“Macaquinhos” vão mexer com você (onde você está pensando)

macaquinhos

Notícias recentes chocaram o Brasil, como a “performance” artística “Macaquinhos”, apresentada na Mostra Sesc Cariri de Culturas, no Ceará, que basicamente é um monte de gente feia e loser pelada enfiando o dedo uns nos ânus dos outros.

O primeiro dado chocante: existem pessoas que não usam redes sociais e ainda vivem como homens das cavernas, sem ter conhecido a performance Macaquinhos antes – ela já havia entrado para os anais da história antes neste ano, e em mais de um sentido. Várias pessoas foram verificar se não era boato, e só nesta semana flagraram desprevenidos a verdade mais verdadeira: de que a “performance” realmente existe.

O segundo dado chocante: para quem ainda não sabe, não é senão a concretização inevitável do que acontece em cursos de Humanas no Brasil afora. Discussão sobre o ISIS, Shakespeare, a fenomenologia de Husserl a Lavelle, a geopolítica do Oriente Médio? Tudo está sendo deixado de lado para coisas como a “oficina de siririca e chuca” na Unifap, Universidade Federal do Amapá, amanhã, dia 26.

As universitárias brasileiras serão recebidas para uma “roda de conversa” onde farão parte de… bem, algo com este nome. Fica-se a dúvida: se as feministas e esquerdistas brasileiras não conseguem mais tocar uma siririca sozinhas, precisando invocar a ajuda de universitárias, o que sabem fazer sozinhas, sem a ajuda e vigília de um adulto responsável?!

O terceiro dado chocante: caso você seja um progressista quebra-tabus (por exemplo, se curte a página no Facebook “Quebrando tabu”), existe vida fora do seu umbigo. Ou, o que vale mais no caso, do seu oritimbó.

O sistema SESC é financiado por empresários. Vários deles, digamos, “questionaram” a apresentação, já que o Estado atua como agente, repassando o dinheiro às entidades do sistema. Exatamente o que fazedores e organizadores queriam ao dar espaço para um monte de gente feia que só angaria atenção ao seu corpo se o expõe fora de propósito.

O site Catraca Livre, que divulga comunismo através de “arte” ou eventos deste nível, assim descreve a performance: “a exploração do corpo – mais precisamente do ânus – é fator central na coreografia apresentada ao público que, segundo eles, busca ‘a transformação subjetiva do corpo em seu estado limite, através das ações contínuas de paquerar, cutucar, assoprar, procurar e tocar um o rabo do outro’.” Transformação subjetiva do corpo. Como se a língua portuguesa já não possuísse palavrões o suficiente.

O Catraca Livre, responsável por quizombas como o junho de 2013, prossegue: “As redes sociais despertaram a admiração de alguns, o preconceito de outros e a curiosidade de todos.” Em outras palavras, se você não admira e nem tem curiosidade (você tem mesmo?), você é preconceituoso.

E explica mais: “A ideia do projeto é usar o ânus como metáfora para chamar a atenção em relação ao desequilíbrio social entre os países do hemisfério sul (representados pelo ânus) e os emergentes. ‘Temos dificuldade em reconhecer (…) tantas minorias, índios, mulheres, bixas, sapatãs, trans, pretos, moradores da periferia e o cu dos corpos. ‘Macaquinhos’ se propõe a cutucar o que está latente, mas não se fala.’ (…) afirmam.”

Está ruim? Agora, a notícia desce um pouco mais. Enquanto estas linhas estão sendo redigidas, no Instituto de Artes da Unesp na Barra Funda estão sendo apresentadas duas “performances”, chamadas “Frieza” e “Tomar no Cu”. Sei que é uma pergunta difícil, complexa, tabu, questionadora dos preconceitos conservadores da sociedade patriarcal capitalista heteronormativa, mas vamos lá: adivinhe qual o tema e o que fazem os “artistas”?

As duas performances são realizadas pelos “atores” Thiago Camacho e Matheus Fernando Felix. Quem apresentará tal idéia ao mundo? Adivinhe: o Catraca Livre!

Segundo o site, “Na performance ‘Frieza’, os atores inserem cubos de gelo em seus próprios ânus a fim de questionar as relações interpessoais, ou seja, o quanto as pessoas são frias umas com as outras.” Quando alguém ficou de saco cheio do papo destes cidadãos e lhes mandou enfiar esta lenga-lenga no rabo, eles não deveriam ter tomado tão literalmente.

A seguir, rola a segunda obra de arte. Notem a curadoria (epa!) do Catraca Livre: “Já em ‘Tomar no Cu’, os performers introduzem uma garrafa de vinho no ânus, a afim (sic) de questionar a relação do cidadão com o governo. É como se o órgão estivesse à mercê dos poderes públicos, que decretam o que deve ser feito com ele.”

Aparentemente, os dois distintos questionadores anais não tiveram muita verve crítica para questionar quanto dinheiro público está sendo enfiado no cu (literalmente) ao invés de conter a inflação, ajudar as vítimas do desastre em Mariana ou afins.

Tampouco parecem muito “a afim” (sic) de falar do modelo econômico petista de usar verbas públicas para financiar artistas e suas performances imperdíveis, que certamente seriam lucrativas por si, não fosse nosso dinheiro sendo tomado à força e enfiado no toba dos artistas antes que possamos ver a cor dele (e sem que queiramos ver a cor depois que sai).

Entretanto, claro, é uma dessas performances querendo “criticar o governo”, mas sem dar um pio sobre alguém como Delcídio do Amaral, o primeiro senador preso no exercício do mandato no Brasil, que apenas por mera coincidência cósmica é do PT (“o mais tucano dos petistas”, segundo o jornal O Globo, constantemente chamado “de direita golpista” no Brasil), e que hoje mesmo pela manhã levou a cabo (!) o título da performance.

É sempre aquela “crítica” mais borocochoca, a crítica genérica, a crítica que não critica nada, a criticazinha. Mas se consideram super progressistas, radicais, questionadores, livres pensadores, quebradores de paradigmas, visionários e chocantes.

E aí entra o maior problema (porque elencar os problemas disto exige dezenas de tomos): alguém acreditar que “a sociedade conservadora” ou o amontoado de substantivos coletivos de definição imprecisa que quiserem amontoar está realmente “chocada” com isto. Com algo tão, como é, “emergente”, para “cutucar o que é latente”. Suas peças são apenas dinheiro público ou privado gerido pelo Estado envidando seus melhores esforços para ser uma belíssima caganeira.

Você já leu o enredo de alguma tragédia grega? É filho casando com a mãe sem perceber por tentar resolver um problema de ordem cósmica pela política, é irmã se oferecendo para ser enterrada viva com o irmão em nome de uma lei maior do que a lei dos homens, é mãe enforcando os próprios filhos e os exibindo ao pai por ter sido traída e usada.

E isto tudo no século V a. C.! Melhor nem passear pelas obras de Byron e do ultra-romantismo (vai de canibalismo a formas de tortura só superadas pelo Estado Islâmico), pelos Cantos de Maldoror e sua consubstanciação máxima do sadismo e da maldade, até pela poética simbolista de Baudelaire (recite “As litanias de Satã” em alto e bom som em grupo numa sala e veja se é páreo para “macaquinhos”).

Para então, 25 fodendo séculos depois, aparecerem uns caras pra-frentex, chocantes, abusivos, questionadores e causadores de desconforto mostrando uma arte surpreendente: um enfia o dedo no ás-de-copas do amiguinho. Waaaaaaw. Finalmente descobriram a cura para insônia.

Se a tal “sociedade conservadora” se choca com isto, não é pelo conteúdo, em si uma merda (ou arauto da dita cuja): é pelo gasto de energia, cérebro, empenho, tempo e qualquer outra coisa com algo tão comezinho, “emergente” e “latente” quanto o furico, usado por todos, todo dia, e que os mais sábios sabem usá-lo a ler um livro como Isagoge de Porfírio ou O Homem Sem Qualidades, prestando atenção no trabalho no cérebro, e não na obra da retaguarda.

Ora, o que há de tão chocante em gente que não tem mais o que fazer da vida? Qualquer passeio pela blogosfera progressista, pelo Twitter, pelas repartições públicas loteadas pelo PT, pela crackolândia ou por uma faculdade de Humanas (estas últimas cada vez mais indiscerníveis) mostra locais apinhados de lumpesinato.

O que é “chocante” é alguém achar isto chocante. O que é chocante é o desperdício de choque. Quem questiona os valores somos nós: sobretudo, quanto pagamos para ver petista enfiando o dedo na peida de petista sem saber? O que é chocante é como alguém pode, ainda no século XXI, achar que vai chocar alguém com algo tão banal e fácil.

Até as péssimas obras (com duplo sentido) detonadas por Roger Scruton em Por que a beleza importa (como uma lata de merda, com a inscrição “Artist’s shit”) são mais complexas (ao menos este exemplo inclui uma ação, algo distendido pelo tempo, talvez uma história, uma narrativa, uma consecução de algo).

A única coisa questionadora de tabus inibidos pela sociedade que já passou por ralar na boquinha da garrafa, por dança do maxixe, por latininho, por Banheira do Gugu, por Tati Quebra Barraco, por surra de bunda e pelo programa do Thunderbird na Globo é mesmo querer fazer isto e achar que é algo além de um zé-rodela (neste caso, também literalmente) por dar uma justificativa com curadoria proctológica do Catraca Livre.

É o mesmo que tentar racionalizar, na boa e velha masturbação mental, sobre o Zorra Total ou o Esquenta, dois dos novos bastiões da esquerda progressista brasileira.

Num país assolado por um rombo de trilhões para favorecer um projeto totalitário, por 64 mil homicídios por ano, por Paulo Freire sendo tratado como o cara que vai salvar a nossa educação quando finalmente for aplicado (porque acreditam que não foi ainda), pelo Corinthians ostentando uma Libertadores e pela tatuagem da Clara Averbuck, o que são vários eleitores do PT enfiando o dedo um no zé-da-quinca do outro, se é basicamente o que afirmamos que os petistas fazem metaforicamente entre si, em nível nacional ou de mera manutenção de poder, todo santo dia?

O problema desses artistinhas sem talento não é o seu conteúdo, é a distância de anos-luz existente entre sua pretensão e seu resultado.

É achar que a sociedade conservadora que está olhando para sua feiura e dizendo “Porra, de novo outro inútil tentando chamar atenção, porque se andasse por aí ninguém iria querer ver pelado nem a caralho” está na verdade pensando: “Nossa, um corpo nu, que coisa chocante, onde mais poderia ver uma coisa dessas?!” (dica: o lugar onde mais dá para se ver catramelos exibidos às mancheias é o Vaticano)

É crer que são fora dos padrões, quando estão abaixo dos padrões (qualquer ópera envolve tabus mais complexos do que fio-terra e cara de cu). É supor que são mais do que são.

Quer chocar a sociedade? É preciso mais do que exibir a rosca. O mundo não é fácil, não tente ganhar atenção jogando no very easy. A tal sociedade cheia de preconceitos está muito avançada para qualquer coitado (isto tem a mesma etimologia de “fodido”?) transbordando frustração sexual conseguir seu lugar ao sol fazendo menos do que a seção hardcore de qualquer site de pornografia.

Tudo o que a estética progressista, a política de coitadismo e “incentivo fiscal” para a Cultura, o vitimismo social, o discurso radical, a auto-afirmação dos que nada têm a afirmar, a ética de Khmer Rouge, a glorificação da mesmice e a banalização banalizada conseguem de fato é reduzir o ser humano às suas funções mais básicas: comer, cagar e trepar. Imagine all the people. 

O próximo passo natural e óbvio é coprofilia. Não as piadas sobre bosta dos Mamonas e dos Raimundos, mas a manipulação com significado, o desejo e apelo dos cagalhões como suprema produção humana. Slavoj Žižek já começou, e toda a sua obra não parece ter mais valor do que isto.

Qualquer coisa além do básico frugal – comer, cagar e trepar para criar outro ser que come, caga e trepa, caso não seja abortado – é considerado excessivo para a esquerda progressista. E ela acha que choca, esta donzelinha delicada morrendo de medo de ser ofendida.

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