Feministas passariam menos vergonha se fossem coerentes sobre Rachel Sheherazade
Silvio Santos fez uma ironia com a apresentadora Rachel Sheherazade. As redes, bebendo da fonte do feminismo, bóiam num mar de contradição.
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A jornalista Rachel Sheherazade deu um nó na cabeça das feministas. Na década atual, que podemos chamar de década das ideologias, o feminismo foi uma das mais contagiantes, entendido como “defesa dos direitos das mulheres”, geralmente associado à palavra “igualdade”.
Na prática, feministas passam 99% do tempo definindo e redefinindo o que é o tal feminismo, sempre colocando uma contraposição discrepante entre um homem e uma mulher, então generalizada para todos os homens e todas as mulheres, que só pode ser corrigida com uma reforma completa de costumes ou por uma míriade de leis.
Para o feminismo grassar, portanto, a realidade precisa ser reduzida a uma eterna dicotomia, a luta de classes, transformada em luta de gêneros, como motor da história dialética-materialista. Estatísticas salariais, costumes, preferências: tudo se transforma em algo a se “corrigir”. A linguagem, sobretudo, passa a ser tratada quase como uma ciência exata. Não há mais ironia, metáfora, amenizações, hipérboles, figurações, contexto ou mesmo uso e expressões idiomáticas: tudo é uma disputa entre homens e mulheres, e essas precisam de proteção “corrigindo-se” tudo com leis ou revolução desabrida.
É o que faz com que feministas não entendam o caso de Rachel Sheherazade. A âncora do SBT recebeu o troféu imprensa de Silvio Santos, homem que nunca se curvou aos ditames tirânicos do politicamente correto e ainda usa uma linguagem rica, que não consegue ser lida como se fosse dicionarizada. Ao entregar o troféu a uma de suas principais apresentadoras hoje, Silvio Santos fez uma bela ironia: disse que Sheherazade, famosa por seus comentários políticos, não foi contratada para fazer comentários, já que isso deixa políticos corruptos nervosos (e, obviamente, dão uma dor de cabeça desgraçada para o setor jurídico do SBT).
Ironia mais óbvia não pode haver: seria como se Silvio Santos estivesse pedindo para Rachel Sheherazade parar de lhe garantir audiência. Praticamente a mesma ironia foi feita também com o apresentador Danilo Gentili, do The Noite: o comediante que ficou famoso como o maior alvo de processos do país por políticos, e que garante audiência justamente por isso, tomou um “pito” de Silvio Santos, como se Silvio e o SBT estivessem mesmo tristes porque o Departamento Jurídico fica cheio.
Não é algo difícil de entender: Silvio Santos sempre trabalhou mormente com as classes C e D (que ele chamava de “bons pagadores”), e há poucos anos, uma ironia óbvia dessas, feita em tom de brincadeira, seria entendida por toda a população. Rachel Sheherazade está certa em dizer que “há que haver um mínimo de inteligência” para se entender. O problema é que ironia é um dos tabus supremos do feminismo, exatamente por seu reducionismo.
Mas, claro, como as opiniões de Rachel Sheherazade são “de direita”, enquanto a imprensa hegemonicamente é de esquerda, inclusive antigos oásis de tendências mais conservadoras, o feminismo não consegue lidar bem com a piada de Silvio a Sheherazade. Seria machismo? Mas, a um só tempo, não é bom que Sheherazade, que ousa ter opiniões não-esquerdistas, se cale?

Se Rachel Sheherazade se chamasse Cynara Menezes, a manchete seria “Silvio Santos pratica censura machista contra mulher”

“Direito liberal de ser fascista”
Poucos sabem expor os conceitos que estão sendo trabalhados no imaginário coletivo, como “feminismo”, com muita precisão. Mas é esse tipo de contradição ambulante que faz com que, com a maturidade, tanta gente passe da esquerda para a direita, mas nunca faça o caminho contrário.
Ainda mais porque a linguagem, como a de Silvio Santos, é rica por natureza: qualquer pessoa sem formação sabe usar ironias, hipérboles, eufemismos e outras figuras de linguagem com nomes complicados em grego, mas que são comuns a todos os povos. O reducionismo de tentar achar “machismo” em tudo gera tela azul quando a vítima não é feminista: aí vale qualquer torção de pensamento para justificar que Rache Sheherazade que é um monstro (sem nem sequer entender que não houve repreensão, e que Silvio Santos estava elogiando sua empregada).
Rachel Sheherazade ela própria lembrou que quando o professor de Filosofia Paulo Ghiraldelli Jr. disse que desejava que ela fosse estuprada, praticamente nenhuma feminista saiu em sua defesa (exceção possível a Lola Aronovich, que na mesma toada disse que o professor é na verdade um “reaça”, e passou a atacar todos os “reaças”, como a própria Sheherazade, na linha seguinte).
Vira e mexe, algum(a/x) feminista é pego/a/x passando vergonha se contradizendo. Rachel Sheherazade sozinha causa um nó nas sinapses de praticamente todas: o reducionismo só pode gerar contradições, em uma realidade que não se encaixa em esquematismos mentais. Para a sorte do feminismo, são apenas pessoas normais que cobram alguma coerência – a mídia, as universidades, as novelas e as redes sociais são reality-free.
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