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O sagrado e o profano

A verdadeira distinção não é entre direita e esquerda, mas entre seculares e transcendentes

Direita e esquerda é uma distinção meramente política, a superfície de uma diferença muito mais profunda: entre a visão de mundo secular e a tradição transcendente

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Pessoas na superfície ainda tratam o maior conflito do nosso século como uma disputa entre Estado e mercado, com capilosas ramificações entre esquerda e direita. Quem estuda e conhece em profundidade o que acontece com o mundo sabe que a verdadeira disputa é entre visões de mundo seculares e transcendentes.

Nota-se com toda a facilidade como os seculares, tratando tudo como matéria, estão apenas numa (comparativamente) pequena discordância sobre alocação e distribuição de recursos (basicamente, de forma monopolista ou entre entes privados), enquanto visões de mundo transcendentes estão, cada uma a seu modo, dando significados distintos a fenômenos com peso moral absurdamente divergentes, a despeito de serem realizados por Estado ou mercado.

É facílimo perceber como liberais e comunistas tratam bens como pura matéria, tendo divergências sobre “liberdade” muito mais no sentido de distribuição material do que em qualquer outra questão sobre livre arbítrio.

Do ancap ao leitor de Jacobin, todos estão unidos para dizer que uma série de TV ou um peladão supostamente fazendo “arte” (pun intended) são “livres” para seus atos, um apenas defendendo ser “mercado”, e outro pensando que é um ato revolucionário para que o Estado (superestrutura) vença a família e a moral (infraestrutura).

Qualquer visão transcendente está buscando sentidos nas relações humanas, nos comportamentos, na moral, mesmo no comércio ou nas propagandas.

A forma como são traçados os laços humanos – da família e amizade ao comércio e às relações internacionais – é avalizada por significados mais profundos (históricos, culturais, tradicionais, religiosos etc) que perduram e determinam muito mais a ação humana do que uma variação da Bolsa ou uma disputa entre um burocrata e um agente de mercado (como se ambos não estivessem, via de regra, mancomunados, ou não fossem o mesmo agente).

Por exemplo, a Rússia pós-bolchevismo é um Estado autoritário, etnicamente homogêneo, mas tentando resgatar tradições transcendentes para fazer uma maçaroca com sua política pós-socialista.

O Brasil, a um só tempo em que começa a aderir ao mercado, por outro lado, abandona cada vez mais suas tradições para aderir e adorar qualquer quinquilharia modernista, via de regra macaqueando o progressismo dos países capitalistas, seja o pronome neutro (algo que não faz sentido em línguas com marcação de gênero) ou a arruaça gourmet e a censura em redes sociais. Um país periférico tenta se tornar grande pela cópia de tudo o que destrói um país grande.

A secularização é notada no vocabulário (até ele hipersexualizado tanto para liberais quanto para comunistas), na inclinação a se dobrar a autoridades mundanas (de diplomas a agências de suposto fact-checking), nos atos completamente apartados de moral e mesmo de significado.

Tanto o liberal quanto o marxista com Lukács na ponta da língua são seres da modernidade, são frutos de um mundo já destruído, anômalo e manco, com uma eterna nostalgia por algo maior que se perdeu – seja o bom selvagem de Rousseau (e Marx), seja o spleen e o existencialismo dos intelectuais entediados com a fartura capitalista, aliada à falta de sentido de uma vida divorciada da tradição.

É aquilo que tenta ser resgatado por românticos na natureza ainda não conspurcada pela sociologia, por críticos do espírito pequeno-burguês na Rússia tsarista ou no primitivismo, na poesia de T. S. Eliot e Georg Trakl e na música de Mahler e Rimsky-Korsakov, num espírito quixotesco cujos reflexos chegam aos livros de J. R. R. Tolkien ou ao heavy metal inspirado na música folk.

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A mentalidade secular tem como corolário buscar saídas ainda mais seculares para seu niilismo e seu vácuo existencial: a psicanálise substituindo o confessionário, as drogas e seu fluxo repetitivo (do ópio e da mescalina dos intelectuais ao crack e à cocaína dos morros do Rio, passando é claro pelos antidepressivos e pela pílula do dia seguinte), a crença em “especialistas” e que jornalistas são porta-vozes da ciência para o vulgo, devendo ser lidos todo dia, várias vezes por dia, ao invés dos sábios, dos doutos, dos escritores e dos filósofos.

Tudo isto foi analisado academicamente pelo maior estudioso das religiões, o romeno Mircea Eliade, que, em seu clássico O Sagrado e o Profano, mostrou como a essência secular é impossível (já ouviu alguma crítica à democracia não ser considerada uma blasfêmia que mereça fogueira?). Por Charles Taylor, em seu gigante A Era Secular. E por basicamente todos os grandes nomes que pensaram na modernidade, como Mariano Fazio (Fundamentos da Cultura Contemporânea) ou, mais recentemente, Thaddeus J. Kozinski (Modernity as Apocalypse: Sacred Nihilism and the Counterfeits of Logos).

Soa até engraçado tentar imaginar os grandes “especialistas”, “acadêmicos” e “cientistas” tentando ler tais livros e aplicar seus conceitos ao mundo moderno. Todos estão ocupados demais repetindo cacoetes como mantras (democracia, obscurantismo, ciência, especialistas, feminismo, racismo – e pouco vocabulário além disso) e se considerando muito inteligentes citando-se mutuamente por isso.

A verdadeira distinção, portanto, é entre aqueles que buscam laços com significado e entre os que enxergam nas relações humanas apenas modelos de se ganhar mais. O fundamento social para os tradicionalistas pode ser resumido no conceito de São Paulo, muito utilizado por Eric Voegelin, que é a homonoia: um nous, um modelo pensamento comungado, transmitido não apenas através de discursos (logos), mas também por símbolos, práticas, comportamentos, valores, gestualísticas, rituais, referências comuns.

Sem o nous tradicional que faça os homens sentirem-se parte de um todo orgânico, resta aos modernos apenas o eidolon, a imagem morta de um espírito, a cópia da cópia, o culto das sombras agonizantes. Assim, busca-se alguma ordem social através de conceitos pífios e falsos, como “igualdade social” (comunismo) ou raça (nacional-socialismo), ou a idolatria a elementos interessantes e mesmo importantes, como “liberdade de empreendedorismo”, mas incapazes de formar um todo social como a construção e defesa de famílias, povos, países – ou, mais especificamente, na transformação do sexo em paternidade, de populações em culturas e civilizações, de países em lares.

Se a direita perde da esquerda no ramo puramente político de viciados em notícias em redes sociais, a disputa entre tradicionalistas e seculares é perdida pelos tradicionalistas no mundo todo em muito mais do que 90%. Estreita é a porta da verdade, tentadora a tendência a apenas concordar com amigos atualizadíssimos da última fofoca de um youtuber, repetida em todos os programas matinais e vespertinos que os modernos chamam de “progresso”.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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