Arte & Crime

Apologia da pedofilia: Só quem é tarado, psicopata e burro não percebe

Depois das desculpas para pinturas, calam-se com a manipulação de adultos nus por crianças: não tentem mais negar que não é arte, é apologia.

Depois do Queermuseu do Santander, com suas obras “retratando” pedofilia e zoofilia, suspendido pelo próprio Santander por um boicote, foi a vez de uma nova “performance”, desta feita financiada pelo Itaú, com uma cena chocante de uma menina manipulando um homem nu no MAM. A “performance” do “cenógrafo” Wagner Schwartz, pelado por uma hora e dez para ser tocado por adultos e crianças, também já foi apresentada no Goethe Institut de São Paulo e da Bahia.

Em um primeiro momento, apologéticos da pedofilia tentaram tratar tal ação como “arte”, alegando que arte não pode ser “censurada”, do contrário seria nazismo e Inquisição. Curiosamente, em seu pensamento analógico, tais progressistas nunca fazem um paralelo com o controle soviético que fuzilava até artistas favoráveis ao regime – o que já é exageradamente revelador do que está de fato em jogo.

Logo entra uma enxurrada de tergiversações da parte da apologia: o modelo de discussão “não é bem assim”, onde se ataca as supostas intenções ocultas de quem nota a apologia da pedofilia: são “intolerantes”, “fanáticos religiosos”, “obscurantistas”, “não entendem a arte” e, imediatamente, segue-se uma comparação ao nazismo e à Inquisição.

Pode-se usar o vocabulário acadêmico chic (e, na verdade, kitsch) que for preciso para fingir que há complexidade em algo simples, mas a coisa continua simples. Ce n’est pas une œuvre d’art.

Suas definições de arte foram atualizadas

Se é para se discutir o que é a arte, devemos voltar aos gregos, os primeiros a teorizarem o assunto. A arte é mimesis, aquilo que os latinos traduziram como imitatio: não propriamente o que entendemos por “imitação”, mas um segmento do real, emulado em outra linguagem.

O pôr-do-sol no Pireu ou em Copacabana, os Alpes ou a aurora boreal são lindos, mas não são arte, mimesis: são a própria natureza. O Templo de Ártemis, a Antígona e uma música à lira são arte, seja boa ou ruim: fazem um recorte e não apenas imitam algo da realidade, como uma onomatopéia, mas demoram-se em regras, possuem uma unidade de sentido, atingem uma significação perceptível tanto pelos sentidos quanto pela intelecção humana.

Pode-se não apreender imediatamente as equações geométricas que davam beleza ao Templo de Ártemis, mas era possível apreender sua beleza imediatamente. A unidade de sentido da Antígona, que faz a peça não ser um monte de palavras, nem um documento e nem uma notícia de jornal, é estudada por milênios. A estrutura musical, o que o Quadrivium classificou como a organização temporal da matemática, é percebida mesmo numa música ruim. A mimesis o que diferencia um bloco de concreto de um bloco de concreto quebrado em alguns pontos do Moisés de Michelangelo, tão avançado na imitatio que seu próprio autor, vendo a estátua de mármore, teria exclamado: “Parla!”

MimesisDesde pelo menos Platão tal obviedade é conhecida até por intelectuais – a classe de seres humanos mais incapaz de perceber obviedades, mesmo que lhes caia na moringa. A mimesis é o que permite separar um documento histórico de um poema como a Odisséia (não são os ciclopes nem as sereias, inexistentes n’A Montanha Mágica ou Em Busca do Tempo Perdido), ou um poema de um bilhete ou de uma lista de compras. Absolutamente simples: em pouco mais de uma década lendo da Poética de Aristóteles até Anatomia da Crítica de Northrop Frye e já teremos dominado quase 70% do conceito.

Um homem pelado não é arte. Não está imitando nada. Criando nada. Na verdade, não está sequer fazendo algo. Não possui unidade de sentido. Não significa nada, ainda que abstratamente ou incocebível de ser colocado em palavras pelo logos – como um filme de David Lynch ou um poema de Georg Trakl.

Isto não é uma definição modelo “Essa é sua concepção de arte, e arte não pode ser censurada” – isto foi o que disseram todos os artistas e teóricos da arte até o mictório de Duchamp. Que era para ser um chiste: suas formas, afinal, não são simples, e têm geometria. Duchamp apenas mostra se tal tékhne (palavra traduzida menos como “técnica” e mais como “arte”) usada para sua estruturação não seria apreciada em um museu.

Local de fala, local de culto, local de trosoba

Apesar da brincadeira com um local de apreciação em comparação a um de excreção, falta ainda muito para um mictório ser arte. A definição de Oscar Wilde é sobejante: toda arte é necessariamente inútil. Um mictório não é. Até para limpar a retaguarda há uma diferença entre um papel macio folha dupla e a Monalisa, com uma vantagem chocante para o primeiro.

Mas foi justamente a inutilidade que os seguidores de Duchamp, os derridadaístas, como são chamados os pós-modernos (conceito engraçado por si), mais quiseram apresentar como arte. O problema não é que a arte conceitual é “inútil”: é apenas que ela não tem mimesis. É o que diferencia uma arte ruim de uma não-arte. Como Victor Grinbaum escreveu, “por trás de toda arte contemporânea existe uma figura oculta, que é o urinol de Duchamp”.

Não adianta pegar um aspecto não apenas superficial e exterior da arte (como “ser exibida num museu”), além de francamente acessório, não-definidor, acidental e pueril, e usá-lo para definir agora o que é arte e o que não é, seguido, roteiro repetido, de comparações com cenários sanguinários, com carnificina, crianças peladas (até anjos) e amoralidade retratados por Caravaggio, Bosch e afins: é como comparar borboletas com motores de Porsche. Não são objetos com muitos elementos em comum.

Pichação sobre negros na UFABCUma pichação em que se lê “Feminismo é coisa de gorda” ou “Petista não toma banho” não será considerada “arte” (a ausência de mimesis é apreendida instintivamente, e ainda mais rapidamente quando não gostamos do resultado). Não adianta colocá-la em um museu, e usar algum linguajar de curador para falar em “criticar valores”, “trazer reflexão” ou “levantar questões sobre as minorias” (e olha que as questões levantadas estão mais próximas do Bom, do Belo e do Verdadeiro do que muito da “arte” aventada alhures). Nem um poema são, mesmo colocado com rimas (seguindo as regras da prosódia, unidade de sentido e criação de sentido pelo significante que todas as culturas, inclusive as mais ágrafas, conheceram). Por que as exposições com crianças próximas a genitálias seriam arte, e não pedofilia, enquanto ninguém em sã consciência e que não estudou com professores pós-modernos trataria tais atos como algo além de apologia?

Ao trocar o local (mais do que o espaço) do homem nu, de um quarto aliciando crianças para um museu onde mães modernosas levam suas filhas livremente, não se está criando mimesis ou demorando-se nas regras da arte (muito mais dificilmente definida entre arte boa e ruim do que facilmente definida entre o que é arte e o que é o extintor de incêndio do museu).

Pior do que no caso do urinol de Duchamp: aqui a platéia é agredida, e sem a catarse que Aristófanes causava ao formalmente indigitar pessoas na platéia em suas peças para caçoar de sua imoralidade, de sua feiúra, de sua inverdade. Aqui, há tão somente menina e trosoba, inocente e culpado, a criança e o fazedor de crianças.

https://twitter.com/odiodobem/status/913566294817087488

A própria forma e a qualidade da arte, portanto, definem o que é arte a ser defendida como arte e o que é pura vontade de aparecer de alguém que só pode ser chamado de charlatão, estelionatário, louco, tarado ou psicopata. A arte, afinal, possui regras. É a diferença entre a sangrenta flegelação de Cristo por Peter Paul Rubens e uma propaganda de absorvente, entre O Caso dos Dez Negrinhos e uma apologia do assassinato pelo PCC.

Casos como o do Queermuseu do Santander parecem ser mais complexos, mas não o são. São obviamente simples. Chatos, até. O quadro de Adriana Varejão, onde se viam cenas de zoofilia, por exemplo, é apresentado como um compêndio sobre comportamentos típicos na colonização (aquilo que já transborda tanta ideologia em uma descrição simples que precisamos nos limpar com um Big Mac). Apresente um comportamento típico da alt-right na internet ou de piadas sobre feministas para ver se Adriana Varejão considerará arte ou se aí se torna “discurso de ódio”, não importando a qualidade da mimesis.

Criança viada - Queermuseu do SantanderO caso da Criança Viada é ainda mais duchampiano: retiraram imagens de um Tumblr onde se fazia piadas na internet com crianças que pareciam afeminadas (nestas horas, está liberado chamar de “viado”: qualquer preocupação com a sexualidade infantil é ganho para a esquerda) e as colocaram como objeto de admiração em um museu.

“Arte”? Bem, uma publicação de Tumblr, apesar de nunca nos importarmos com isso, segue padrões que protegem a imagem. Há limite de idade nunca respeitado para coisas como o Facebook, por exemplo. Tirá-las de um lugar onde se fazia piadas (sem mimesis, apenas se ria) para um museu não torna algo que era pra ser uma não-tão-inocente brincadeira com as características alheias em algo inocente, artístico e “válido”, como se fosse pura liberdade individual (o indivíduo é outro, só para avisar).

Aqui, é apologia pura: algo que nasceu como virulência e puro bullying como todos fazemos e sofremos em quantidades indo do obrigatório para ser saudável até o causador de suicídio, ao ser trocado de lugar, vira objeto de adoração. No dizer de Max Scheler, “O Homem possui ou um Deus ou um ídolo”. Ao invés de uma ordenação do que é, por exemplo, uma “crítica” (que não é função primordial da arte, mas por acaso o artista quis “criticar” a viadagem da criança?), sem mimesis, tem-se puramente o deslocamento do Tumblr para o museu: a única mensagem, o único sentido discernível no artefato é a mensagem de que crianças com sexualidade homossexual prematura são uma coisa positiva. Pode-se oferecer dinheiro para se encontrar outra explicação e não haverá nenhuma. Apologia, and nothing more.

Algo pode ser mais claro como apologia do que isto? Sim: um galalau andar pelado, com catramelo à mostra, com crianças. Quem deu voltas e voltas para disfarçar a apologia à pedofilia no Queermuseu teve tão somente de disfarçar o que via e apelar para ataques à religiosidade alheia ou ao “moralismo” (oh, horror! hoje encontrei dois seres morais! onde este mundo vai parar?!) de quem primeiro denunciou. O que já mostra o que as pessoas que não olham com olhos “moralistas” pensam sobre um varapau com mastruço à mostra diante de crianças. Ou, como dizíamos, é, sim, apologia à pedofilia, e nada mais.

A nova forma de apologia trata-se apenas de uma tentativa de normalização do anormal trocando-se o local onde algo é feito, à guisa de Duchamp: um galalau pelado com uma criança num quarto é pedofilia, em um museu seria “arte”. Tão somente pela troca de local. “Esquecem-se” de que a mesma troca inclui também a troca do significado do ato: em um quarto é reprovável, em um museu só se torna algo não-adorável se produzir catarse. 

Édipo arrancando os próprios olhos causa catarse; Hyeronimous Bosch idem: e ainda retratando algo histórico. Jogos Mortais produz horror; os cabritos enrabados de Adriana Varejão, até pela falta de perícia na mimesis, só são capazes de produzir nojinho como um menino criando esculturas com meleca do nariz, ou de serem tratados como tentativas de normalização, de considerar aquilo bonito, tolerável, até apreciável – e definitivamente normal. Até o nome, Queermuseu, não inclui a normalização de uma palavra que era para ser ofensiva?

É o famoso (ao menos para o público que lê algo além de “discussões sobre arte” na Folha Ilustrada e no New York Times) desejo mimético de que fala René Girard: desejamos aquilo que outros desejam. O desejo, muito antes de individual, possui uma estrutura triangular. A “criança viada” ou o marmanjo com a jeba de fora, ao serem colocados como normais, são pura apologia da pedofilia: viraram ídolos, como disse Max Scheler.

Já condenaram um parlamentar por dizer que não estupraria uma mulher (pelo crime de apologia do estupro). Quem odeia o parlamentar, ainda que discordando da decisão, sempre cita o caso dizendo que o que ele disse foi um absurdo. E que tal imagens glorificando a pedofilia, a zoofilia e até mesmo colocando diretamente crianças em contato com a nudez diante de genitálias?

Como definiu Henry Miller, diante da perspectiva do Apocalipse nuclear no século passado, “Colocamos a nossa fé na bomba, e é ela quem atenderá as nossas preces.” Os ídolos do século XXI envolvem outras violências sacrificiais contra inocentes.

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