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Conjunto de prataria

Por que Pondé, nosso Hegel de pantufas, não quer que você se manifeste no dia 15?

Nosso John Locke com creme hidratante acha muito indelicado da parte do povo manifestar sua insatisfação contra quem sempre usou o país para satisfazer seus próprios interesses

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Pondé-entre-as-musas

É longa a lista de livros que aborda o papel do intelectual no mundo moderno. Todos parecem concordar que um intelectual é uma das importantes peças para a manutenção da ordem pública, depois dos banheiros químicos e das enchentes.

Parece que, no Brasil, boa parte do que se convencionou chamar de intelectual, em maior ou menor grau, é apenas alguém com uma aceitável habilidade motora para expor suas idéias. Por aqui, mais que os pensamentos, são os gestos que definem quem é ou não um pensador.

Quando um Karnal elabora todo um gestual, influenciado pelo melhor do teatro japonês, técnicas avançadas de Tai Chi Chuan e de kung fu, para dizer que o mar é azul, mas pode ser verde também, percebemos que idéias e proteínas são bem menos importantes que suspensórios e creme para acne.

Quem não fica embevecido quando um Clóvis de Barros, como se estivesse contemplando a estrondosa face de Deus, após falas intranquilas, chega à conclusão mara-maravilhana de que “a vida é (pausa tcheckoviana) dor e sofrimento, se você preferir”? Dá uma vontade na gente de se desapegar dessa vida, ingerindo umas trezentas cápsulas de cianureto, ou não?

Quem não se lembra do ataque de tecidos flácidos de Marilena Chauí, musa inspiradora do poema A Xeroxona, de Bruno Tolentino, berrando até babar que ODEIA a classe média? Um clássico da nossa intelectualidade.

Agora, Luiz Felipe Pondé, em escanteio mal batido na Gazeta do Povo, não quer que você saia de casa no dia 15. Nosso Kant que come cupcake e bebe champanhe diz que Bolsonaro faz o que Lula já fez: colocar o povo contra as elites. 


Pondé não vê diferença entre as elites em questão. Para nosso Descartes com almofadinha pra hemorróida, Lula, comprando políticos, indicando juízes e alimentando o bolso do jornalismo profissional, é igual a Bolsonaro, que não aceita fazer conchavos com esses mesmos políticos, juízes e profissionais do texto. 

Críticas ao governo seriam bem-vindas. Mas, parece que nossa classe pigarreante não tem muito o que dizer. Pondé alega método na estupidez de Bolsonaro. A única coisa que não tem método mesmo é o texto do acadêmico. Aliás, nesse trecho, vemos o português naufragar para que “o método navegue de braçada”:  

“O método Bolsonaro também navega de braçada nas consequências políticas da comunicação em redes sociais.”

Pondé acha que a falta de representatividade (furto-me a comentar o neologismo empregado pelo nosso Espinosa de calça de couro) das vontades do povo no congresso, no STF e na mídia é uma sensação apenas. Pura subjetividade de quem come apenas uma vez a cada dois dias.

Acha também que é hora de bater de volta. Sabe-se lá em quê ou em quem. No povo? Seria divertido nosso Leibniz tropical colocar o cachimbo de lado e ir trocar uns socos com o Augusto Nunes, por exemplo. Mas Pondé é só pose. Sua consciência trágica é a de quem vê o desamparo existencial do ser quando quebra uma unha ou fica com um fiapo de lagosta entre os dentes. 

O melhor ficou para o final. Nosso Rousseau de dockside sem meia cita a mais caricata das personagens do momento: Vera Magalhães. Eça de Queiroz diz que “cada nação possui um tipo criado para o riso público”. Estamos delineando finalmente nosso tipo digno do mais refinado escárnio: o tipo midiático.

São os tipos irônicos por excelência. Observam o mundo lá do alto de suas posições, tratando todo aquele que não comunga de sua visão especial e única, como resto. Mas, como na bíblia, é o resto fiel que permanece imune às vicissitudes da história. 

O nossos ungidos guardiões da opinião pública desprezam qualquer opinião popular. Gostam mesmo é de usar seus prestígios para fazer negócios. A elite falante profissional depende de um povo idiotizado para continuar nos auditórios das livrarias mostrando a meia dúzia de esnobes abobados como suas inteligências são iluminadas.

Pondé é o pingentinho de couro no cadarço da sofística. Um mundo organizado pela sua destreza cerebral seria o que? Um pondemônio?

Nos vemos no dia 15.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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