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Imprensa decadente

O jornalismo da grande imprensa é o galo que canta sobre a estrumeira

Conluio nefasto entre mídia tradicional e poder político é o principal responsável pelo atraso cultural do brasileiro. A grande imprensa ainda é o melhor meio de você não saber nada sobre qualquer assunto

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Em As Neves do Kilimanjaro, o narrador do conto diz que Harry, o protagonista, resolveu negociar seu talento em vez de usá-lo. “E se dispusera a construir sua vida com outras coisas que não uma caneta ou um lápis.”  Vendo seu fim se aproximar, ele resolve jogar com os sentimentos da mulher que o acompanha. 

“Sentia-me bem quando começamos a conversar, e não queria de modo algum feri-la, mas agora me vejo como um louco dominado pelo desejo de ser cruel.”

O conto de Hemingway é muito mais do que a vida de alguém que sempre adiou suas tarefas e negociou seu talento para viver uma vida fútil. Mas as passagens acima representam nosso cartel jornalístico com uma precisão notável.

Tudo o que nosso jornalismo promissor do passado fez foi negociar seu talento. Enredou-se de tal modo nas entranhas do poder, esquecendo-se da sua real tarefa, que, agora, perto do fim, completamente desacreditado e humilhado, não passa de um louco dominado pelo desejo de ser cruel.

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A mídia depende de prestígio e, consequentemente, dinheiro. O prestígio foi embora quando, nos últimos 20 anos, ela se aproximou de forma promíscua do poder federal; a grana acabou no atual governo.

A imprensa tradicional lucrou muito com o PT por meio de contratos de publicidade e outras formas não tão claras assim. Jornalistas acostumados à mesada governista ficaram no vácuo, o que causou verdadeira irritação entre os ungidos protetores da informação. E quem se acostumou ao escambo da informação não concebe que o outro lado não use os mesmos artifícios. Por isso acusam todo apoiador do governo de estar recebendo uma graninha. Acuse-os…

Foi muito lucrativa para empresas de mídia e jornalistas supostamente independentes as ocultações dos crimes do colarinho branco que andavam à solta por aí. Aquele que abusava ou se tornava um inimigo acabava sendo exposto, mantendo assim a falsa aparência de vigilância da mídia

No atual governo, o que indigna os jornalistas não são desvios de conduta ou má gestão, mas, sim, o desprezo, acompanhado não raras vezes de esculacho público, por parte do presidente, de seus aliados e apoiadores. A vaidade do jornalista – que aprendeu na faculdade que sua profissão era a mais valiosa para um país – está sendo confrontada todo santo dia. E como não aprendeu nada além disso, ou seja, nunca foi estudar um assunto de fato, contentando-se em ouvir informação de bastidor, cada vez que posta uma opinião acaba tomando uma enxurrada de críticas e memes. 

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O exemplo mais recente dessa luta pela sobrevivência aconteceu na última terça-feira, dia 11, quando o PT chamou para depor uma suposta testemunha que mostraria que a campanha de Bolsonaro, conforme matéria publicada na Folha de S. Paulo, foi responsável por disparos de WhatsApp contendo fake news e que mudara o rumo das eleições.

Só que o tiro saiu pela culatra e o depoente não só negou ter feito disparos para o presidente, como afirmou ter feito justamente para quem o havia convidado a depor: o PT. A testemunha ainda fez acusações contra o deputado Rui Falcão, que o teria chamado de periférico e favelado, e contra a jornalista Patrícia Campos Mello, que o teria assediado para obter informações. 

Em relação às acusações pessoais feitas por Hans River, deve-se manter a cautela antes de sair condenando ou absolvendo qualquer uma das partes.

O que restou de gravíssimo foi que Hans River disse que a matéria publicada pela Folha de S. Paulo – e que poderia mudar o rumo das eleições – era uma tremenda farsa. Aqui, qualquer dos pressupostos revela que a matéria é uma grossa mentira e um crime eleitoral: se Hans é confiável, então a matéria é uma farsa; Se Hans não é confiável, como um jornal baseou sua reportagem em uma fonte assim? O que põe novamente em cheque a credibilidade da matéria.

Indignadas diante da revelação do fato, as redes sociais se inflamaram. A jornalista Campos Mello e a Folha foram duramente criticados. O que fez o cartel midiático, a milícia de redação? Saiu em peso para proteger um dos seus. O fato central (a Folha ter publicado uma Fake News ameaçando o resultado das eleições) foi ignorado.


Transformaram uma acusação grave numa defesa patética da liberdade de imprensa. A porta-voz da alcatéia, Vera Magalhães, entrou em surto no dia. Saiu numa verdadeira caça às bruxas, ameaçando Deus e o Diabo. Pra quem posa de defensora das liberdades, mostrou toda sua sanha voraz por perseguir quem não se alinha com as suas conclusões. 

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Vendo sua narrativa indo para o bueiro, a classe se uniu. Coisa linda de se ver! Já faz um tempo que o corporativismo da imprensa se enrola tentando validar apenas a sua visão dos fatos. As agências de checagem de notícias são uma das inúmeras tentativas patéticas de monopolizar a informação.

Agora, apelam aos políticos tradicionais e à cúpula das redes sociais que disseminam a informação democraticamente para que censurem quem os “ataca”. Ataque é o nome dado atualmente a qualquer discordância e crítica. O que eles querem é opinar e mentir impunemente, sem nenhuma contestação.

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Não é de hoje que gente com algum QI “ataca” os jornalistas. Karl Kraus, que, nas palavras de Elias Canetti “não era capaz de sacrificar a voz mais ínfima, mais insignificante, mais oca”, dizia: “não ter pensamentos e ser capaz de expressá-los – eis um jornalista”. Por isso, essa afetação de vitimismo é teatrinho para inglês ver.

Um ouvido atento e educado é uma dádiva para o escritor e não há ouvido mais grosseiro e distraído do que o de um jornalista. Adestrado a compreender apenas a linha reta de seus pares, o jornalista oficial não assimila as nuances da vida e muito menos da linguagem. Tudo é preto no branco. 

Os constantes ataques de pelanca dos jornalistas mais experientes frente a meras expressões descontextualizadas de governistas retratam claramente sua inabilidade auditiva e cognitiva. 

O jornalismo mainstream contribuiu decisivamente para a completa derrocada da inteligência brasileira, como elucidou Flávio Gordon, no essencial livro A Corrupção da Inteligência. Gordon mostra como a instrumentalização da mídia pela esquerda gerou esse apagão cultural que hoje vemos no Brasil; como “a visão de mundo de uma casta minoritária”, elevada ao status de formadora de opinião, “acabou fazendo as vezes da normalidade sadia”, inserindo na cultura tradicional todo tipo de aberração progressista.


Trato aqui o jornalismo como uma classe homogênea apenas para demonstrar o poder que a maioria inapta e inescrupulosa exerce sobre uma minoria preparada e verdadeiramente talentosa. Os bons jornalistas da velha guarda mantém e até aumentam seu prestígio. Descolaram-se do espírito de rebanho onipresente nas redações. 


No fim do conto de Hemingway, Harry sente a morte pousar a cabeça ao pé do catre e ele pudera sentir-lhe o mau hálito. É o que qualquer espectador atento percebe ao ver nosso jornalismo atual. 

Ou voltam a exercer sua profissão de forma séria, ou se preocupam em construir sua vida com a caneta e o lápis, ou estarão fadados a conversar apenas com os donos da casa ao fim de uma festa.

 

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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