Mídia

“Helicóptero cai”, “brasileiros indocumentados”… chegou o jornalismo-eufemismo

Se alguém quer falar em manipulação da mídia, é preciso que se fale dos eufemismos que o jornalismo usa para defender sua agenda.

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Donald Trump parece estar causando pânico no mundo inteiro, mas não por nada concreto do que tenha feito – incluindo em “concreto” o muro que prometeu construir. O G1, portal da Globo, que passou toda a cobertura das eleições criticando o então candidato Republicano e dando como certa a vitória da Democrata Hillary Clinton, estampou a manchete: Vitória de Trump gera medo e ansiedade entre brasileiros indocumentados nos EUA.

Nunca tal palavra parece ter sido usada na história da língua portuguesa (ao contrário do castellano) para se referir a imigrantes ilegais.

É um eufemismo em grau extremista, ultra-radical, de tendência política fundamentalista – exatamente os adjetivos usados pela imprensa para se referir aos eleitores de Donald Trump ou de qualquer um que discorde uma vírgula do programa do Partido Democrata.

Algo inédito na língua: tem-se a impressão de que um imigrante legal, trabalhador e honesto vivendo na América perde o cartão da biblioteca na rua e CATAPIMBA!!, passa a viver com medo e ansiedade de ser deportado pela nova política xenófoba, racista, machista, homofóbica e nazista de Donald Trump.

Para uma sociedade composta em sua maioria por leitores de manchete que tiram conclusões profundidíssimas a respeito do hitlerismo subréptico nos discursos de quem nunca ouviu discursando, é um prato cheio para criar sentimentos de repulsa cada vez mais fortes entre qualquer um que já tenha perdido o RG no ônibus em um dia triste da vida.

Ninguém nota, tampouco, que a “ansiedade” no título está invertida: só há ansiedade por algo pelo qual se tem anseio, e parece que ser deportado não é uma delas. Até a reportagem mostrar que, na verdade, é tudo falatório de quem cai nos próprios boatos que a própria imprensa repassa a seus próprios leitores, que nada têm a ver com o que disse Donald Trump, vão-se uns bons parágrafos de propaganda negativa e “ansiedade” artificial.

É a inauguração do jornalismo-eufemismo. Se o jornalista ou o jornal tem uma agenda a favor de um lado, eufemiza-se até ultrapassar as raias do ridículo na velocidade da luz mesmo um criminoso. Assim, transforma-se imigrantes ilegais em pessoas “indocumentadas”, traficantes em “menores”, declaração de guerra em “zonas de exclusão aérea” e, claro, aborto em “interrupção de gravidez indesejada” ou “controle de natalidade”.

Apenas em casos recentes, basta lembrar, como o fez Rodrigo Constantino, do helicóptero da Polícia Militar alvejado após uma troca de tiros em Jacarepaguá, resultando na morte de quatro policiais militares. É um fato simples a ser noticiado, que não causaria traumas a nenhuma pessoa normal. É claro que no conceito de “pessoa normal” não está incluído um jornalista trabalhando para uma empresa empenhada na campanha de desmilitarização da PM, que conseguiu essa façanha do jornalismo mundial:

Globo: helicóptero "cai"

A desumanização para transformar policiais em pessoas sem rosto, como se fossem meros humanos passeando de helicóptero, que de repente “cai”, como se as vítimas serem policiais não desse todo um contexto (e até mesmo uma seção) diferente para a notícia.

Como escrevemos na Gazeta do Povo, o jornalismo-eufemismo eufemiza tanto que passa a descrever crimes com palavras que não descrevem crimes. Algo próximo de chamar roubo de “tomada de empréstimo”. É o que o jornalismo faz com o termo “ocupação” de escolas.

Escolas são ocupadas quando alunos a ocupam para estudar. Não há crime envolvido. Escolas são invadidas quando se usa a força para tomar de assalto um espaço, público ou não, impedindo a fórceps a presença de quem não está mancomunado com a causa política defendida. Aqui, há crime. Usando-se uma palavra anódina e neutra para descrever um crime, a sociedade, ao tentar explicar por que é contra os crimes dos invasores, fica algemada a um vocabulário que a impede de ser clara com seus próprios pensamentos.

O Implicante lembrou bem que a imprensa, que sempre usou o termo “ocupação” de escolas, usando o nome-fantasia dos próprios invasores para esconder sua razão social, de repente se lembrou da existência do termo “invasão”… mas quando uns debilóides pedindo intervenção militar invadiram uma Sessão da Câmara, de maneira tão truculenta, burra e praticando violência política quanto os invasores de escola.

Implicante: Câmara foi "invadida"

Fonte: Implicante.Org

Estudiosos das relações entre linguagem e política são quase todos comunistas declarados, como os lingüistas Teun A. van Dijk e George Lakoff. Ambos são especialistas em encontrar filigranas de “racismo”, “discurso de ódio”, “preconceito”, “micro-agressões”, “desigualdade social” até em vírgulas e cores de fontes de discursos de políticos.

Para van Dijk, em Discurso e Poder, até mesmo Salman Rushdie, condenado por uma fatwa do aiatolá Khomeini à morte por qualquer muçulmano que o encontre, possui na verdade um “racismo antiárabe” por não aceitar a cultura islâmica – como se fosse ele que tivesse mandado matar alguém por ser muçulmano, e não exatamente o contrário. É o jornalismo-eufemismo non plus ultra.

Enquanto a lingüística e a semiótica, estudadas em 11 em cada 10 faculdades de jornalismo, for dominada por tipinhos como esses, continuaremos vendo manchetes falando de perseguição a “indocumentados”, de helicópteros que “caem” e “pessoas” morrem, que Donald Trump é um “magnata” (embora Hillary Clinton e sua Clinton Foundation tenham gastado mais de 5 vezes o que ele gastou para se eleger), tudo isso em menos de uma semana, sem ninguém estranhar.

Ou melhor: com aqueles que notam o absurdo sendo simplesmente pechados de “extrema-direita” e pronto, resolvido o problema. O jornalismo-eufemismo só é hiperbólico quando alguém nota que ele não consegue esconder a realidade.

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