mais tolerantes).
    “Misógino” (apenas por ter feito piadas específicas com duas mulheres, uma jornalista e a outra candidata do partido republicano. Os críticos ignoram depoimentos de sua própria mulher de de milhares de outras mulheres que trabalharam para ele e o adoram)
    “Fascista” (essa é uma das piores, Trump, apesar de em certo grau nacionalista, é um dos candidatos menos militaristas no sentido beligerante que os EUA já viu em décadas)
    “Racista” (nunca tentou colocar raças como superiores ou inferiores nem apontou supremacia de uma raça sobre as demais, portanto simplesmente não encaixa na definição)
    “Xenófobo” (por propor medidas contrárias a imigração ilegal, sem entretanto nunca ter atacado a imigração legal).
    “Descontrolado” (ignora que o homem é um negociador nato, algo muito difícil para alguém sem um grau elevado de auto-controle e capacidade de ceder em alguns pontos).
    E por ai vai.
    São críticas pueris e completamente desconectadas da realidade.

  • Boa análise. Outro ponto fundamental foi a recusa de Trump a se curvar diante da chantagem emocional da mídia e sua insistência em chamar as coisas pelo seu devido nome, como no caso dos “Anchor Babies”

  • Everton

    Consertar:

    “e a casta intelectual está muito mais *sujeito*”

    • Flavio Morgenstern

      Obrigado, Everton! Corrigi aqui.

  • Renato

    Como sempre o Senso Incomum dando de lavada.

  • ana

    Filipe, parabéns pelo excelente texto de estreia. Me fez olhar com bem melhores olhos o candidato Donald Trump!

  • Raquel

    Felipe, Parabens! Fantastico trabalho. Quando virao as proximas postagens?Keep it up!!!!

  • Peggy Noonan falou que Trump representa os “desprotegidos”, aquelas pessoas que são afetadas no seu dia-a-dia pelas decisões dos burocratas de Washington e pelas ideias que os jornalistas e comunicadores pregam nas suas redações.
    Eu, sinceramente, não gosto de Donald Trump. Acho que a sua campanha foi, em alguns casos, desrespeitosa e até infantil. Deve haver alguma diferença entre ser politicamente incorreto ou apenas ofensivo.
    Espero que ele vença a Hillary (o Alexandre Borges me convenceu a ser Trump desde criancinha) e que faça um bom governo. Aguardo ansioso pelas próximas partes de seu texto.

  • Bela adição ao senso incomum! Texto magnífico que trás muita luz ao assunto.

    Brilhante, sagaz e nenhum pouco enfadonho. Compartilhado!

  • O texto está muito bem escrito, mas é lugar comum dizer que Trump é o candidato que o establishment GOP não queria. Eu conheço muito bem um político que despreza conhecimento teórico e que diz que quem discorda do que ele pensa (pensava, ou dizia pensar) só o fazia por preconceito. Coincidentemente ambos não rebatem as indagações teóricas com dados, mas com retórica.

    Enfim, um ponto dessa tese exposta no artigo é relevante; ele é um prático, isso é inegável. Um prático no sentido de buscar mais votos no curto prazo, nem que para isso tenha que apelar ao puro populismo ou medidas inexequíveis. Das 3 medidas centrais do Trump, nenhuma é materializável. Veja bem, não digo ideologicamente, ou mesmo concretamente em atingir o que ele propagandeia, mas digo que se implementadas elas não teriam sentido prático (para não dizer lógico) tampouco teriam um efeito próximo do esperado.

    1 – Muro. Sim é possível construir um muro cobrindo toda a fronteira EUA-México. Vai custar caríssimo, e não, o México não pagará por ele. O ponto é: faz sentido? Interromperá, ou mesmo diminuirá a ação de coiotes? Eu digo que os coiotes cobrarão mais dinheiro por incluir no pacote uma escada de 30ft. Grande parte da imigração ilegal se dá por pessoas que entraram no país por meios legais, por vias aéreas e que não veriam a cor do muro.

    2 – Interromper a imigração de muçulmanos. Ele interromperá uma visita do Rei da Jordânia? Ou do candidato do labour party a prefeitura de Londres (cotado como potencial vencedor da eleição que ocorreu hoje 04/05/2016)? Ou de Muhammad Yunus ganhador do Nobel da Paz? Ou de Malala Yousafzai, também vencedora do Nobel da paz? Ou de Aziz Sancar, vencedor do Nobel química do ano passado por suas pesquisas com regeneração de DNA? E se o sujeito preferir não declarar a própria religião, ele criará uma lei forçando-o a fazê-lo? E se o sujeito mentir a respeito d própria religião? Qual o efeito prático disto?

    3 – ”Trazer de volta” empregos americanos que foram para a China e obrigar empresas como a Apple a manufaturar produtos nos EUA. Alguém em sã consciência acha que algum americano aceitará receber $2 por hora para apertar parafusos e encaixotar celulares? Sério mesmo? Mesmo na China esse tipo de emprego se mostra desvantajoso e vem sendo substituído por robôs ou terceirizado para o Vietnã. O que traz dividendo e recursos aos EUA é a propriedade intelectual, o capital humano necessário para projetar esses produtos. O lucro advém de boas relações comercias que permitem distribuir a cadeia produtiva ao redor do globo, tal qual ter acesso a diferente mercados.

    Acho que a aversão pelos oponentes do Trump, vem causando um entusiasmo descabido em tentar elevar um marqueteiro a posição de líder político. Wishfull thinking. E por favor, não venha compará-lo com Ronald Reagan. Reagan foi governador da Califórnia antes de alçar voos mais altos. Trump não se elegeria para o senado em Nova Iorque, sua terra natal.

    • Filipe G. Martins

      Jorge;

      O artigo tem pelo menos mais duas partes. Acredito que elas responderão alguns dos pontos que você está levantando aqui. Mas vou antecipar algumas considerações:

      1. Você teve a oportunidade de ler os documentos publicados pela campanha do Trump no qual a reforma migratória que ele propõe é explicada em mais detalhes? Além de explicar como o muro será construído e mostrar as diversas formas de conseguir que o México arque com os gastos do empreendimento (confiscando as remessas de dinheiro feitas por imigrantes ilegais, por exemplo), os documentos explicam as medidas que serão tomadas em outros pontos de entrada (aeroportos, portos marítimos, etc.), as mudanças que serão feitas na concessão de vistos e as medidas que serão adotadas para desestimular a imigração ilegal. Mais do que isso, os documentos mostram que ele não terá que criar nenhuma lei nova, pois, da construção do muro à reforma na concessão de vistos, todas as medidas propostas por ele para consolidar as fronteiras e melhorar o controle migratória dependem apenas da execução de leis que já foram votadas e aprovadas pelo Congresso. Ademais, ontem mesmo os políticos mexicanos que haviam o criticado já começaram a se desculpar e a dizer que estão dispostos a discutir esses problemas com ele.

      2. A proposta dele é criar uma restrição temporária à entrada de imigrantes de regiões específicas, delimitadas previamente. Nada que já não tenha sido feito antes pelos Estados Unidos. O Presidente Carter, por exemplo, bloqueou temporariamente a imigração iraniana exatamente da mesma forma que o Trump está propondo agora.

      3. Eu não discordo de sua visão do comércio internacional e o Trump também não. Porém, o que ele está fazendo é colocar a geopolítica acima do economicismo e propor meios de combater os truques sujos utilizados pelo governo chinês e forçar o Partido Comunista Chinês a adotar os padrões mínimos exigidos para que a China possa ser reconhecida como uma economia de mercado. O Reagan, mencionado por você, adotou medidas protecionistas (quando a Harley Davidson estava em perigo, por exemplo) e soube colocar a geopolítica acima do economicismo para obter ganhos de longo prazo, mesmo que causando alguns prejuízos de curto prazo.

      Por fim, concordo que o Trump e o Ronald Reagan são pessoas completamente diferentes, porém, como dois dos três biógrafos mais proeminentes ressaltaram, a ascensão dos dois tem muitos elementos em comum, ainda que a personalidade e o background deles sejam totalmente distintos. Quanto à afirmação de que o Trump não se elegeria como Senador em Nova York, recomendo que você dê uma olhada nos resultados que ele obteve lá e espere para ver como ele vai se sair no estado nas eleições de novembro.

      Sobre o Trump dizer o que as pessoas querem ouvir, recomendo o artigo publicado ontem pela Ann Coulter sobre isso. Vale a pena.

      • João

        Aguardando os próximos artigos!

    • Pablo Dias

      Espantalho 1: “O muro não vai resolver todos os problemas de imigração”. Ninguém disse que vai. Quem está reduzindo a questão imigratória ao muro é você, não o programa dele. O muro dificulta a entrada, e faz com que os interessados em cruzar a fronteira terrestre ilegalmente (que correspondem a 60% do total de imigrantes ilegais aliás) precisem cavar túneis ou subir o muro, um baita desestímulo.
      Espantalho 2: “Interromper a visita de muçulmanos”, ninguém falou em interromper visita de chefes de Estado, falou em interromper imigração de grupos específicos. A diferença entre um chefe de Estado visitar um país e um indivíduo comum tentar imigrar para o mesmo país é (ou deveria ser) bastante clara.
      O ponto 3 é o único que é, de fato, controverso. A posição protecionista dele do ponto de vista econômico é questionável e ele, como não é burro, deve rever isso e encontrar um meio termo com sua equipe econômica.
      De todo modo, 2/3 dos seus questionamentos são baseados em falácias.
      Perceba que, como 99% dos críticos de Trump, você critica ideias que você mesmo criou, não as ideias dele.

      • Jorge Olimpio

        1 – Em nenhum momento disse que o muro não resolverá todos os problemas de imigração. Apesar de você ter colocado em entre aspas, eu não disse isso. O que eu disse é que o muro não alterará em nada, repito nada, repiso zero, a imigração ilegal territorial. Desde a invenção da pá e da escada pode-se transpassar um muro em um território continental não vigiado.

        2 – Aqui Trump por Trump. https://youtu.be/FdAo4aVVPE4
        Foque-se no que Trump falou, a única exceção são muçulmanos americanos. Somente esses. Não, ele não atribui restringir a imigração a áreas específicas do globo. Repito: não, ele não fala de países, regiões ou qualquer território que seja. Fala de religião, sendo o indivíduo nativo do oriente médio ou do Canadá. Chefe de estado ou cozinheiro de um navio que atraca no porto. Ponto. Se você concorda com essa medida do Trump, tenha a honestidade de defendê-la, caso discorde, não distorça-a para que fique mais palatável a sua opinião.

        3 – Aqui é o máximo do wishfull thinking, “ele deve ter uma idéia melhor para isso”… É claro, pois é inexequível e impraticável, mas rende uma porção de votos de quem tem conhecimento nulo de macro-economia. Ele fala isso, vende isso, propagandeia isso, porque dá votos. Em um ano de implementada essa medida, o mercado da Apple seria devorado pelas empresas coreanas. Aí os EUA não apenas seriam uma país como menos pessoas empregadas na manufatura de celulares, mas também com menos nos projetos de software e hardware.

        Defensores incondicionais do Trump se tornaram aquilo que odiavam quando olhavam para a hipócrita propapaganda progressista: defensores de uma agenda, não defensores de valores. A indicação do Trump como nominado GOP deveria ser algo a se lamentar profundamente.

        O partido republicano passou tempo demais descolado da realidade, perdeu a sua essência de proteger o cidadão do estado. Passou a dar vazão a discursos que amealhavam um bloco do eleitorado e acomodou-se com isso. A nominação de um sujeito isolacionista que sugere obras faraônicas como soluções mágicas de efeito nulo é a morte da racionalidade.

        • Pablo Dias

          1. “…o muro não alterará em nada, repito nada, repiso zero, a imigração ilegal territorial.”
          Argumento do tipo “bola de cristal” e anti-empírico. O muro, além de uma barreira física por si só, obviamente vem acompanhado de segurança a seu redor. É evidente que dificultará o número de cruzamentos na mesma medida em que aumenta a dificuldade dos mesmos.
          2. Ele falou em chefes de Estado? Não, pois é. Falou que novos muçulmanos tentando entrar no país deveriam ser bloqueados até que se averigue os motivos por trás de sua entrada.
          E com relação ao ponto 3, o único no qual você tem alguma razão (e portanto convergimos), que bom que você, ao menos, compreende que ganhar eleição é diferente de governar não é mesmo? Historicamente, qualquer político precisa de algum apelo nacionalista-protecionista durante as eleições, principalmente aqui nos EUA. Falar em open borders imigratórias ou comerciais durante uma eleição seria um suicídio eleitoral.
          “Wishful thinking” é esperar que algum candidato seja puro e coerente com relação a tudo, ainda mais durante a eleição, e não pesar qualidades e defeitos, riscos e benefícios. Basta ver o “sucesso” que os candidatos libertários, os únicos que seriam 100% a favor de liberdades individuais e estado mínimo, alcançam durante as eleições.

  • João

    O Trump é um autêntico Cisne Negro, como explicado pelo Nassim Taleb. Ele não é “imprevisível”, isso só aqueles que vivem presos num quartinho ideológico (“ai, tem que seguir minha cartilha, senão eu não gosto”) pensam. Ele é pragmático.

    O mundo real é complicado. Não é preto e branco, é cinza. Não é um livro do Rothbard, do Mises, do Voegelin ou do Kirk (estes últimos, como você lembrou muito bem, eram contra QUALQUER ideologia, inclusive essa ideologia “conservadora” da classe falante do GOP) que vão explicar o que você deve fazer para combater o terrorismo, por exemplo (invadir um país distante com um povo encardido ou me fechar em casa e apostar que conseguirei me proteger? Abandonar um país invadido, poupando grana e tropas, ou manter a ocupação para evitar a vinda de bandidos islâmicos?)

    ESSE é o tipo de problema que o pessoal do quartinho, do leite com pêra, que paga mensalidade do Mises e usa a bandeira do “Dont tread on me” não sabe lidar. Eles só sabem forçar a realidade à sua posição política, quando deveria ser o oposto.

    Os EUA têm sérios problemas, e não será uma cartilha que vai resolvê-las. É uma equipe competente e apoio político no Congresso.

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