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Feios, chatos e bobos

Revista Isto É publica matéria chamando de terrorista qualquer um que não seja de ultra extrema esquerda

O segmento de ficção para pessoas limítrofes ganha cada vez mais espaço no mercado jornalístico profissional. É a alternativa encontrada pela imprensa oficial para recuperar público, mesmo que seja só entre aqueles que ainda têm dificuldade com brinquedos pedagógicos de encaixe

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O Les luthiers, grupo de comédia argentino, diz que se a montanha vem até você, cuidado! Pode ser uma avalanche. Desprestigiada, quase sem leitores e com pouquíssima credibilidade, pra não dizer nenhuma, a imprensa jeca, profissional, decidiu apostar na avalanche. Uma nova forma de produzir notícias tem se espalhado pelas redações: é o chamado jornalismo de ficção.

A mais recente publicação do gênero saiu no último fim de semana. Com o título “Terroristas de Direita”, a revista Isto É cria uma fantasia infantil, bem ao gosto de quem ainda não desmamou ou de quem se recusa a aceitar que não é Napoleão Bonaparte.

A matéria carrega os chavões de sempre: sabe quem gostava de carregar tochas? Ele mesmo, Hitley! Sabe quem gostava de pamonha com canela? Mussolini, sempre ele. A ânsia de criar um paralelo entre o atual governo e o pesadelo nazista é condição sine qua non das reportagens jornalísticas. Uma famosa datilógrafa profissional chegou a printar a tela de um vídeo onde Bolsonaro e apoiadores rezavam para fazer parecer que era uma saudação nazista. Obscurantismo na veia.


O foco da anedota, digo, da matéria, é Sara Winter, líder do grupo que está há semanas protestando na frente do Palácio do Planalto. Para a dupla que assina a constipação em forma de matéria jornalística, Sara seria um tipo de Osama Bin Laden que ao invés de enfiar aviões em arranha-céus, solta buscapés, biribinhas, serpentes voadoras e rojões. Parece um roteiro do Monty Python, mas não é. É a realidade da nossa imprensa jeca e profissional. 

O devaneio, melhor dizendo, a reportagem, diz que Sara é a líder da “guerrilha bolsonarista”. Logo no início, o irmão de Sara diz que a garota, que aos catorze anos saía às ruas com soco inglês, está mais radical e pior. Claro que só símios abestados como nós podemos achar que esmurrar a cara de alguém com um soco inglês denotaria mais radicalismo que soltar fogos de artifícios enquanto os Supremos ministros fazem uma live. Mas isso é para gente maluca que insiste em aceitar a realidade.

O triste de lidar com inimigos com QI próximo da temperatura da Antártida no mais alto verão é que um parágrafo contradiz o outro. Eles começam traçando o perfil de uma jovem que simpatizava com o nazismo e no parágrafo seguinte dizem que, nessa época, ela era feminista. Ou seja, antes de se transformar no monstro cuspidor de rojões, Sara, que nutria ardentes desejos fascistas – a ponto de adotar o sobrenome Winter em homenagem a uma fascista que fora espiã nazista – militava num movimento feminista de extrema esquerda. Palmas para a dupla de jornalistas.

Parece que o texto é uma propaganda a favor de Sara. Depois de ser nazista e feminista ela resolveu adotar pautas mais conservadoras e foi expulsa do DEM (DEM de Rodrigo Maia, o grande monge asceta da imprensa jeca). Só por esse começo, deduz-se que a moça parece ter tomado juízo. 

A coisa segue ainda mais patética. Na tentativa de zombar do movimento, a dupla se entrega. “Vestidos com roupas pretas e carregando tochas, os 300, que na verdade não passam de 15, já marcharam em Brasília criticando o STF.” Que crime gravíssimo, não? Onde já se viu criticar a nata da decência e dos bons costumes? E mais! Se o movimento muitas vezes não junta mais de 15 pessoas, como pode oferecer esse risco todo à nação, à democracia, aos magnânimos togados, à Via Láctea? Devem ser 15 titãs e não pessoas comuns, calcula-se.

Os responsáveis pela delírio, corrijo-me, reportagem, tão atentos às minúcias quanto um cachorro com pulgas no rego, acham que pessoas comuns são ameaçadoras aos poderes constituídos, como o STF, por exemplo. Basta ver a devassa que está sendo feita contra quem comete o pecado mortal de levantar hashtags contra os ministros.

Corroborando as ações, essas sim, antidemocráticas dos ministros do Supremo e do inquérito ilegal comandado por Alexandre de Moraes, a dupla diz que “até ser presa, Sara buscava desesperadamente a fama.” Como se estivessem dissecando a alma da quadrilha de Al Capone, a revista Isto É traça as fases da ação de Sara e seu grupo. A página contendo as “fases” de Sara escancara a tentativa dos autores da tosse espasmódica em descolar Sara do movimento feminista. Deturparam Sara! 

Ainda que a direita seja uma colcha de retalhos absolutamente heterogênea, os jornalistas colocam todos no mesmo balaio. É uma avalanche de asneiras: “máquina do ódio”, “terroristas”, “grupos extremistas”,“cooptação de policiais militares pelo bolsonarismo” (???). Se não levar um Pulitzer, eu mesmo fabrico um. 

A topada no pé da mesa em forma de matéria vai agora às raias da mais quimérica ficção. No grupo de intelectuais, os jornalistas colocam Damares Alves e até Fábio Wajngarten ao lado de Olavo de Carvalho. Como seria se os autores tivessem completado seu ciclo de alfabetização? 

Tudo o que se extrai do faz-de-conta – isso não é uma reportagem séria nem aqui nem em Xangri-lá – é que a democracia está em risco porque há um grupo extremista responsável por levantar hashtags, soltar fogos de artifícios e criticar STF e Congresso. É como se um lutador de MMA fizesse um boletim de ocorrência contra uma criança que o chamasse de bobo e feio. Não há um único crime real relatado no texto, apenas divagações de mentes pueris que não aprenderam a brincar com a democracia. Tudo o que não é extremíssima esquerda deve ser averiguado em CPMIs e pela polícia política, de preferência punido com a morte num Gulag qualquer. 

Outro expoente da liberdade de expressão quer enforcar democraticamente a família Bolsonaro nas tripas dos pastores evangélicos. Metaforicamente, claro. 

bumbumbumbum21

Fico me perguntando onde anda o bom jornalista. O bom jornalista é quase um escândalo. Aliás, é um escândalo completo. Numa redação de jornal, caminha o bom jornalista envergonhado. Cabisbaixo, levanta-se e busca um café. Os olhares de reprovação atingem o bom jornalista como se fosse uma mãe solteira nos anos 20 com um pivete a tiracolo descendo do bonde na Ladeira Porto Geral. 

Por falar em Napoleão, a imprensa brasileira, jeca como só ela, parece muito com o louquinho da anedota:

O médico pergunta ao pinel: “Qual o seu nome?” Nossa imprensa, digo, nosso louquinho se apressa em dizer: “Sou Napoleão Bonaparte. O médico olha bem e diz: “Já sei qual o seu problema”. E a Folha, digo, O Globo, digo, o Estadão, quero dizer, a Veja, a Isto É, ou melhor, o biruta diz: “Eu não tenho problema nenhum, doutor. O problema é minha esposa Josefina que acha que é uma tal de Maria das Dores“.

Nessa toada, restará ao jornalismo profissional os fundos de uma loja de penhores. O bom jornalista já está lá. E, para nossa melancolia, não há ninguém a reclamá-lo.


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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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