Os atentados de Nice encerram um enredo trágico iniciado há 227 anos. Neste 14 de julho, o islamo-jacobinismo exibiu a sua obra macabra.

No prefácio à segunda edição de As Religiões Políticas, Eric Voegelin propõe a seguinte reflexão sobre o problema do nacional-socialismo, que me parece crucial para lidarmos também com o islamismo contemporâneo:

“Deixemos de lado os aspectos legais e éticos da questão e nos concentremos por um momento no elemento religioso. Uma consideração do nacional-socialismo de um ponto-de-vista religioso deve começar com o pressuposto de que há mal no mundo; e não apenas como um modo deficiente de ser, como um negativum, mas como substância e força genuínas a serem combatidas. Mas aqui nós tocamos em questões maniqueístas e, em geral, um representante da igreja organizada preferirá deixar a sua igreja e o mundo todo serem destruídos pelo mal do que queimar seu dedo num problema de dogma. Nesse temor de desfazer-se do dogma, [uma ação] que deve ser motivada por uma experiência genuína do mal, eu vejo um dos motivos da de resto perturbadora falta de resistência espiritual por parte dos círculos eclesiásticos em face do nacional-socialismo (…) Se se pudesse compreender o insight sobre a existência de uma substância que não é apenas moralmente má, mas também religiosamente má e satânica, seguir-se-ia um segundo insight, qual seja o de que ela só pode ser enfrentada por uma força religiosa benigna igualmente forte. Não se pode combater uma força satânica com moralidade e humanidade apenas” (grifos meus).

Há exatos 227 anos, os jacobinos deram início a um projeto radical de descristianização da França e, com ela, do Ocidente. Hoje, com os atentados em Nice, os revolucionários islâmicos colhem os frutos da árvore jacobina e se esforçam para terminar o serviço.

Como afirmou John Gray em Black Mass: Apocalyptic Religion and the Death of Utopia, “Os jacobinos foram os primeiros a conceber o terror como um instrumento de aperfeiçoamento da humanidade (…) O Islã radical pode ser mais bem descrito como islamo-jacobinismo“.

Islamo-jacobinismo é o conceito de que precisamos para entender este dia terrível. Como num enredo trágico, o 14 de julho de 2016 em Nice fecha um ciclo histórico marcado por uma concepção escatológica da política, segundo a qual o terror figura como pastiche do apocalipse, uma tentativa de destruir para purificar. Os jacobinos inventaram o terror que ‘purifica’. Hoje é o dia deles: o dia internacional do terror. Era natural que os terroristas islâmicos – os jacobinos reencarnados – quisessem “celebrar” a data ali, em sua terra natal, onde tudo começou. Ao contrário do que costuma crer o senso comum, também eles são filhos das luzes do século XVIII, não de pretensas ‘trevas medievais’.

Tanto em 14 de julho de 1789, quanto neste 14 de julho, o que se revelou diante de nossos olhos foram episódios de uma guerra religiosa. Ou, melhor dizendo, de uma guerra movida, em épocas distintas, por duas religiões políticas (a religião civil rousseauniana e o islamismo, religião política quase que por definição*) contra o Cristianismo, a única religião a ter como princípio constitutivo a separação entre as coisas do espírito e as coisas da carne, entre o que cabe a Deus e o que cabe a César. (Recomendo, para quem quiser se aprofundar no assunto, um artigo que escrevi para o meu blog O Brasil e o Universo).

Voegelin tem razão. O Ocidente sem Cristianismo não é nada! Na ausência de seu fundamento espiritual, ele não passa de um arranjo provisório, instável, mera vastidão sem alma, pronta a ser ocupada pela religião política de ocasião. O que estamos presenciando, de novo, e desta feita talvez de forma derradeira, é uma total falta de resistência espiritual, para falar como o filósofo. Queremos combater uma força satânica com moralidade pública e humanismo apenas. Pior, com moralismo político e afetação de superioridade civilizacional.

“Não podemos nos igualar aos bárbaros” – dizem os sábios em seus estúdios de cristal, disfarçando a covardia sob a máscara da magnanimidade. Não querem lidar com o mal. Não querem sujar as mãos na realidade impura. São gnósticos, crentes que o mal será superado mediante a aquisição de um conhecimento esotérico e elitista. Esperam parir o bem que em si supõem conter. Dispensam a graça divina, chegando a mover-lhe troça. Mas cultuam artificialidades. Cantam da mais alta torre e, por delicadeza, como versou Rimbaud, perderão a vida…

Notas:

* Como explica V. S. Naipaul: “O Islam não é apenas uma questão de consciência ou de fé privada. Ele faz demandas imperiais”.

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  • Álvaro Dorneles

    Texto muito bom! parabéns….bem elucidativo

  • philip haag

    baita pequeno artigo!

    presumo que na expressão “os terroristas islâmicos – os jacobinos reencarnados” você esteja usando uma figura de linguagem, mas não é de se duvidar que na fria realidade seja algo por aí mesmo,,,

    • Flávio Gordon

      Sim, você tem toda a razão, Philip. É uma figura de linguagem. A relação entre jacobinismo e terrorismo islâmico é indireta e complexa, e passa necessariamente pelo conceito de religião política e por toda a literatura que têm utilizado uma fenomenologia religiosa aplicada à compreensão de fenômenos políticos. É claro que, se se pudesse perguntar a jacobinos e islâmicos o que pensam um do outro, eles certamente se veriam como anátemas. Mas o que importa compreender é que, apesar de se declararem contra toda religião, os jacobinos instituíram uma religião política (ou civil, como quis expressamente Rousseau); por outro lado, apesar de gostar de se assumirem como bastiões da tradição religiosa do Islam, os jihadistas contemporâneos são herdeiros da mentalidade revolucionária ocidental, que teve no jacobinismo o seu marco inicial. O islamismo é, hoje, um híbrido de exegese corânica tradicional e mentalidade revolucionária típica do Ocidente.

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