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Pequenas mortes

Meditações de um fim de tarde para você esquecer Felipe Neto, mas nem tanto

As razões menos comentadas pelas quais Ortega y Gasset é melhor do que youtuber imitando foca para mongolóides

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Ortega Y Gasset, nas suas Meditações do Quixote, diz que seus ensaios de amor intelectual seriam chamados de “salvações” por um humanista do século XVII pois carecem de valor informativo. O valor de uma meditação – ou pra ficar com o humanista lá do XVII, salvação – é tão superior ao da informação com que se debatem esquerdistas histéricos, centristas iluminados e rígidos direitistas que é para a saúde do intelecto assim como um período numa chácara afastada é para a saúde dos nervos.

As salvações de um Ortega são como um ano sabático na Itália, com direito a olhadelas em tesouros escondidos em Verona, Florença, Veneza. Outros grandes escritores são como uma semana numa vila portuguesa, repleta de ruas de pedra e paisagens indescritíveis, com restaurantes caseiros e gente cheia de boas histórias pra contar. Espero das minhas salvações, quanto muito, que possam ser um fim de semana num sítio em Itupeva ou numa estância em Jundiaí, embora eu sempre ache que são uma quinta-feira, às três da tarde, ao pé de uma ruela qualquer.

Esse preâmbulo todo é para dizer que não tenho receitas sobre como agir, o que pensar, como funciona um painel de LED ou quem matou Odete Roitman – essa eu descobri só no final da novela. O que tento é ser sincero e dar alguma graça à vida aqui no asfalto. Não tenho fórmula pronta sobre como ler um livro ou em qual ordem, não entendo o índice glicêmico dos alimentos e nem como se faz um barquinho ou chapéu com jornal – que é a única função de um periódico nos dias atuais.

Esse espaço – penso assim – deveria ser dedicado sempre às pequenas salvações diárias, ao retiro mental necessário – apenas uma pequena pausa em nossa programação, como diria o locutor que anunciava o melhor momento da televisão brasileira: o das linhas verticais coloridas e aquele apito constante seguido pela imagem estática. Mas a estupidez corriqueira vem sempre nos revelar que a vida virou uma eterna segunda-feira de manhã na Radial Leste (sou de São Paulo, mas permito ao leitor transferir essa impressão à sua avenida barulhenta e intransitável de preferência).

A realidade brasileira desceu tanto em qualidade, em sutileza, em discernimento, que deveria ser prova inconteste de que a vida também caminha para trás, retrocede, involui. E, mais recentemente, parece ter tomado impulso em direção a uma barbárie mais aguda. Não sei quando foi que a tagarelice tornou-se nossa atitude existencial primeira. A elevada meta de todo adulto. O sujeito não quer ser rico apenas, quer ser rico para que as pessoas o ouçam. É o carente existencial perpétuo, como definiu o Olavo de Carvalho. 

Aliás, o Olavo, honrando a tradição dos grandes filósofos, é um mergulho na mata selvagem. Desorienta a princípio, mas se você for humilde o bastante para escutar, pode encontrar a picada deixada que leva às grandes meditações. Foi com ele que iniciei a subida; é nele que sempre me apoio, mesmo quanto chicoteio-me às costas de inveja do seu estilo.

Num país como o nosso, brutalizado pelo poder hegemônico de uma mídia jeca e presunçosa, em que a arte não amplia a condição humana porque, desconectada da religião, que é o fundamento de nossa condição, não percebe a sua pequenez, as salvações, os mergulhos na mata virgem são coisas que levam muito tempo a ser assimiladas. Rendemo-nos, portanto, ao bom e velho tratamento de choque. 

De uns cinquenta anos pra cá, a intelectualidade de esquerda tomou conta do debate público. Isso é nítido e já muito bem documentado. Basta ver como tipos desprezíveis e rasos tornaram-se os sacerdotes das coisas permanentes e profundas. Qualquer perdigoto é tratado como a mais recente tomada de consciência do povo. O resultado é esse: youtubers comentando política e ciência para hordas de artistas, jornalistas e políticos abobalhados. Uma prova do que digo está no artigo da jovem Gabriela Prioli na Folha. Deixo o link aqui e saio correndo.


Essa prática de içar ao patamar de sábio do oriente, com barba branca e tudo, qualquer zé bronha chumbado na cachaça é antiga por aqui. Vide a recente defesa da esquerda a um de seus mais ilustrativos pensadores: Casagrande. Acompanhei de longe o murmurinho de patetas e sua tag cafona “Somos Todos Casagrande”. Políticos fazem Lives com a Anitta. Com a ANITTA! O pensamento filosófico da classe falante hoje é uma espécie de materialismo histórico à luz do Bonde do Tigrão.

Agora, é Felipe Neto, uma criança de mais de trinta anos, que aliciava o público infantil com temas impróprios, que recebe o afago das miríades de asnos fundamentais da nossa esquerda castigada, pois festiva ela já não é. Qualquer crítica a políticos, jornalistas, artistas e moleques que contribuem diariamente para o total aniquilamento da cultura é tratado como um ataque cruel contra a pessoa humana. Já as ameaças de morte contra o presidente e a censura aos perfis de apoiadores legítimos é visto como limpeza democrática.

Faça um pequeno exercício de previsão, não precisa de muito (e por favor, não siga a linha de inatividade mental da Vera Magalhães), e veja se isso não tem todo o contorno de uma preparação para o massacre. Porque lunáticos presunçosos auto persuadidos de sua própria grandeza sempre deixaram um extenso rastro de cadáveres. E um garoto sentindo-se todo poderoso deixará um rastro de destruição ainda maior. 

Felipe Neto é um adolescente tardio. Sua linguagem é a de quem ainda pede ajuda para apertar o botão do elevador. Sua chegada ao debate político é a consagração do dedo tirando remela do nariz como atividade intelectual, do papel higiênico molhado atirado do décimo andar como meditação metafísica, do peido debaixo da manta como investigação filosófica. Não é por acaso que só seduza crianças desamparadas e esquerdistas.

A sedução acaba aí. Quem o está levantando e lhe dando moral é a nata do que se tem de mais demoníaco no mundo. É gente muito, mas muito endinheirada, cuja sanha de dominação não tem mais controle. Usam quem estiver à mão, uma criança tardia, um cientista de YouTube, uma bunda que rebola. E viram nessa pandemia sua grande oportunidade. 

Cabe a cada um que reluta em ceder sua consciência ao medo enfrentar esses males. Porque em breve é possível que não possamos mais falar, a não ser escondidos num fundo de bar. E as meditações, os retiros que a alma precisa, a temporada nos alpes com Thomas Mann, o fim de tarde na praia com Hemingway, ou um exílio com Santo Antão, com São Bernardo de Claraval, serão uma reminiscência distante porque tudo o que nos restará será salvar a própria pele num gulag qualquer.  

Ortega y Gasset, nas mesmas meditações, diz que “há concentrada no afã de conhecer toda uma atitude religiosa”. Nesses cinquenta anos de destruição da consciência no Brasil, perdemos o contato com esse amor religioso pelo conhecimento, perdemos a própria noção de religiosidade, substituída por uma rigidez moral que é puro rancor. E Ortega diz também que “o rancor é uma emanação da consciência de inferioridade. É a supressão imaginária de quem não podemos suprimir com nossas próprias forças”.

Se olharmos com sinceridade, esse rancor, muitas vezes, é que está no centro do nosso julgamento.

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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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