A exposição Queermuseu do Santander revelou o que o ser humano tem de melhor: a capacidade de se organizar livremente pelo que defende. Por Eduardo Perez

O banco Santander promoveu a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, valendo-se do investimento de quase R$ 1 milhão com os benefícios fiscais da Lei Rouanet.

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Rapidamente a exposição passou a ser alvo de protestos nas redes sociais, sob a alegação de que ela promoveria obras que incentivavam a pedofilia, a zoofilia e o escárnio ao cristianismo.

A repercussão foi tão negativa que o Santander decidiu encerrar a exposição um mês antes, não sem os gritos de “censura” e “conservadorismo” de alguns.

Como é praxe nesses casos, os “considerandos” da exposição foram tecidos com base na novilíngua de forma tão críptica que chega a descer inócua por quem se dispõe a ler. Mas vale sempre a máxima que qualquer sábio iletrado do nosso sertão conhece e que deveria ser ensinada desde o pré: a árvore se conhece pelos frutos.

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Se a falta de glamour da fonte incomoda, recorde-se que Shakespeare disse a mesma coisa por intermédio de sua Julieta: “”o que há num nome? aquilo a que chamamos rosa, por qualquer outra palavra, exalaria perfume igualmente doce” .

E qual o cheiro de algumas das obras da exposição em voga? Cada um decide.

A exposição é chocante? Nem um pouco. É só mais do mesmo: atacar o cristianismo, atacar valores caros para muitas pessoas, e sexo, muita exposição gratuita de sexo, inclusive com animais. É uma tentativa que está pelo menos trinta anos atrasada, porque me lembro de ver críticas mais inteligentes e chocantes na minha infância assistindo TV Pirata, quando meus pais tinham que inventar uma explicação para uma piada adulta que, obviamente, eu não entendera.

Ora, os apoiadores da Queermuseu deveriam estar satisfeitos. Se o objetivo da arte é suscitar o debate, ele foi alcançado. Agora, se o objetivo é conduzir a mentalidade das pessoas para caminhos pré-traçados por uma minoria, aí talvez não tenha funcionado mesmo.

Dessa vez não houve o monopólio do discurso. De forma espontânea, as pessoas entenderam que poderiam criticar a exposição, e, sim, crítica não é censura.

Mais ainda, elas perceberam que, se não gostavam de algo, não precisavam financiá-lo. Anos de aparelhamento intelectual parecem ruir lentamente quando o “homem comum” resolve dizer “não”, seja ao estado, seja às grandes corporações, seja às cartilhas ideológicas gestadas por seletos grupos.

Desnecessária nesse caso a intervenção de políticos ou o uso do Judiciário, este último símbolo do grande paternalismo nacional com seus 80 milhões de processos, considerando que a sociedade prefere judicializar qualquer questão, de briga de vizinho a eutanásia, e terceirizar o rumo de suas vidas a uma turma, a debater racionalmente o assunto.

Milhares de correntistas do banco disseram: “Ei, não queremos financiar isso. Vamos procurar algum outro banco”.

O Santander, instituição privada que é, percebeu que a ideia que parecia genial gestada no ar condicionado entre um cafezinho e outro, como qualquer flor de estufa, não resistiu ao primeiro vento de realidade.

Foi censura? Não. Censura é a análise da obra artística por um censor baseando-se em critérios morais e/ou políticos para a liberação ao público.

As obras podem ser expostas, só que os correntistas do Santander, e mais um monte de gente, não querem financiar isso. Os artistas podem usar seu próprio dinheiro e espaço para fazê-lo, ou achar quem queira. Ninguém irá impedi-los, isto é, censurá-los. As obras podem ser expostas.

Cada um é livre para expressar o que der vontade, dentro da lei, mas não pode obrigar ninguém a financiar ou assistir isso. Simples. Claro. Cartesiano.

A dificuldade em aceitar que o outro também pensa é fruto de décadas de grupos e cartilhas dominando o cenário “intelectual” da Terra de Santa Cruz.

Agora que as pessoas “comuns”, isto é, não dotadas do “gênio artístico” avalizado pela “consagrada crítica”, aprenderam a dizer “não”, aqueles que não conseguem disfarçar a sensação de superioridade que nutrem com relação ao resto da humanidade se indignam com a rebeldia da ralé que se recusa ser iluminada.

É um discurso esquizofrênico, porque as premissas sempre foram: a arte suscita a crítica, e a crítica está ocorrendo, e qualquer pessoa pode interpretar uma obra como quiser, o que tem sido feito, então por que a indignação?

A diferença entre o ocorrido no caso Santander fica bem clara quando comparado com o episódio em que tentaram censurar, e este é o termo, Monteiro Lobato, banindo suas obras das escolas públicas.

A pantomina chegou a tal nível de obra kafkiana que, não obstante a questão tenha sido discutida no âmbito do Ministério da Educação, que negou a censura, houve a propositura de uma ação no Supremo Tribunal Federal com a intenção de forçar o estado a impedir a leitura de tais livros.

Pode pesquisar no Google. Sério.

Admirável Mundo Novo, 1984 e Brazil, o Filme, mandaram lembranças saudosas.

De todo modo, o que se extrai de mais importante disso tudo é que nenhum de nós é irrelevante. Mesmo uma onda é formada por suas gotas.

Você só pode responder por suas ações, e não pelo outro, e entender isso aborta o germe de ditador e vítima dentro de você.

Vinte mil pessoas apagando as luzes ao saírem de um ambiente, fechando a torneira ao escovar os dentes, dizendo “obrigado”e “por favor”, não praticando pequenos atos de corrupção ou deixando de gastar o seu dinheiro nos lugares que vilipendiam seus valores: o mundo pode mudar.

E já que falamos de críticas à religião, é oportuno recordar que Buda lecionava que não se deve acreditar em algo porque alguém disse ou porque está num livro, mas somente após o escrutínio racional, livre das paixões e guiado pelo bem, deve-se chegar a uma conclusão.

Se, por sorte, você encontrar mais pessoas que compartilhem desses valores e decidam trocar discursos de ódio e vitimismo por ações de ética e compaixão… que mundo podemos ter?

Livros, filmes, peças de teatro, discursos… vê quem quer. Se ninguém quiser ver, que pena. Somente estados ditatoriais impõem ao seu povo uma cultura, uma cartilha e uma ideologia. Liberdade é poder escolher, ainda que as escolhas não agradem.

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  • Ilbirs
  • Newton (ArkAngel)

    Pelo menos ficam todos sabendo que a sociedade brasileira é majoritariamente cristã e conservadora. Na questão do valor moral da obra, vale a velha máxima: diga-me com quem andas e te direi quem és.

    • Aderbal Matias

      O que eles ficaram sabendo é que a direita adora dizer “Minha religião diz que o que vc tá fazendo é errado, portanto vc deve parar com isso…”

      • Newton (ArkAngel)

        A diferença entre o discurso progressista é que pelo menos a moral cristã visa a melhoria do ser humano no geral, e não prega a degradação.

        • Aderbal Matias

          Se for olhar por esse lado, o islamismo diz a mesmíssima coisa, que é a religião da paz e que quer o bem do ser humano em geral, e não prega a degradação. Muito pelo contrário.

          • Newton (ArkAngel)

            Sim, mas nunca vi nenhum cristão atar bombas em seu próprio corpo e explodir inocentes em nome de Jesus. Quanto às coisas que a ICAR fez no passado…bem, não foi nada cristão, se é que entende. Na minha opinião, uma pessoa pode perfeitamente ser cristã sem pertencer a algum sistema organizado de crenças.

  • Phillip Garrard

    Esse banco nao e o mesmo que demitiu uma funcionaria a pedido de Lula? So conferindo.

    • Black Ribeira

      Sim, muito bem lembrado !!!

  • Ilbirs

    Quando lermos essas palavras compostas com alto ranço esquerdista, que raciocinemos assim:

    1) Pós-verdade = mentira.

    Emprego em frase: Joãozinho disse pós-verdade para sua mãe e ficou de castigo;

    2) Pós-beleza = feiura.

    Emprego em frase: Há um alto grau de pós-beleza nessa construção.

  • Ricardo Lima

    Eduardo, parabéns.
    Poderia fazer um vídeo no YouTube sobre isso?

  • O brasileiro é tão babaca que acha que a única coisa que não se pode protestar é religião. Eu protesto pelo que eu quiser.

  • Obrigado, Odilon, mas o texto superador é do Eduardo Perez. 😉

    • Odilon Rocha

      Desculpe, caro Flávio, mas é que vocês são todos da mesma laia…excelente laia.
      Se puderes transmitir a ele os meus votos, agradeço.
      Um abraço

  • Ana Carolina

    Ótimo texto. Compartilho da sua opinião.

  • Leonardo Feelckins

    incrível texto.

  • Arthur Martins

    Otimo texto Eduardo!
    Seus argumentos irão me ajudar muito à debater sobre essa tal “arte”.

  • Vinicius Matos

    “Foi censura? Não. Censura é a análise da obra artística por um censor baseando-se em critérios morais e/ou políticos para a liberação ao público.”
    E não foi isto que aconteceu? Um grupo de cunho político, baseado em um discurso extremamente moralista, fazendo pressão para que a exposição fosse fechada rapidamente?
    É muito contraditório da parte do texto analisar a situação como se ninguém quisesse ver as obras, ou melhor, do ponto de vista apenas de quem não quer ver, já que conceber que ninguém se interessaria é impossível.
    O problema, evidente, é quando um grupo decide pelo outro e o resultado final é a proibição de uma obra de arte. Pode ser que algumas não sejam bonitas ou de bom gosto, e aí está o papel da crítica, e se a discussão vai no sentido da exposição ser financiada por uma lei de incentivo, tem coisa muito, mas muito mais séria pra gente se preocupar.

    • Não, censura é quando um agente permite ou proíbe algo, e não importa se é por “moral” ou não (você, criticando o “discurso extremamente moralista”, tem uma moral defendendo a imoralidade, mas está já, em seu dialeto, “censurando” quem tem moral baseado na sua moral). Censura é censura. A exposição fechar porque pessoas não querem ver (e PAGAR) por algo de que não gostam e repudiam não tem nada a ver com censura. Boicote é uma coisa, pressão é outra, censura é uma terceira. E ninguém decidiu por ninguém. Decidiram por si próprios.

      • Ilbirs

        Flavio, mudando um pouco de assunto, seria bom comentar sobre esta notícia sobre o corte da pensão para filhas de militares dada a um transexual nascido mulher e que passou a se identificar como homem, com direito a toda aquela cirurgia. A coisa toda foi identificada devido ao recadastramento periódico que filhas de militares mortos não casadas têm de fazer para que recebam o benefício. Como os documentos continuam com os mesmos números mas a pessoa passou a dizer-se do sexo masculino, fez-se apenas aquilo que a lei pede para o caso, que não fornecer o tal rendimento para quem legalmente tem tal registro.
        Observe-se que aqui houve impetramento de recurso para que tal pensão continuasse sendo recebida, aqui querendo usar o óbvio: que essa pessoa jamais deixou de ser mulher e, se é vista como homem, o é pela lei e por aqueles que creem em ideologia de gênero. O que usaram para tal impetramento? O fato de que o ginecologista continua sendo o médico de partes íntimas que é visitado. Como sabemos, urologistas podem atender mulheres em alguns casos, uma vez que também lidam com o sistema urinário, mas ginecologistas não têm como atender homens justamente por mexerem em partes exclusivas do sexo feminino. Aqui se está querendo que o pagamento da pensão continue porque as cirurgias sofridas foram de retirada de mamas e histerectomia, o que seria diferente de implantar um pênis artificial feito com tecidos da própria pessoa e testículos prostéticos. Ainda assim, como a própria noticia diz, a pessoa é legalmente do sexo masculino conforme consta nos documentos e aqui a lei da pensão é clara ao restringi-la a quem é legalmente do sexo feminino e descendente daquele militar morto.

        O juiz que analisou o recurso manteve a decisão do Serviço de Inativos e Pensionistas da Marinha, com os seguintes dizeres:

        Entender que o impetrante seria titular do direito à pensão seria considerá-lo, em alguma medida ou para certos fins, como um indivíduo do sexo feminino, o que reavivaria todo o sofrimento que teve durante a vida e violaria sua dignidade, consubstanciada no seu direito – já reconhecido em juízo – a ser reconhecido tal como é para fins jurídicos, ou seja, como um indivíduo do sexo masculino”.

        A coisa importante neste caso é que mostra claramente que a luta marxista cultural é para que as chamadas minorias tenham privilégios e não direitos, uma vez que estes últimos implicam em responsabilidade. Pensão para filhas não casadas de militares é uma daquelas excrescências que deveriam ter sido encerradas há muito justamente por serem um privilégio e aqui com o fato de que aplicar algo assim com brasileiros é pedir para que a malandragem se espalhe com a rapidez de um fogo em mato seco e, como sabemos, há muita filha jamais casada de militar que se pendurou nessa pensão durante a vida inteira. Essa pensão até teve uma razão de existir quando do fim da Segunda Guerra e o fato de que naquela época havia menos mulheres que hoje no trabalho, mas hoje em dia, mais de 70 anos do fim daquele conflito, acabou sendo o que é e que conhecemos. Aqui inclusive é aquele ponto em que vai dar um tilt na cabeça esquerdista que diz serem gênero e sexo coisas separadas, pois de fato estamos vendo alguém que se crê do gênero masculino recebendo as óbvias consequências de ser legalmente do sexo masculino. Se houve a dissociação do conceito de sexo em relação ao óbvio fato de ser algo de nascença, não há como haver isso em relação àquilo que quem tem um determinado sexo tem em relação ao ordenamento legal. Como quem teve o sexo legal mudado tem 54 anos, não acho que irão cobrar o alistamento obrigatório e subsequente serviço militar que ocorre caso haja convocação, mas ainda assim é algo que levanta questionamentos.
        Com menos detalhes, mas aqui com a importância de ser alguém com uma KGB de pano de fundo, temos o que Ancelmo Góis disse a respeito. Como sabemos, a KGB foi importantíssima para que o marxismo cultural que hoje vivemos tivesse um impulso importante.

        Eis que antes de ler essa notícia estava ouvindo este programa de rádio do Loryel Rocha que acaba, entre outras coisas, justamente falando da ideologia de gênero entre os assuntos abordados:

        Fico cada vez mais crente de que a ideologia de gênero na sociedade ocidental é análoga à prática aborígene de apontar um osso para alguém e essa pessoa morrer, tendo de aqui haver a necessidade de que tanto emissor quanto receptor da ideia nela acreditem a ponto de ser parte de sua personalidade e efeitos acontecerem. Já houve caso de aborígenes morrendo por outro apontar um osso a eles, seja por um infarto súbito ou por passar a recusar-se a comer e beber e morrer de inanição, mas não há casos de australianos ou estrangeiros morrendo por causa de kurdaitcha justamente por não acreditarem que um osso apontado mate alguém. Considerando aquilo que vem de Judith Butler como uma kurdaitcha presente no ambiente ocidental a ponto de a estarmos vendo sendo propagada por cacoete (como você mesmo viu naquela postagem), também já estamos vendo pessoas sofrendo as consequências delas, sendo um caso bem conhecido de alguém vivo o de Walt Heyer, que fez a cirurgia, arrependeu-se e fez outra cirurgia, passando a ser ativista anti-ideologia de gênero e aqui considerando que tem conhecimento prático da coisa:

        Mas também temos caso mais recente e com um menino de 14 anos chamado Patrick Mitchell, que acreditava-se menina e após tomar hormônios e desenvolver seios, agora arrependeu-se da decisão e terá consequências permanentes daquilo que já aconteceu em sua vida e que não precisava ter acontecido:

        Novamente fica a pergunta sobre quem apresenta a chamada disforia de gênero e sobre como isso está sendo tratado hoje em dia: se o corpo tem de se adequar à mente, por que a mente não pode se adequar ao corpo?

        • Conan Camargo

          “tem coisa muito, mas muito mais séria pra gente se preocupar”. Se não conseguirmos lidar coerente e racionalmente com as coisas pequenas, como conseguiremos abranger as grandes?

    • Newton (ArkAngel)

      Negativo. Se tivesse sido censurado, tal evento nem sequer ocorreria. Por definição, a censura sempre é prévia. Além disso, ninguém apedrejou ou incendiou a exposição, apenas usaram o direito a manifestar o repúdio que tais obras suscitaram, o mesmo direito que qualquer um tem também de louvar e apoiar. O problema (pra esquerda) é que a maioria repudiou, e o Santander achou melhor acabar com a coisa antes que o prejuízo à sua imagem aumentasse ainda mais. Minimização de danos.

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