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Poucos entendem o complexo modelo de eleições inglesas. Entenda o que pode acontecer com Theresa May, Jeremy Corbyn e o próprio Brexit.

Hoje realizam-se eleições gerais no Reino Unido, conclamadas pela Primeira Ministra, Theresa May, do Partido Tory (Conservador). O sistema parlamentar da monarquia constitucional inglesa confunde o restante do mundo, sobretudo aqueles acostumados com o presidencialismo, então cabe um Guia compacto para entender o que se passa nas urnas que podem decidir o destino do Brexit, de Theresa May ou do líder de extrema-esquerda Jeremy Corby.

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Por que as eleições foram antecipadas e o que está em jogo?

No dia 18 de abril deste ano, a Primeira Ministra Theresa May surpreendeu a todos ao convocar uma eleição para o dia 8 de junho de 2017, isto é, para o dia de hoje. A principal motivação da chefe do governo britânico e líder do Partido Conservador, segundo ela própria, é a de buscar no eleitorado o apoio de que ela precisa para legitimar, simbolicamente, o seu mandato, fortalecer a sua posição e ampliar seu poder de barganha perante a União Européia, durante as negociações sobre as condições da realização do Brexit, a saída efetiva do bloco europeu por parte do Reino Unido.

Na ocasião em que o anúncio foi feito, todas as pesquisas davam uma vantagem de 20 pontos percentuais para o Partido Conservador e mostravam uma aprovação substantiva da atuação da Primeira Ministra. Uma vantagem nessa escala é um tanto rara na política britânica atual e a liderança do Partido Conservador, encabeça por May, viu nisso a oportunidade ideal para diminuir a possibilidade de que o Parlamento viesse a bloquear os termos do acordo quando ela retornasse de Bruxelas.

A finalidade, portanto, é a de melhorar o que Robert D. Putnam, criador da teoria do “jogo de dois níveis”, chamava de conjunto de vitórias, isto é, as diferentes combinações aceitáveis no âmbito doméstico para um acordo realizado no âmbito internacional. O apoio e a flexibilidade que se tem no âmbito doméstico é indispensável para negociar desde uma posição de força, e com um grande poder de barganha, no âmbito internacional. Do mesmo modo, o apoio e a flexibilidade que se tem no âmbito doméstico é proporcional à probabilidade de que o acordo seja concluído com sucesso e de que a distribuição dos ganhos seja percebida de modo positivo. Em outras palavras, Theresa May busca maior estabilidade e força para negociar com os globalistas de Bruxelas.

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O que dizem as pesquisas?

Inicialmente, a maioria dos institutos de pesquisa previam uma vitória arrasodora para o Partido Conservador e indicavam que a decisão de Theresa May poderia ser recompensada com uma expansão de mais de 120 novo assentos na câmara baixa do Parlamento Britânico. No entanto, a vantagem que chegou a ser de 20 pontos percentuais caiu gradativamente, até atingir a casa de 6% na média e, em alguns casos, como nas pesquisas do YouGov, se converter numa desvantagem perante o Partido Trabalhista. Isso se explica em partes pela campanha apática do Partido Conservador, que iniciou a disputa num clima de “já ganhamos” e pela campanha eficiente do Partido Trabalhista, que conseguiu atrair os eleitores mais jovens e explorar os erros e contradições de Theresa May, bem como sua incapacidade de garantir a segurança do cidadão britânico contra os sucessivos, e cada vez mais frequentes, atentados terroristas realizados no território do Reino Unido.

Apesar disso, é necessário lembrar que as pesquisas eleitorais do Reino Unido se revelaram grosseiramente erradas nas eleições de 2015 e, mais ainda, no referendo sobre a saída do Reino Unido da União Européia. Isso significa que devemos ter cautela com as pesquisas e com a narrativa da grande mídia sobre os reviravoltas das eleições britânicas e que não devemos esperar nenhuma vitória arrasadora por parte dos trabalhistas, ainda que exista chances reais de que os conservadores saiam da disputa com menos assentos.

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Quais são os cenários possíveis?

Para quem trabalha com análises que se baseiam apenas em pesquisas realizadas por grandes institutos, a queda na vantagem do Partido Conservador e a aparição de pesquisas que indicam a vitória do Partido Trabalhista amplia, significativamente, o número de resultados e cenários possíveis após a eleição. Como dito acima, na média, a vantagem do Partido Conservador agora está na casa dos 6%, e pesquisas recentes revelam uma margem de vantagem ainda menor. Isso tem colocado muitos analistas em estado de alerta e incerteza, já que, quando esses números são comparados com as margens históricas de erro, alguns precedentes problemáticos são encontrados: é o caso do erro de 6.3 pontos percentuais apresentado pela maioria das pesquisas em 2001, quando os institutos superestimaram a vantagem do Partido Trabalhista. Caso esse erro se repita, ele é mais do que suficiente para suplantar a vantagem de 6 pontos percentuais do Partido Conservador e dar uma vitória, sem maioria, para o Partido Trabalhista.

A preocupação desses analistas é agravada por um fator gerado pela tendência história, observada desde 1992 na maioria das pesquisas, de subestimar a proporção do voto conservador numa média de 2.2 pontos percentuais. Por se tratar de uma tendência constante, que se repete em todas as eleições, a maioria das pesquisas deste ano apresentam tentativas de tentar corrigir esse problema de amostragem alterando o resultado para contabilizar esses pontos em benefício do Partido Conservador. Essa tentativa de corrigir artificialmente o resultado, em vez de buscar a construção de amostra mais precisas, significa que as pesquisas deste ano podem estar superestimando o voto conservador e dando uma vantagem inexistente para os conservadores.

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Cenários

O Deutsche Bank enviou aos seus clientes um relatório explicando quais seriam as possíveis reações em três cenários distintos. Apresentamos abaixo um breve resumo deste relatório.

Primeiro Cenário: Neste cenário, a Primeira Ministra Theresa May e o Partido Conservador conquistariam ampla maioria (mais de cinquenta assentos de vantagem), o que abriria o caminho para um processo de saída da União Européia mais estável, enfraquecendo os membros do partido que ainda são contrários à saída. Ela também sairia desse resultado com melhores condições para implementar reformas domésticas e com a capacidade de realizar um acordo de transição com a União Européia, uma vez que as próximas eleições só ocorreriam em maio de 2022.

Segundo o Deutsche Bank, o mercado experimentaria uma valorização inicial da libra esterlina. No entanto, com a valorização experimentada desde a convocação das eleições, esse cenário parece satisfatoriamente precificado, o que limitaria o movimento de crescimento e poderia levar a um efeito “compre o rumor e venda o fato”.

Segundo Cenário: Neste cenário, o Partido Conservador venceria com uma maioria estreita (algo entr 5 e 10 assentos) ou sem nenhum ganho significativo em relação à sua posição atual. Aqui poderíamos testemunhar a fragilização do governo, que se tornaria mais instável e menos coeso, enfraquecendo, por sua vez, a posição da Theresa May perante algumas alas do partido e aumentando os riscos de que um acordo com a União Européia se torne inalcançável. Os riscos relativos a esse cenário apontam claramente para uma evolução desfavorável, de modo que a libra esterlina sofreria uma forte pressão de vendas o Tesouro do Reino Unido experimentaria uma queda, já que muitos acreditam que as incertezas geradas por um cenário em que o Brexit pudesse não ocorrer em termos favoráveis tornaria o investimento mais arriscado.

Terceiro Cenário: Neste cenário, o Partido Trabalhista venceria e, através da formação de uma coalização com os Liberais Democratas e o Partido Nacional da Escócia, formaria uma maioria. Esse resultado complicaria significativamente as negociações do Brexit e poderia acarretar numa versão intermediária e mais branda da saída do bloco europeu ou mesmo a um cancelamento da saída. Aqui, tanto o valor da libra esterlina quanto o mercado de ações britânico experimentariam um declínio significativo, causado não apenas pelas incertezas sobre o Brexit mas também pela probabilidade de que os trabalhistas cumpram sua promessa de adotar uma política econômica fiscalmente irresponsável e de nacionalizar as empresas de eletricidade britânicas.

Previsões

Ao contrário do que as pesquisas têm sugerido, por erros parecidos com o cometido pelos institutos americanos em 2016, nossa previsão é de que, a menos que os trabalhistas tirem da manga um milagre em termos de voto tático (o que é improvável, mas não impossível, já que a campanha de Jeremy Corbyn realizou um esforço considerável nesse sentido), os conservadores conquistarão a maioria dos assentos e possivelmente até expandirão o seu domínio do Parlamento, dando à Theresa May a desejada legitimidade das urnas que ela precisa para ampliar seu poder de barganha perante a União Européia. No cenário, menos provável, em que essa expansão não venha a se concretizar, a situação se revelará significantemente mais conturbada, levando a cenários em que o Partido Conservador terá que buscar um novo líder, terá que compor alianças com partidos pequenos ou mesmo se submeter ao desgastes de uma nova disputa eleitoral.

Horários e desdobramentos

As urnas foram abertas, hoje, às 7h e serão fechadas às 22h (horário de Londres). Assim que as urnas forem fechas, a BBC e a Sky News divulgarão pesquisas de boca de urna feitas pela Ipsos Mori, trazendo os primeiros resultados. Essas pesquisas deverão apresentar uma projeção do número de assentos conquistado por cada partido, dando uma visão geral do resultado, que só será divulgado ao longo da madrugada. Historicamente, essa projeção tem sido bastante precisa, com uma margem de erro de 15 assentos. Em uma eleição mais acirrada, entretanto, essa margem pode ser suficiente para prolongar a incerteza por um tempo maior.

Se algum dos partidos alcançar a maioria dos assentos, o líder do partido vencedor fará seu discurso de vitória tão logo o líder dos demais partidos reconheçam sua derrota. Tradicionalmente, esses discursos ocorrem ao longo da madrugada e são concluídos com o discurso do vencedor por volta das 6h.

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  • Fernão Rosas

    Theresa May fez exatamente o que deveria fazer: Convocou eleições e não fez nada para ganhar, jogou propositadamente de salto alto, foi um jogo de cartas marcadas. Assim como aqui, não existem uma verdadeira direita/conservadora no UK e May fez seu papel de legitimar as reivindicações globalistas jogando com a maior arma do Globalismo – O Voto – afinal tem que ser “democrático”.

    O uso do termo “Democracia” e a apropriação do “Sistema Democrático” foi a maior vitória dos Globalistas no século XX após também vencerem a Guerra da Linguagem.
    Essa é mais uma lição para nós.

  • VerGiL

    Theresa May = Macron = Doria = left-wing
    Nigel Farage = M. Le Pen = Bolsonaro = right-wing

  • Fabio MS

    Felipe,
    O UKIP pode interferir de alguma forma nesses cenários?

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