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Militares vs anti-establishment: onde está o poder?

O poder não está no cargo. Na verdade, o cargo muitas vezes limita o raio de ação à medida que o indivíduo passa a não mais responder apenas por si, mas também por uma estrutura maior do que ele. Quem deseja assumir um cargo público deve ter isto em mente, mas parece que boa parte do Governo Bolsonaro anda confundindo as coisas

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O poder não está no cargo. Na verdade, o cargo muitas vezes limita o raio de ação à medida que o indivíduo passa a não mais responder apenas por si, mas também por uma estrutura maior do que ele. É o caso de um ministro do governo federal, que precisa responder ao seu superior e aos seus pares, que necessita medir cada palavra falada e lidar com um emaranhado de burocracias que lhe agarram os calcanhares e dificultam todos os seus passos. Quem deseja assumir um cargo público deve ter isto em mente, mas parece que boa parte do Governo Bolsonaro anda confundindo as coisas.

De um lado, muitos dos que vieram dos movimentos de rua entraram na estrutura governamental com a ilusão de que as coisas poderiam ser modificadas rapidamente e levando em consideração apenas o mérito das questões, deixando de lado o enfrentamento através da burocracia e da política. O problema é que existem certas coisas impossíveis de serem resolvidas em uma estrutura governamental e as que são possíveis precisam ser realizadas incluindo na conta os grupos de interesse e as forças políticas que vigiam e tentam interferir em cada ação tomada dentro de um ministério.

O exemplo mais evidente desta falta de noção sobre a natureza das atividades governamentais foi protagonizado pelo ex-ministro da educação, Ricardo Vélez. Reconhecido e competente na área intelectual, Vélez acabou sendo um desastre completo na administração dos diversos interesses políticos e das diferentes visões de mundo tanto da burocracia já estabelecida dentro do MEC quanto dos funcionários que ele mesmo levou ao governo.

Do outro lado estão os militares de alta patente, alçados pelo presidente Bolsonaro a posições de destaque justificadas mais pela falta de opções viáveis fora do campo político de esquerda do que pela competência comprovada na maioria das áreas em que atuam. O generalato erra na análise “poder real vs cargo” por um motivo diferente da ala “anti-establishment”, erra por achar que o cargo é o máximo de poder possível.

Os generais brasileiros são tacanhos, sujeitos cujo horizonte de consciência foi limitado por influência ideológica (sobretudo positivista) e pela própria estrutura hierárquica militar – que eles tentam replicar em todas as circunstâncias possíveis, como se tudo pudesse ser “disciplinado”. Isso explica quase todas as ações de tipos como Santos Cruz, sujeito que pensa que as insígnias militares lhe conferem não só poder, mas também inteligência superior.

Os militares acham que o máximo de poder possível está nos cargos dentro da burocracia estatal e que eles têm a missão de ocupá-los e de garantir à estrutura governamental o máximo de estabilidade possível. Para isso, devem interferir em todas as pastas do governo e até mesmo “disciplinar” o capitão Jair Bolsonaro, mesmo que ele tenha sido eleito Presidente da República – e esteja de fato numa posição superior hierarquicamente. Para Santos Cruz, Mourão e cia, desrespeitar certas pautas defendidas por Bolsonaro e pelo movimento “anti-establishment” é um dever moral deles – representantes da “ala boa” (não-corrupta) do establishment.

De um lado, os anti-establishment metem os pés pelas mãos e, por desconhecimento da natureza dos cargos públicos, acabam não conseguindo ações efetivas dentro da estrutura burocrática estatal. Do outro lado, o generalato confunde os cargos com o poder real, não enxergando as limitações dos cargos e as limitações intelectuais deles próprios, interferindo negativamente no governo à medida em que tentam impor uma visão de mundo e uma ideologia contrárias à vontade popular e ao projeto eleito nas urnas.

E o poder de fato, onde está? Está lá na Virgínia (EUA), exercido por um senhorzinho às vezes simpático, às vezes explosivo, em frente ao seu computador e munido de um microfone meia-boca. O poder está na força da personalidade, na verdade despretensiosa e crua de um gênio intelectual que não tem cargo algum, mas consegue interferir nos rumos do governo – e em última instância do país – com um simples vídeo ou texto nas redes sociais.

Isso não quer dizer que os cargos públicos não sejam importantes e que não precisem ser ocupados por pessoas capacitadas, com a visão de mundo correta e honestas, mas que eles precisam ser encarados como um meio para exercer um poder real – respaldado nas forças culturais verdadeiras – e não como um fim em si mesmo ou como a única ferramenta capaz de realizar as mudanças que o Brasil precisa.

O poder precisa ser bem utilizado, mas antes ele precisa ser reconhecido.

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