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O ator global Fábio Assunção tem destaque por seu problema com as drogas. Mas alguém sabe como é a realidade de viciados não-globais?

Circula pela internet vídeos de um episódio envolvendo o ator da Rede Globo, Fábio Assunção, que teria praticado condutas de desacato e dano, supostamente alterado pelo uso de substâncias que ele informa não serem ilícitas em seu pedido de desculpas.

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No início de junho, o ator também foi notícia em diversos veículos de comunicação, como Folha e Veja, ao criticar a atitude do prefeito de São Paulo, João Dória, que retomou o espaço conhecido como Cracolândia com apoio de força policial e procurou o Judiciário com pedido para internar compulsoriamente os usuários que se encontram espalhados pelo centro da capital paulista.

Segundo os referidos veículos, o ator tentaria mobilizar um grupo de artistas e ativistas para levar as críticas ao prefeito.

Fábio Assunção, que em entrevistas disse ser ex-adicto e narrou os problemas com as drogas, não é o único artista envolvido com o debate sobre as drogas. Alguns deles fazem discurso aberto a favor da legalização de alguns entorpecentes.

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A droga escolhida é quase sempre maconha, pela moda. Não raro são jovens, ou que se sentem jovens apesar dos cabelos brancos, descolados em seus apartamentos nas zonas nobres do Rio de Janeiro ou São Paulo.

Mas o mundo das drogas não é um convescote. Lícita ou ilícita, a esfera dos entorpecentes é a realidade crua prenhe de dor própria e alheia.

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É a desonra, a indignidade de ser reduzido a menos do que suas funções fisiológicas.

Não há glamour, só sofrimento.

Alguns desses artistas usam a fama para propagar suas ideologias. Especialistas sem formação ou conhecimento prático, criticam a Polícia e o Judiciário como entes conservadores, elitistas, racistas e outros atributos que lhes convêm, enquanto focam na imagem humorística, revolucionária, cool e transgressora do usuário de droga, como se todo dependente fosse um playboy a fazer selfies em Nova York ou Paris.

Eventualmente algum deles é flagrado em situação de indignidade, como sói ocorrer com quem usa entorpecentes de qualquer espécie. Surgem, então, os defensores de ocasião da intimidade das figuras públicas, dos que alegam que os flagrados são vítimas e doentes. Mas vítimas de quem?

Numa clara contradição, a intimidade e a vida privada agora invocadas para ocultar os efeitos das escolhas nocivas dessas figuras públicas não foram levadas em consideração quando a pessoa escolheu usar de seu prestígio com a população para advogar o uso de entorpecentes.

Na prática, a teoria de que as drogas são bacanas não funciona. Seja lícita ou ilícita.

Juízes lidam diariamente com os sintomas da criminalidade fomentada pela droga, que afeta toda a população.

As consequências do uso de drogas ilegais não se limita ao tráfico. Existem os crimes orbitais, como furto e roubo para manter o vício ou como consequência da vida escolhida, homicídios pelos mais diversos motivos, receptação, estupro, corrupção de menores. A lista é grande e vai longe.

E quem pensa que a legalização acaba com o problema, está equivocado. Há falsificação e contrabando de cigarros e bebidas. O mais comum de se ouvir de uma testemunha de um júri, onde são julgados os crimes contra a vida, é “a gente tava bebeno e aí…”, assim como nos casos envolvendo violência contra a mulher ou no recesso do lar.

Em audiência são ouvidos os réus, os mais pobres não passam de farrapos humanos. Alguns, com a fala permanentemente arrastada na caricatura que imputam aos “maconheiros” nem entendem direito as perguntas, com o cérebro corroído pelo uso de entorpecentes. As vítimas às vezes são encontradas e ouvidas, não raro mais humildes que seus algozes. Com medo, sempre muito medo, porque sabem que o estado não pode protegê-las. Nos júris, o comum é a cadeira da vítima vazia, impossibilitada de comparecer por sete palmos de terra que a impedem, e com alguma “sorte” estarão lá presentes seus familiares.

Talvez quando apareçam bem arrumados, penteados e maquiados para defender sua ideologia libertária, esses artistas e intelectuais de ocasião, especialistas sem especialidade, desconheçam a romaria de mãe, de vó, de esposa nos presídios e nos gabinetes pedindo pelo réu.

Raro, raríssimo, é que apareça a vítima ou os seus parentes no gabinete dos juízes. Em mais de seis anos, somente uma vez aconteceu comigo. A lei, para eles, é algo mais abstrato que entender a Santíssima Trindade. Não possuem nenhuma ONG de apoio, pastoral, comissão de direitos humanos estatal ou da OAB, ou qualquer organismo, associação ou ente estatal que lhes resguarde.

Afinal, a vítima e seus parentes são sempre estatística. Algumas vezes o seu sangue, lágrimas e ossos  serão o palco onde o réu há de brilhar, considerando a fama que alguns criminosos atingem, sendo homenageados com livros, séries televisivas e filmes.

A ninguém interessa fazer uma obra artística sobre a vida ordinária do José ou da Maria, que acorda às quatro da manhã para pegar transporte coletivo da periferia para o centro e bairros nobres e realizar sub-serviços, já esperando o furto ou o roubo, quando não os ataques sexuais, pelos réus romantizados. Talvez o José ou a Maria trabalhe para esses mesmos intelectuais e artistas que possuem a solução para tudo, menos para sua falta de visão.

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Para esses especialistas, cuja fama garante a certeza da palavra de autoridade, vítima é o réu. A “vítima da vítima” não existe.

O dependente e até o traficante são vítimas do mais conhecido criminoso da sociedade brasileira: o sistema. O cenário é claro, a consequência é nítida, mas a causa, esta não existe. A culpa dissolve-se socialmente para esses doutrinadores. Apontam os dedos para a classe média, para a Polícia, para o capitalismo, dedos acusatórios de culpa para todos os lados, nunca, porém, para o espelho.

Possivelmente lhes falte a experiência que policiais, atendentes do SAMU, médicos, enfermeiros, assistente sociais e outros profissionais experimentam todo dia, e que chega, quando chega, mais depurada aos gabinetes dos juízes: pais e mães, avôs e avós, irmãos e irmãs, filhos e filhas pedindo por tudo que é sagrado para prender o usuário. Porque ele quebra tudo, porque ele leva as coisas de casa pra trocar por droga, porque ele ameaça bater, e bate, porque ele ameaça matar, e mata.

São lágrimas que esses profissionais, a linha de frente da manutenção da paz social, têm que engolir todo dia com o gosto amargo da impotência de quem sabe que há algo errado e cuja opinião nunca é ouvida, afinal, possuem só a experiência, não a fama.

A lei não permite prender. Permite internar, porque há uma concordância que se trata de um problema de saúde, mas não tem vaga para todos, e, quando há, brotam os coletivos, os grupos organizados, os artistas, os membros de comissão dizendo que isso é uma violência contra o dependente químico e que ele escolhe se quer ou não ser internado, mesmo lá atrás afirmando que a dependência é uma doença.

Defendem a liberdade do adicto decidir pelo tratamento, como aquela senhora que é vista em recente foto sendo carregada no colo por um franciscano na ação paulistana. Ou aquela modelo que foi estuprada na Cracolândia, ou a que se prostitui inúmeras vezes por dia para juntar o dinheiro do crack. Qualquer um daqueles espalhados pelo chão dos centros de droga, a confundir-se com os detritos, sem a dignidade humana que é direito constitucional. Ou aquela cantora milionária cujo dinheiro não foi suficiente para salvá-la. Ou um ator conhecido.

São todos doentes. Contudo, alguns estão na mídia advogando a liberação irrestrita das drogas. São todos vítimas indefesas, mas alguns aparecem nos meios de comunicação defendendo ideologias políticas e soluções simplistas e descoladas para problemas antigos e complexos, sem compromisso com os fatos.

Não. O bêbado não é a alma da festa. O maconheiro não é descolado. O usuário de crack não é um zumbi. A droga não te leva mais longe, te leva só mais fundo, testando os limites mais baixos a que a humanidade pode chegar, com o olhar cúmplice de quem só observa e, pasme-se, defende o direito de ser explorado por grupos criminosos nos verdadeiros currais humanos que se tornaram as cracolândias dos municípios brasileiros.

A imagem é dura: o adicto, preso no vício àquele espaço de degradação urbana e humana, é o gado que enriquece o criminoso.

Nenhum dos problemas envolvendo a criminalidade possui uma resposta simples e uma solução de encomenda. Não é uma novela, é a vida real, e nela nem sempre há finais felizes ou festas chiques em coberturas.

O Brasil precisa que os fatos sejam encarados como eles são, sem cartilhas ideológicas, sem interesses escusos, sem as promessas de emoções baratas dos folhetins.

Fábio Assunção merece nossa compreensão e compaixão, e em mais de uma entrevista já narrou seu calvário. Não é piada. Não é engraçado. Se ele, que tem acesso a tudo, sofre, imagine quem perdeu tudo: família, emprego, dignidade, e está numa sarjeta qualquer. É uma lição do que é esse mundo, uma reflexão e uma oportunidade de agir racionalmente.

O ator mencionou ter sentido vergonha com o que ocorreu, segundo a mídia. É isso que o Brasil precisa, sentir vergonha, assumir que tem um problema e que a solução não sairá de nenhuma cartola de especialista.

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