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Música

O que os jovens da elite intelectual brasileira estão ouvindo?

Ao comparar o que os jovens universitários de outros países estão ouvindo, percebemos o quanto estamos atolados no fundo do abismo cultural

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O que os jovens da elite intelectual brasileira estão ouvindo?

Every Noise At Once é uma plataforma de inteligência artificial voltada à música, criada por Glenn McDonald, engenheiro-chefe do The Echo Nest, empresa de inteligência musical e plataforma de dados que foi adquirida pela Spotfy em março de 2014 por €49,7 milhões de euros.

O projeto é, segundo o próprio site, “uma tentativa contínua de elaborar um gráfico de dispersão gerado por algoritmos e ajustado para legibilidade do espaço do gênero musical, com base em dados rastreados e analisados por 5.472 distinções em forma de gênero pelo Spotify em 2021-06-04.”

Parte do gráfico de dispersão do Every Noise At Once

Além do gráfico de dispersão abrangendo os gêneros musicais mais diversos, que pode ser uma ferramenta interessantíssima tanto de pesquisa científica quanto mercadológica, há outras funcionalidades de grande utilidade, como as listas de reprodução por cidade, país, faixa etária, estilos musicais e tantas outras. Uma delas é chamada “Every School at Once”, que consiste em listas criadas pela inteligência musical artificial baseada em algoritmos que relacionam quais músicas os alunos de 1.971 universidades de todo o mundo estão ouvindo no momento.

Sendo o serviço de streaming de músicas, podcasts e vídeos mais popular e usado no mundo, oferecendo mais de 30 milhões de músicas e que, no primeiro trimestre de 2021, contava com uma base de usuários ativos de 356 milhões de pessoas, incluindo 158 milhões de assinantes pagantes, o Spotfy é, inegavelmente, uma base de dados riquíssima e de inquestionável valor estatístico.

Em uma incrível viagem musical pelo mundo, podemos conhecer desde o que os estudantes do Institute of Business Administration, no Paquistão, costumam ouvir, ou as músicas mais ouvidas entre os graduandos da Universidade de Nairóbi, no Quênia, até o que os alunos da Universidade de Helsinque, na Finlândia, carregam em suas listas musicais. Já aviso: a experiência é incrível e você poderá passar horas viajando pelo mundo.

Como sempre ocorre, viajar pelo mundo – ainda que musicalmente – pode revelar dramáticos contrastes socioculturais.

A título de exemplificação, vejamos a música que está na primeira posição na playlist da Universidade do Texas, em Austin. Chama-se “Rainy Daze”, de Maddy Hatchett. A letra diz:

Rainy days, sunshine

Anytime’s a good time

Call me up, and don’t be shy

Rainy days are friends of mine

Oo, love the rainy days

Cloudy nights, starry skies

The milky way is in your eyes

So hold me close and hold me tight

You know I love the stormy nights

Percebe-se que a letra é romântica e até mesmo ingênua. Musicalmente, é um pop simplesinho e suingado, com uma pegada setentista que remete levemente a Stevie Wonder, ABBA e Bee Gees. Bem feitinha, porém nada surpreendente, perfeitamente dentro do se poderia esperar de uma playlist de jovens universitários.

O fenômeno do hip-hop é praticamente onipresente nas listas universitárias, podendo ser encontrados raps em árabe, suaíli, grego, turco etc. Há ainda distinções culturais locais, como a predominância de músicas mais leves, harmoniosas e melódicas entre as listas de Hong Kong, e músicas com elementos tradicionais – seja em instrumentos ou sonoridades – nos países muçulmanos e africanos.

Há descobertas inusitadas e mesmo cômicas, como o improvável gênero “arab trap”. O trap é um subgênero do rap cuja temática inclui criminalidade, tráfico de drogas, festas, sexo, cadeia, religião, violência, armas, gangues etc., o que pode deixar o ouvinte em dúvida se são bandas compostas por músicos manetas ou se isso justificaria o ódio que o islã radical sente pelo Ocidente. Em segundo lugar na playlist da Universidade de Santiago do Chile há um inequívoco pagode, bem ao gosto noventista brasileiro, a música “Recreo”, do grupo “Moral Distraida”, praticamente um “Só Pra Contrariar” andino.

Em geral, nada fica muito fora do esperado ao tratarmos de playlists baseadas nos padrões de escuta de jovens universitários. Obviamente que não encontraríamos Caruso, Montserrat Caballé, Sinatra ou Nelson Gonçalves, nem mesmo na playlist das faculdades de música. Não podemos nem devemos esperar que o jovem universitário médio ouça Mozart em suas festas; o jovem deve ser jovem antes de tudo, não é alarmante que comporte-se como jovem e ouça músicas condizentes com seus hormônios.

Esteticamente, as listas de reprodução obedecem a três grandes influências básicas:

1) a indústria da música pop global, baseada nos Estados Unidos da América e que impõe o hip-hop, a música pop eletrônica e suas vertentes;

2) às tendências regionalistas e tradicionais, que fazem com que as listas contenham elementos da música tradicional de cada país ou região, mesmo que tais elementos estejam sempre diluídos numa apresentação pop modernizada e;

3) o fenômeno da globalização, no qual as limitações regionais são perdidas e estilos musicais de uma determinada região sejam incorporados em outros lugares, muitas vezes de maneira orgânica, sem um direcionamento proposital das empresas de mídia (embora as empresas certamente aproveitem o embalo, ao detectarem essas incorporações).

O problema é que, ao conhecer o que os jovens da elite intelectual dos outros países estão ouvindo, fica impossível não comparar com o que os jovens da elite acadêmica brasileira ouvem e assim, percebermos o quanto estamos atolados no fundo do abismo cultural.

Dentre as músicas e listas de reprodução analisadas, as únicas que saem radicalmente da média mundial, afastando-se da normalidade de maneira dramática são as playlists das universidades brasileiras.

A hegemonia do “funk carioca” (sic) faz do Brasil, outrora um país musical, a Cracolândia da música mundial. Musical ou poeticamente, as músicas mais ouvidas pelos universitários brasileiros ficam muito aquém do que se ouve em qualquer outro lugar do mundo. São pastiches sem musicalidade, de ritmo pobre, mal produzidos, com letras absolutamente sofríveis e “cantadas” por néscios histéricos que não sabem sequer falar, quanto mais cantar. As letras são grosseiras, estupidificantes, sexualmente degradantes, pornográficas e explícitas, que louvam o banditismo, o sexo indiscriminado, a violência, a vitimização, a afetação hedonista e niilista, a ostentação materialista, o consumo de drogas e bebidas, a pedofilia, o abuso sexual de mulheres e mais toda e qualquer imoralidade imaginável.

As playlists das maiores universidades brasileiras, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), por exemplo, estão completamente tomadas por coisas como: “Me Desculpa Eu Pensei Com a Xota”, “Que Foda Foi Essa”, “Sexo no Vidigal”, “Coça de Xereca”, “Travequeiro” (Irmãs de Pau), “Maconha e Pente” e “Rave da Putaria”.

Playlist da UERJ dominada por lixo
Federal do RJ, mais insalubre que um bailão no Pavão-Pavãozinho às 4 da madrugada

A diferença é que, nas universidades dos grandes centros paulistas, predominam ainda a MPB, uma certa “nova MPB”, uma coisa chamada “pop lgbtq+ brasileira” (uma classificação sem nenhuma base estética-musical, mas somente ideológica), além de músicas politicamente ideologizadas (de péssima qualidade), em contraste com o Rio de janeiro, completamente tomado pelo “funk” (sic). O mesmo se dá nas universidades da região sul do país, onde por exemplo surge o forró universitário no NE, o sertanejo universitário no Centro-Oeste e vanerões e milongas mais tradicionais no RS.

Unesp, um pedacinho do Rio em SP
A lista da USP não tem muito funk carioca, mas tem MTB – música tchola brasileira

Cabe ressaltar que, em música, tudo o que vem com a pecha “universitário” é ruim, não passa de uma diluição do tradicional aos moldes da grande mídia ou, num termo mais adorniano: da “indústria cultural”. Basicamente pega-se a mesma fórmula, um popzinho bem fraco. Se colocarmos uma dupla de calça justa, cinto com fivela e chapéu de cowboy, está pronto o “sertanejo universitário”; caso usemos um trio, vestindo calça de saco e camisa florida, com zabumba, triângulo e sanfona, usando a mesma fórmula pop “ready-made”, temos o “forró universitário” e assim por diante.

Ainda assim, mesmo estas diluições mercadológicas, por pobres que sejam, ainda têm harmonia, melodia e forma, ainda preservam um cuidado em relação à produção, instrumentação e canto. São músicas feitas por músicos, no fim das contas. A invasão do “funk carioca” (sic) no Zeitgeist universitário brasileiro é um fenômeno bem mais grave, simultaneamente sintoma e causa do empobrecimento cultural e moral da geração “educada” nas últimas duas décadas.

Essa música nefasta, animalesca, simiesca, explicitamente pornográfica e agressiva é o que a elite financeira e intelectual está ouvindo. Serão as referências culturais da formação dos futuros médicos, engenheiros, juízes, professores, políticos (se bem que aí já não mudaria muita coisa). Não se trata de gosto pessoal, mas do empobrecimento e da vilanização do imaginário cultural de um povo.

Uma geração de jovens embrutecidos, alienados, hedonistas, niilistas, entorpecidos pelas drogas e pela promiscuidade é o sonho de todo tirano.


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Tom Martins

Tom Martins é maestro e compositor.

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