Os petistas evitam tocar no assunto, mas Lula e Marisa Letícia não conseguem escapar: se o triplex do Guarujá é deles, a cadeia os espera.

Lula e Marisa Letícia, a esposa do ex-presidente, foram finalmente indiciados pelo caso do triplex no Guarujá, que o casal jura que não é dele. O caso é um imbróglio sério para o PT: o partido manteve sua militância com o discurso de que não-sabia-de-nada, mas nem mesmo quem apóia Lula e Dilma se convence de que o triplex não é de Lula.

A permanência de Dilma na presidência consegue ser defendida em uma narrativa galgada na idéia de que pedalada não é crime e, caso seja crime, Dilma não tinha responsabilidade e, caso Dilma tenha responsabilidade, todo mundo já fez pedalada, portanto Dilma não pode ser julgada e é golpe.

E caso se compare o tamanho da pedalada de Dilma com a de todos os outros governantes somados, ainda resta o usufruto de que a presidente Dilma é de esquerda e defende causas progressistas, como o aborto, o casamento gay, os pobres, cotas, desarmamento etc, mesmo que nada tenha feito por isso durante o seu mandato.

Já um triplex é algo menos abstrato do que pedaladas fiscais e decretos legislativos. As pessoas entendem melhor o que é um triplex. Não há muitas escusas sociais em um triplex no Guarujá. Não há defesa de ética que se coadune com um triplex. Não há discurso não-sabia-de-nada que convença alguém de que estava ganhando um triplex do qual pediu uma reforma e não tem responsabilidade nenhuma por seu usufruto.

Sobretudo, um triplex não é exatamente algo pelo qual se possa diluir o entendimento da população numa abstração, como as pedaladas. Não se consegue afirmar que Lula não é dono do triplex no Guarujá, que o triplex no Guarujá não é crime, que se o triplex no Guarujá é crime, Lula não sabia do triplex no Guarujá e, caso seja dono e seja crime, todo mundo tem triplex no Guarujá (“Um apartamento banal numa praia banal – a cidade plebeia do Guarujá”, segundo o Diário do Centro do Mundo [sério]), portanto é perseguição ao único presidente do povo.

Melhor partir para a Operação Abafa e não tocar no assunto – a não ser gente lobotomizada o suficiente para ler Diário do C. do Mundo e acreditar que triplex no Guarujá é um apartamento banal numa praia banal, a cidade “plebéia” do Guarujá.

O caso, na realidade, lembra outro escândalo petista, até hoje sem solução: o escândalo dos aloprados, quando petistas tentaram comprar, com malas atoladas de dólares, um dossiê fajuto contra José Serra, em 2006. A Polícia Federal baixou, vários petistas caíram (como Ricardo Berzoini, Freud Godoy, Expedito Veloso e Jorge Lorenzetti, no festival de sobrenomes chiques do PT), e ninguém reclamou o dinheiro até hoje.

Parece que era um dinheiro de ninguém. Afinal, parece ser melhor perder alguns milhõezinhos (o que são alguns milhõezinhos, perto do somatório do PT?) do que ir para a cadeia ao reclamar a quantia.

Um triplex “banal” no Guarujá é ainda mais inescondível. E mais caro. Ninguém vai reclamar o triplex?

Seria muito mais útil para a sina petista, partido que pretende ter uma sobrevivência, ter uma desculpa para o triplex do Guarujá. E o sítio de Atibaia, cujos pedalinhos têm os nomes dos netos de Lula. Se o apartamento é da OAS, por que foi comprado? Com qual objetivo? Quem moraria ou passaria alguns dias por ali?

São perguntas simples e objetivas (nada de “golpe”). Qualquer pessoa as faz, ainda que intuitivamente, e nota algo estranho nessa história. Não há ninguém na OAS que poderia dizer que o apartamento, na verdade, é dele? Que pode apresentar um documento, calçar uns chinelos e passar um mísero fim de semana por lá, mostrando que a OAS tem interesses em ter um triplex à beira-mar? Ou ninguém tem coragem de acabar sangrando na cadeia no lugar de (ou, pior, junto de) Lula? Diga-se, a mesma OAS que Janot parou de negociar delações, já que aparentavam envolver ministros do Supremo.

O apartamento do Guarujá, muito mais do que as pedaladas de Dilma, só pela sua materialidade e substância concreta, pode enterrar o PT e toda a sua narrativa – nem mesmo a cortina de fumaça progressista consegue desviar a atenção.

A julgar pela retórica petista-esquerdista, que odeia ter de encarar esse fato inescapável, inapelável e infraqueável: se ninguém assume, o triplex é sim dele, e Lula cometeu um crime que nunca antes na história desse país um presidente cometeu. E o PT, além de se desfazer do discurso da ética, não terá mais nenhum discurso “social”.

Lembrando, como disse ‏@oruam66 no Twitter, se ninguém assumir a posse, quem assume é o Aécio.

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  • Neku

    “O cumpanheru, num conheffu effe tar de Tripreff, Triperquiff, Trippffeff, effe apartamento.”
    – Trechos do depoimento de Lula à Polícia Federal

  • Paulo R Ongaro

    Estranho ver no texto que pedaladas são algo abstrato. Ora, ninguém (falo do povão em geral) consegue imaginar o que seriam, como surgiriam essas pedaladas. Resta brincar com fotos da Dilma andando de bicicleta.

    Mas que tal começar a chamar as pedaladas pelo seu nome próprio: Fraude Fiscal. Fica mais palatável, compreensível, não é? Não há necessidade de entender de contabilidade. Basta saber o que é Fraude. E isso todo mundo sabe.

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