Marcelo Rubens Paiva criticou o Escola Sem Partido porque conservadores querem "manter tudo como está". Mas ele que quer manter tudo assim.

Marcelo Rubens Paiva quer conservar o mundo exatamente como está hoje. Com todas as injustiças, com todas as coisas erradas. Qualquer mudança para Marcelo Rubens Paiva é pecado, blasfêmia, tabu. Seu mundo perfeito é essa porcaria ao nosso redor.

Marcelo Rubens Paiva faz parte da escumalha de intelectuais que devem tudo à monarquia: não fosse seu sobrenome, ninguém saberia de sua existência. Graças a seu sangue e sua nobreza perante os salões nobres da alta burguesia paulistana, Marcelo Rubens Paiva é convidado a palpitar sobre assuntos em jornais.

Alguns crêem que tal fama se deu devido a seu livro autobiográfico Feliz Ano Velho, que narra o acidente que o deixou paraplégico. Diz-se à boca miúda que o livro foi revisado a ponto de ser inteiramente reescrito por ninguém menos do que Caio Fernando Abreu – maior prova de analfabetismo integral é impossível. A ler os pensamentos de Marcelo Rubens Paiva, fica-se fortemente tentado a acreditar no boato.

Marcelo, o intelectual filho de Rubens Paiva, escreveu no Estadão sobre o projeto Escola Sem Partido (votação neste link). Não que Marcelo Rubens Paiva, do alto de seu sobrenome, se preocupe em ler sobre o projeto de lei: basta ler o nome e, ignorando a lição suprema de Ferdinand de Saussure sobre a língua, tentar extrair do nome o significado: parece que é um projeto que quer excluir partidos, então deve ser algo mussolinista. E pronto: não é preciso nada muito além disso para ser brilhante como o líder de uma turbamulta de “meio intelectuais, meio de esquerda” do país.

Para Marcelo Rubens Paiva, o projeto é ruim pois quer também uma visão conservadora no ensino brasileiro – e, para quem tem preguiça de digitar “Conservadorismo” no Google, ir para no verbete da Wikipedia e ler por 5 minutos antes de ligar a metralhadora giratória de palpitaria, o “conservador quer conservar o mundo como está”. E o mundo é injusto. É feio. É chato. Tem funk carioca. Tem desigualdade. Tem gente panaca e alienada. Tem coisa ruim.

E tem coluna do Marcelo Rubens Paiva.

Quem iria querer conservar um mundo desses, com uma ideologia oca, cujo único propósito é conservar tudo parado no tempo, brega e retrógrado como tudo está?

A resposta é simples: Marcelo Rubens Paiva. Afinal, apesar de sua sapiência estupenda para tentar adivinhar o que pensa um conservador (como se o conservador G. K. Chesterton quisesse conservar o mundo ao escrever um livro com título como O que há de errado com o mundo, para ficar num exemplo acessível a Rubens Paiva), é justamente o pensamento do colunista do Estadão que quer tudo parado no tempo.

Seu artigo, aliás, é de um medo de mudança faniquiteiro: “O professor de história tem que ser de esquerda. E barbudo. Tem que contestar os regimes, o sistema, sugerir o novo, o diferente.”

O novo, o diferente? Em 2016, isto significar votar em Donald Trump, parar com essa macaqueação de “o socialismo não deu certo, mas agora vai dar“, ler coisas diferentes do que o seu bisavô leu sobre economia (não significa ler Piketty, significa ler Mises, Hayek e Huerta de Soto), significa parar de gostar do que o seu pai (incluindo o seu pai, Rubens Paiva!) gostava, significa trocar de ares e explicações repetidas por algo mais sólido.

Professor é atacado em sala de aula por aluno socialista na UnicampApesar dessa pregação, o que Marcelo Rubens Paiva quer é exatamente manter o mundo igual, reprise, vale a pena ver de novo. Quer o professor de História avoado, de sandália, barba, pochete, que entre na sala e diga: “O capitalismo é ruim, crianças, precisamos estudar Lenin e Trotsky!”. O professor pereba que acha que a riqueza de João é causada pela pobreza de Pedro. O professor que fale que os “estadunidenses” são “imperialistas” sem nunca apontar uma jarda do território americano que aumentou com tal política “imperialista”. O professor que use a expressão “neoliberal” para igualar FHC, Margaret Thatcher, José Serra, Ronald Reagan, George Bush, Michel Temer, Roberto Marinho, Edir Macedo e usualmente Pinochet e Adolf Hitler sob os mesmos auspícios.

O professor do pai de Marcelo Rubens Paiva. Isso que é “novo” para Rubens Paiva. Aquela turma do PSTU brigando com a do PCB e do PCdoB: os trotskystas contra os stalinistas e os maoístas. Os caras em dois mil e fodendo dezesseis ainda discutindo como vão conduzir a Revolução Russa de 1917. Isso é “o diferente”. Até o avô de Marcelo Rubens Paiva já deveria estar barbudo quando isso tudo aconteceu. A mesma ladainha, sans cesse.

Pensar fora dessa caixinha? Oh, não: seria “conservar o mundo como está”. Ninguém avisou o Marcelo Rubens Paiva de que ele está – como falar a verdade em tempos de politicamente correto? – meio velho? Que toda essa papagaiada aí o avô dele já disse, o pai dele já disse, ele já disse com a barba branca, o filho dele já disse e, pelas barbas do profeta armado, desarmado e exilado, ninguém mais agüenta essa cantilena e quer estudar alguma coisa, ehrrnova e diferente?

Que o discursinho de “contra tudo o que está aí” do Marcelo Rubens Paiva funcionava na época da ditadura – que já acabou há mais tempo do que durou – e que quem “está aí”, há praticamente meio século, é a própria turma do próprio Rubens Paiva?!

Que ele dizer que é “crítico” e advogar que quer “criar reflexões, comparações, provar contradições. Provocar.” no Estadão afirmando que é de esquerda, ao invés de criar reflexões, comparações e provar contradições (provar contradições?! Será que o professor de Português desse cara era tão bom assim?!) só instiga bocejos e mais do mesmo?

Professor Raimundo - E o salário, ó!A coragem intelectual profunda que ele crê que possui só existiria se ele afirmasse: “Olha, imperialismo não explica porcaria nenhuma do patrimonialismo brasileiro e menos ainda do mensalão, a propaganda anti-colonialismo britânico era só balela para aqueles fanáticos liderados por Amin al-Husseini matarem judeus com retórica de ‘nacionalismo palestino’ a se tornarem soldados muçulmanos de Adolf Hitler, quem realmente matou índio no Brasil não foram portugueses, eram índios de outras tribos que, vejam vocês, se odiavam, eram canibais e viviam em guerra (se não fosse assim, que graça teria I-Juca Pirama e as ‘tribos guerreiras’?!), só nós é que chamamos tudo de ‘índio’ como se fossem amantes da floresta em perfeita harmonia, o exército americano torra uma fortuna do pagador de impostos daquele país tão somente para lutar contra ditadores malucos e genocidas e a única coisa que pede em troca é um mundo mais seguro e, a propósito, vocês sabem o que é Gulag, Holodomor, KGB, Lubyanka e o genocídio de 150 milhões de pessoas sob o socialismo ou será um tema para a próxima aula?”

Isto sim é “criar reflexões, comparações”, “provocar” e aquilo que Marcelo Rubens Paiva julga que está fazendo, querendo mais um professor cantando Imagine e dizendo que a solução para o pobre é comunismo (essa idéia tão nova, tão diferente! como ninguém na humanidade pensou nisso antes de hoje?!).

Será que isso o Estadão publicaria? Será que Marcelo Rubens Paiva não percebe que vive de criticar o establishment, mas ele é que faz parte do statu quo há décadas?

Eric Hoffer já notou que a característica dos fanáticos é que eles imitam, crendo estarem criando algo novo. Imitar, na verdade, é a forma mais perfeita de obedecer.

O que Marcelo Rubens Paiva faz ao criticar o Escola Sem Partido não é contestar: é seguir a moda. Uma bóia na correnteza, à deriva, jogada para lá e para cá conforme as ondas. Um modista. Com medo de a onda atirá-lo no mar. É com âncoras sólidas e pensamentos profundos que se navega para mais longe.

O pior para pessoas que pensam como Marcelo Rubens Paiva – com sentimentalismos, com definições tiradas da caçoleta, com espírito bovino, com heroísmo de mensaleiro – é que eles só provam a urgência de um projeto como o Escola Sem Partido.

Ao invés de um adicional, a pedagogia de Marcelo Rubens Paiva baseia-se em restringir. Em proibir conhecimentos. Para ele, de Sócrates, devemos pular para Kant (!). Na primeira versão do seu texto, transbordando erudição, chamou o famoso sociólogo alemão de “Marx Webber” (sic), num ato falho que chamou mais atenção que seu texto inteiro. Tudo precisa de “leitura da luta de classes, uma visão de esquerda”. Não visões. Não pluralidade. Não dialética e conflito. Não objetividade e busca da realidade. Apenas aquilo que “a visão de esquerda” e a gaiola conceitual da “luta de classes” permitam. Nada de Escola Sem Partido: Escola do Partidão.

Marcelo Rubens Paiva e os críticos do Escola Sem Partido querem a Escola de Partido Único. Sem perceber, o colunista do Estadão mostra que quer mesmo um exército de marxistinhas que nunca leram patavina na vida além de Marx. E “Marx Webber”.

Estudantes no filme "The Wall"Se Rubens Paiva afirma que a missão do professor é “[e]spalhar as cartas de diferentes naipes ideológicos. Buscar pontos de vista”, como pode ser contra o Escola Sem Partido, um projeto que busca, justamente, espalhar as cartas de diferentes naipes ideológicos, ao invés de um só? Que busca pontos de vida no plural, ao invés da hegemonia de um único ponto de vista singular?

É a diminuição, a chatíssima e cacete repetição e a temível obediência cega que serão vítimas de uma Escola Sem Partido. É a pluralidade, a diversidade de pontos de vista e a crítica que ganharão. Um Partido é obediência, e a doutrinação acusada pelo projeto é justamente seguir esta hegemonia de pensamento único. O rebanhismo absolutista, do qual Rubens Paiva, que acha que revolucionário é professor sentar em cima da mesa, é parte a mais representativa.

A levar Marcelo Rubens Paiva a sério, “revolucionário” é deixar o mundo do mesmo jeito em que está, intocado, inclusive com as mesmas velhas explicações mofadas sobre tudo. E acreditar que “conservador” é um cara mau, que quer exatamente o que ele faz.

Ou teremos o Escola Sem Partido ou, para fugirmos da lengalenga de “luta de classes” e marxismo o mais xarope (nem para fingir ser discípulo de Bobbio ou Dworkin, seu Rubens Paiva!), só conseguiremos ler livros escondido de nossos professores, como quem vai comprar cigarro escondido na hora do recreio.

E é Marcelo Rubens Paiva e a turma anti-Escola Sem Partido que se acha “contestadora”!

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  • João Marcos

    Beleza, então como o território americano aumentou? Explica aí pra gente, sem negar que existiram muitas Indian Wars até o final da expansão americana. Essas guerras não existiram apenas porque índios malvados e bárbaros atacaram as isolacionistas 13 colônias e os colonos, coitados, tiveram de reagir proporcionalmente, conquistando meio continente.

    PS: sim, é evidente que o governo central não tomou a dianteira em muitas expansões, mas, ao fim e ao cabo, todo território conquistado (e não ‘ocupado’) acabou nas mãos de quem? Dos mórmons? Não. Do estado americano.

    E pagar por territórios conquistados DEPOIS que foram anexados não muda o significado de conquista. É o mesmo que um ladrão roubar teu carro e depois ‘pagar’ por ele. Por acaso isso foi uma transação voluntária? Você teve a opção de escolher não “vender” sua terra? Então não é “compra”, é anexação, conquista, desapropriação.

  • Thiago Penzin

    Ô pessoal!!! Vamos votar a favor do projeto no link… A patota da patrulha esquerdalha está votando duas vezes, Ajudem lá!

  • mah

    Mais um texto espetacular, Flavio.

  • João Marcos

    “sem nunca apontar uma jarda do território americano que aumentou com tal política “imperialista” ”

    Flávio, me parece que massacrar os índios e conquistar 70-90% do território nacional às custas dos índios e mexicanos é um pouco imperialista sim. O mundo é injusto, e sempre os mais fortes conquistaram mais terras. Sem drama. Só penso que não é preciso “justificar” todas as ações erradas de pessoas ou governos.

  • Francisco José

    Interessante. Mas… Cara, seja lá o que foi que esse tal Marcelo Rubens Paiva (MRP) tenha feito a você, pega o telefone, o celular, o e-mail ou então, vai na casa dele e descarrega mano. Diretamente na cara. Lendo sobre o ESCOLA SEM PARTIDO encontrei seu site. Eu geralmente não dou crédito a discursos ou textos em que eu perceba ataques a pessoa e não às ideias. Sejam elas quem for. Você classificou o MRP de escumalha, de zero à esquerda que não é dono nem do seu próprio nome, analfabeto… enfim. Eu entendi. Você citou o MRP mais de 20 vezes durante o seu texto que levei pouco mais de cinco minutos para ler. Continuei a leitura porque percebi a sua intenção, mas quase parei no terceiro parágrafo.

    • Paulo R Ongaro

      Ataques à pessoa? Sugiro que leia novamente o artigo. Sem nenhum ranço.

    • Vladimir Vale

      Tá com dó? Leva pra casa… MRP é um bosta mesmo.

    • Rafael Alves

      Sério que não viu críticas ao pensamento perpetrado pelo Marcelo Rubens Paiva? Acredita fielmente que ele usou da falácia ad hominem? Tira as lentes vermelhas da próxima vez e leia novamente.

    • Helber Lessa

      Respeitar um imbecil público é manter um crédito que ele não merece.
      Não pense que a história avança conforme se prova em debate que um lado está certo e o outro não…Não basta dizer a verdade, é preciso convencer.

    • marcos olivieira

      se logo percebeu que não ia entender nada porque leu o artigo? para contar quantas vezes o MRP foi citado?

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