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Eleições 2016

Acabou a narrativa de que “pobre vota na esquerda”

O que as eleições municipais escancararam foi o que estatísticos sempre souberam: só rico acredita que pobre vota na esquerda.

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Mapa da apuração eleitoral no segundo turno do Rio de Janeiro, entre Marcelo Crivella e Marcelo Freixo.

As eleições municipais mais significativas de 2016 foram de São Paulo e Rio de Janeiro, mas não pelo óbvio tamanho e importância das cidades, e sim pela narrativa implantada a muque nos corações e mentes do Brasil: a de que a esquerda é a ideologia “dos pobres”, enquanto qualquer coisa contrária a ela (sempre chamada de “direita” mesmo sem o ser) é coisa de “ricos” tentando manter seus privilégios e poderes.

O petista Fernando Haddad, hoje cotado como o “candidato sobrevivente” do PT para disputar algum cargo maior após todos os outros potenciais petistas serem presos ou caírem em desgraça, foi derrotado em São Paulo ainda no primeiro turno das eleições, mesmo tendo toda a máquina da prefeitura a seu favor (como se sabe, ser reeleito é muito mais fácil do que se eleger contra quem está no poder).

No Rio, em disputa mais apertada, Marcelo Crivella derrotou Marcelo Freixo, que no segundo turno ficou em terceiro lugar, perdendo para votos brancos, nulos e abstenções.

Derrotas da esquerda foram a grande tônica nacional (e talvez continental) de 2016. A distinção das duas cidades é o mapeamento bairro a bairro. Fernando Haddad, o “modernizador” do PT que escondeu o vermelho, foi derrotado em toda a cidade. O tucano João Dória, chamado de “candidato dos ricos” e alguém muito mais à direita do restante do PSDB, sem esconder seu patrimônio, só não foi o mais votado na região de Parelheiros, a mais pobre da cidade, onde a vencedora foi Marta Suplicy, agora do PMDB.

https://twitter.com/TonhoDrinks/status/792856158746841088

O discurso do PT e da esquerda, aprendido em cursos universitários ligados ao lazer, é o de que a direita, que só conteria “ricos”, não conhece a periferia. O bairro em que Fernando Haddad teve mais votos foi a região de Pinheiros, cuja renda média é de R$ 7 mil (sic), com o segundo melhor IDH da cidade. Parelheiros possui 7,8 vezes mais negros do que Pinheiros.

Sem perceber que falam de pobres e negros como de ratinhos em um laboratório, acreditando que entendem seus sofrimentos, seus anseios e seus valores por vê-los no Esquenta com Regina Casé, os ricos da cidade adotam um discurso pobrista para votar em Haddad, no PT e na esquerda, ignorando que os pobres de verdade, de carne e osso, não usufruem de “ciclofaixas” hiperfaturadas, acham “grafite” e “street art” uma emporcalhação da cidade que estraga seu ambiente, que a Paulista fechada aos fins de semana como se fosse um parque é só uma idéia distante de sua realidade concreta, que sua retórica de aborto e Parada Gay tem muito mais a ver com a Vila Madalena do que com o Jardim Danfer.

https://twitter.com/flaviomorgen/status/793070964993060864

A lição que a esquerda quer dar é a de que é pobre, ou se não é, os entende. A lição que os pobres deram à esquerda nas urnas é a de que a esquerda e suas preocupações hedonistas não poderia estar mais distante de seu cotidiano.

O mesmo se repetiu no Rio de Janeiro. O mapa eleitoral da cidade se tornou coisa risível – e virou meme – no segundo turno. Basicamente o psolista Marcelo Freixo ganhou em toda a área mais rica da cidade, com exceção de Ipanema. As áreas de periferia (ou, no Rio, zona norte e oeste), regiões mais pobres da cidade, votaram em peso contra o candidato de extrema-esquerda defendido pela Globo e, hoje em dia, pela Veja.

https://twitter.com/EditoraHumanas/status/792726540748464128

Apesar de todo o discurso da esquerda aprendido em ricas escolas, a vida real ainda se mostra um empecilho completo para sua verborréia ter algo de verdade. Pode ser um canto de sereia a encantar a DCEosfera do Twitter, que deixou #Freixo50 em primeiro lugar nos Trending Topics – mas nada diz a respeito de quem mora em Bangu ou Olaria para melhorar sua vida.

A aleivosia de que pobres votam na esquerda e ricos na direita, portanto, caiu por terra de vez no país. Embora o efeito já fosse conhecido, sobretudo de quem não vive de mentiras de marqueteiros tratadas como fatos pelo jornalismo, e sim de estatísticas acuradas.

https://twitter.com/flaviomorgen/status/793060200773287936

Em 2010, por exemplo, na disputa eleitoral entre Serra e Dilma, o candidato tucano ganhou em Cangaíba, Sapopemba, Lauzane Paulista, Tremembé, Vila Medeiros, Casa Verde, Pirituba, Cidade Ademar, Brás, Belém, Vila Prudente. De toda a zona norte, só 3 bairros tiveram maioria dilmista. A divergência numérica é ainda maior se olharmos atentamente para os bairros. O rico Higienópolis, que teve maioria pró-Serra, tem apenas 54 mil habitantes. A pobre Pirituba, que votou em peso contra a esquerda, tem 163 mil moradores.

Essa verdade de quem não acredita em frases de efeito de marqueteiros, em doutrinação de professores e em manipulação de jornalistas era conhecida praticamente apenas de uma meia dúzia que investiga estatísticas bairro a bairro em eleições – ou seja, de que a esquerda, se muito, tem uma vantagem retórica perante a periferia e a população pobre, mas assim que assume o poder e se torna conhecida destes mesmos pobres, eles a repudiam geralmente com ainda mais força do que os ricos.

https://twitter.com/NandoMorais31/status/793048321401192448

Agora, com o que o candidato de extrema-esquerda Marcelo Freixo conseguiu deixar claro ao Rio de Janeiro, e com o que o esquerdista caviar Fernando Haddad deixou claro em São Paulo, até mesmo quem não analisa mapas estatísticos consegue perceber: apenas ricos com “discurso social”, atores da Globo com seu discurso hedonista e freqüentadores de DCE na Vila Madalena leitor de blog falando sobre “periferia” e “pobreza” caem na lorota da esquerda. O povo mesmo quer candidatos cada vez mais direitistas.

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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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