Censura

Cinemark censura filme sobre 1964 porque a ditadura censurava filmes e censurar é muito feio

Como a ditadura militar censurava filmes, o Cinemark censura filme sobre a ditadura, para que nenhuma ditadura volte e acabe censurando filmes sobre a ditadura igual o Cinemark censurou

A luta pela liberdade de expressão, por definição, é a luta pelo direito de uns dizerem o que outros não querem ouvir. Toda a ditadura dá voz aos que com ela concordam. Toda ditadura persegue apenas as vozes dissonantes.

Não vi o filme 1964, o Brasil entre Armas e Livros, dirigido por Lucas Ferrugem, Henrique Viana e Felipe Valerim e produzido pelo Brasil Paralelo (veja o trailler abaixo). Pouco me interessa o que diz a imprensa sobre ele porque já sabemos o que a imprensa diz sobre qualquer coisa. Ainda assim, por curiosidade, perguntei sobre o documentário a um amigo que foi assisti-lo – amigo este que está bem longe de ser um entusiasta do golpe/revolução de março de 1964. Sua resposta foi: “me pareceu muito honesto. Assista e depois conversamos”.

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De qualquer forma isso também não interessa. A qualidade do filme não interessa. O tema do filme não interessa. O filme poderia estar defendendo o aborto, a teoria da terra plana, a cientologia ou até coisas mais bizarras como o socialismo.

A pergunta que fazemos é: o Cinemark é um espaço que só exibe material com os quais concorda? Existe uma editoria/curadoria ideológica? Então podemos concluir que o que é exibido nas suas salas tem sua aprovação por esses critérios e não apenas os mercadológicos?

Porque não há problema nenhum em dizer: “nosso cinema é privado e exibimos o que dá retorno financeiro”. Poderiam dizer também que política não é o seu foco – e não é mesmo pois sempre foi um cinema voltado aos blockbusters. Ou seria até honesto algo como: “nós discordamos DESTA forma de contar a história e por isso não aceitamos exibir este filme”. Mas foi isto que vocês disseram:

O que o Cinemark não pode dizer que “é uma empresa que não se envolve com questões político-partidárias” e que não permite a divulgação de “mídia partidária tampouco eventos de cunho político”. João Dória que o diga, já que o Cinemark divulgou publicidade de sua gestão de graça.

Perguntas que podemos fazer: o que há de partidário nesse documentário sobre 64? Não é o primeiro nem será o último sobre o assunto. Se ele está de acordo, de alguma forma, com uma visão do governo de turno, isso é ser partidário? Qual partido ele defende? O PSL? Então todo documentário sobre este tema que tenha sido exibido no período Dilma/Lula e que converge com o modo petista de ver o mundo também pode ser considerado partidário?

Mais perguntas: o Cinemark percebe a diferença entre filmes brasileiros que usaram dinheiro público através de leis de incentivo como “Olga”, que glorifica uma comunista histórica e este outro que foi agora censurado, produzido com dinheiro privado? Qual deles é mais político-partidário?

E a biografia autorizada pelo partido, “Lula: o filho do Brasil”, que conta a vida do ex-presidente (agora presidiário) Luiz Inácio Lula da Silva, também exibido – e até promovido – pelo Cinemark? Dá pra negar que seja político-partidária? Alguém consegue ver Lula dissociado do PT?

Como diria o famoso meme: são “questãs”.

O que dizer então sobre os dois documentários que fazem parte do projeto “Projeta às 7” onde a rede de cinemas promove filmes brasileiros “sempre às 7 da noite”?

O filme “Diários de Classe” de Maria Carolina e Igor Souza (veja o trailer) e “Marcha Cega” de Gabriel Di Giacomo (veja o trailer) não podem ser chamados de apartidários. Muito menos honesto seria dizer que não há “cunho político”. 

Pra não ter dúvidas, podemos ver os trailers no canal oficial da Cinemark no Youtube.

Não faço juízo de valor. Os filmes podem ser excelentes e, mesmo que não sejam, não achamos que filmes devam ser censurados.

Mas existe uma só verdade: ou o Cinemark não exibe filmes com temas políticos, ou o Cinemark decidiu que algumas vozes sobre temas políticos não devem ser ouvidos. Justo. Vocês são uma empresa privada e têm todo o direito.

Apenas tenham a coragem de assumir que têm um lado. O que não dá pra aceitar é esse cinema de Schrödinger: são políticos e não são políticos ao mesmo tempo.

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