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Os jornais dizem que a medida do prefeito paulistano de apagar grafites gerou "polêmica". Desde quando alguém gosta de uma cidade grafitada?

A última polêmica em São Paulo, cidade que parece prometer viver uma nova polêmica a cada manhã, se deu porque o prefeito João Doria mandou apagar as pichações, também chamadas de “grafite”, deixadas pela gestão petista de Fernando Haddad. Funcionários da prefeitura jogaram tinta cinza sobre grafites nos Arcos do Jânio e na Av. 23 de Maio.

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Segundo os jornais, incluindo os não-locais, como O Globo, a medida gerou “polêmica”. De acordo com o Jornal do Brasil, há protestos que “se intensificam contra Dória em defesa de grafiteiros”. Os “murais” estão sendo defendidos por “artistas”, e até “especialistas” estão sendo chamados para comentar em telejornais da Rede Globo sobre como a cidade é muito cinza, e precisa de cores em murais nos quais ninguém consegue discernir se está desenhado é uma avó alienígena alimentando os netos ou um campo de beterrabas assassinas coberta de vômito de algum nóia do crack que não conseguiu encontrar sua veia para tomar pico devido à luz azul embaixo do túnel. Não se sabe se os especialistas em grafite são capazes de entender um único grafite.

De toda forma, uma coisa é certa: há uma crítica ao sistema ali no grafite, enaltecendo a voz das ruas, a miscigenação e com forte consciência de que há muita desigualdade social. Resta perguntar aos especialistas (há um mundo paralelo em que há “especialistas” em grafite e pichação, verdadeiros críticos de arte bizantina do spray gourmet) como é possível diminuir a desigualdade se relegamos aos pobres bater lata e desenhar cores berrantes sem sentido em avenidas, enquanto os filhos dos ricos ao menos têm alguma lembrança remota se Rembrandt é um pintor ou, ao menos, um hotel chique.

Mas a real questão é outra: que “polêmica” é essa de que todos os jornais falam? “Polêmica”? “Artistas”? “Especialistas”? “Protestos”? O que vimos foi tão somente terem pichado (repetindo: pichadopichadopi-cha-do) o nome do prefeito Doria em um viaduto da Vila Mariana, perto de sua casa, como vingança. Para a street art que tenta sempre se tucanar e virar apetecível pela elite socialite socialista, todos os “artistas” de “murais” de “grafite” estão mesmo a uma lata de spray preto número 2 de distância de voltarem a ser meros pichadores. A distância entre o grafite “apoiado” e o picho vândalo geralmente é apenas de saber se vai ofender algum adversário político.

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João Doria e a "polêmica" com grafiteiros e pichadores no Google

Na dimensão transcendental do jornalismo, inacessível ao pobre cidadão comum esperando seu ônibus antes da tempestade das 6 da tarde, não há “polêmica”. A cidade é cinza porque é cinza. Como Londres é cinza, e Atenas, que já foi mais bregamente colorida do que Salvador ou Reykjavík, é hoje branca. Acostumem-se: nem todos os problemas do mundo se resolvem se pintados de laranja, verde limão e roxo com bolinhas amarelas gema de ovo.

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Ninguém defende os “grafites”. A bem da verdade, fora os próprios grafiteiros e os empresários de hip hop que fomentam a cultura de quem canta falando com as mãos, é praticamente impossível ver ser humano que ache aquilo minimamente bonito. Ou a saber diferenciar a arte dos “artistas plásticos” especialistas de ocasião do setor de despejo de peças defeituosas de uma fábrica de pias.

Na periferia a coisa se acentua, ao invés de cair no relativismo inacessível às mentes reacionárias do centro: qualquer Teoria da Janela Quebrada instintivamente percebida nota como é difícil melhorar a vida de bairros pobres, construindo criando coisas, que permitam o acesso dos jovens a um mundo além dos limites físicos de Parada de Taipas, Perus, Cidade Adhemar ou Sapopemba, se o único incentivo é a se “identificar” com alguma cultura que o finque e o prenda àquela pobreza, mantendo os ricos intelectuais “democratas” longe de seu convívio. Uma aula de literatura russa ou um convite para uma carreira até as altas patentes do Exército parecem fora de cogitação para os adoradores do grafite, pouco interessados no futuro glorioso dos seus espécimes.

O jornalismo vive de uma “polêmica” que só envolve… jornalistas. E artistas como Zélia Duncan e Caio Blat, grandes representantes do povo. Qual a dificuldade em dizer que não há polêmica sobre grafite, que a população inteira sempre aprovou embelezar a cidade sem entupi-la de pichações, e que toda a “polêmica” repetida por todos os jornais é uma artificialidade que só existe dentro de redações da grande e velha mídia? O Jornal do Brasil chega a dizer que “Dória (PSDB) que está em uma cruzada contra pichadores e grafiteiros desde o início do seu mandato”. O cidadão está no cargo há 23 dias.

Quando a mídia começa a ser ainda mais desacreditada do que políticos, notamos que o problema chegou a se inverter do que esperávamos.

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(sent from Rio de Janeiro, Brazil)

(“expoente do pixcho”)

(“especialista” em que, meu Deus do Céu?)

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