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Babá Gyulchekhra Bobokulova

Uma notícia que se assemelha a uma espécie de filme de terror surrealista, mistura de Mário Bava com Luis Buñuel, saiu no G1, o portal da Globo, nesta segunda-feira: Babá é presa na Rússia após matar menina e passear com cabeça.

Notícias sobre lugares distantes como a Rússia quase sempre recendem ao boato. Todavia, a notícia foi extremamente noticiada no mundo todo, como DailyMail, BBC, The Mirror, o israelense Shoebat ou o pesado Heavy, que até mostrou o vídeo da babá.

Na leitura do portal da Globo, lemos sobre como a mulher estava, segundo as autoridades russas. Que a mulher tem 39 anos. Que o assassinato aconteceu com a babá se aproveitando de que os pais da menina estavam fora. De que a babá, posteriormente ao assassinato, botou fogo no apartamento.

Também lemos que a detenção da mulher aconteceu na estação de metrô “Oktiabrskoye Pole”, no norte da capital. Que a mulher ainda segurava a cabeça da “menor” (da criança).

Lemos ainda que “[s]egundo uma porta-voz do comitê de instrução russo, Yulia Ivanova, citada pela agência digital ‘RBK’, a detida era babá da criança e é cidadã de um país da Ásia Central”.

Lemos a seguir que “[o]s investigadores disseram que, quando os pais da criança saíram de casa com o filho mais velho, a babá assassinou a menina, ateou fogo no apartamento e saiu da casa” levando consigo a cabeça da vítima”.

Mas fora saber um cabedal de informações praticamente irrelevantes para um crime tão brutal (ao menos, para quem não conhece o metrô de Moscou ou os investigadores de polícia citados), não há nada sobre o conteúdo de tal crime, apenas a forma.

Ou seja, onde foi feito, onde prenderam a assassina, qual a cor de sua roupa, qual sua idade, em que hora do dia esta barbaridade ocorreu. Algo sobre o conteúdo, como a motivação do crime, a razão de tal brutalidade, o que faria com que uma imigrante na Rússia chegasse a decapitar uma criança – nada disso está no desenvolvimento da reportagem.

Um conto russo do começo do século vem bem a calhar para explicar estes fatos e reportagens. Numa assembléia após a Revolução de 1905, Kerensky está a discursar sobre as glórias da derrubada do tsarismo, de como o mundo verá a glória de um regime finalmente gerido pelos trabalhadores. Aplausos entusiasmados da platéia a cada nova palavra de ordem. O tom vai se exaltando, de orador e platéia, a cada nova abstração, a cada nova descrição de como será o futuro.

Mas Kerensky pede um pouco de calma para o presente. Muxoxos são ouvidos. Com uma pausa, lembra que há muito a ser feito. Que é preciso ter coragem e esperança, mas que o caminho ainda é muito longo. A agitação da platéia não parece mais estar em consonância com o ânimo do orador. Kerensky lembra do ideal socialista de homens duros e trabalhadores vorazes, que fazem sacrifícios ainda maiores e têm ainda menos bens materiais em nome da causa coletiva. As vaias se tornam tão ensurdecedoras que Kerensky é forçado a abandonar o púlpito sem conseguir concluir o seu discurso ou dar uma desculpa final.

E eis que no meio da liderança, aproxima-se alguém do púlpito. A multidão vai se aquietando conforme percebe o que acontece. É ninguém menos do que Leon Trotsky. E, com um sorriso, ele ganha um silêncio obediente da platéia e inicia: “Camaradas!”

O conto termina aí. Nada mais é preciso ser dito.

No caso da reportagem em questão, toda a brutalidade sem resposta, todo o destaque para tantos detalhes irrelevantes, só parece ter escondido uma única palavra para dar um novo sentido a tudo o que foi lido.

No último parágrafo, ao fim da reportagem, é que lemos: “Mais tarde, por volta das 11h25 local, a polícia fechou a estação de metrô ‘Oktiabrskoye Pole’ depois que uma mulher vestida de preto e usando um véu apareceu com uma cabeça na mão gritando ‘Allahu Akbar’ (Alá é grande).”

“Allahu Akbar”, na verdade, significa “O [meu] Deus é melhor [do que o seu]”.

“Camaradas!”, disse Trotsky.

victim mother Ekaterina

Ekaterina, mãe da vítima

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