Digite para buscar

Fica em casa, caralho!

Fique em casa! Celebridades querem sair e você está atrapalhando!

Nesse tempo de quarentena, devemos ser menos egoístas e gananciosos e pensarmos nos outros: nas celebridades que querem sair e não cruzar com aglomerações

Avatar
Compartilhar
Marcelo Cosme quarentena

Você não ouviu falar da quarentena? Toque de recolher. Pois é. Perdeu, playboy. Agora, sair na rua tem que dar cadeia. E quem discorda é um ditador. Sobretudo por um fator: para evitar aglomerações. Gente já é um negócio nojento, que dirá muita gente unida.

Mas tem umas celebridades por aí que querem sair nas ruas. E elas têm uma belíssima justificativa: elas evitam aglomerações. E não existe aglomeração nas ruas porque as outras pessoas precisam ficar em casa. Assim, as celebridades podem sair às ruas. E elas não estarão furando nenhuma norma de boa conduta – afinal, não há muvuca. Então, celebridades podem sair. Não saia de casa, para não ferrar com o dia das celebridades.

Uma das coisas que precisamos aprender nesse tempo de quarentena (e também acabou de acabar a Quaresma) é a finalmente pensar no próximo. Sobretudo nas celebridades. Essas, que são sinônimo de sacrifício por nós. Essas, que nos liberam um banco ocupado no busão. Essas, que só pensam em nosso bem dia e noite e votam no PSOL. Essas, que só querem o bom, o belo e o justo para nós.

Até quando continuaremos a ser pessoas egoístas, mesquinhas, sujas e cheias de germes que não pensam nas celebridades? Falta altruísmo no mundo. Falta um despojamento e talvez um pouco de budismo ou outra parada oriental que aprendemos na revista Vida Simples. Falta, sobretudo, sabermos qual é nosso papel no cosmo e cada um fazer a sua parte: ficar em casa para as celebridades poderem sair às ruas.

Não viu que é até norma do Ministério da Saúde uns minutos de exercícios ao ar livre para “desopilar”, para refrescar o cocoruto e para renovar as energias? Só não pode ser no meio do povão. Por isso, é importantíssimo que você fique em casa: assim, quando celebridades passarem, não vai ter povo ao redor delas. Pense no próximo, seu egoísta do cacete.

Por exemplo, Gregório Duvivier. Todos deveriam parar de ser egóicos narcisistas umbigocêntricos em suas vidinhas burguesas e pensar um pouco mais em Gregório Duvivier.

Gregório Duvivier é o arquétipo semi-perfeito do intelectual orgânico de Antonio Gramsci: alguém que, por ser uma celebridade, tem a sua opinião pró-revolução levada em conta. E o mais importante: Duvivier é uma celebridade por ser pró-revolução, and nothing more. Parece que se apresenta como “humorista”. Nunca vi alguém lembrar de alguma piada de Gregório Duvivier. Mas ele é uma celebridade por ser humorista pró-revolução, e sua opinião pró-revolução importa porque ele é humorista. Mesmo sem piada. Só sendo pró-revolução.

Gregório, logo no começo da quarentena, quis sair à rua. Coitado do Duvivier. Só queria levar sua filha para dar uma volta de bicicleta. E saiu.

Gregório Duvivier de bicicleta com a filhaMas tudo bem: Duvivier é uma celebridade. E, ao contrário das pessoas egoístas, Duvivier tomou um imenso cuidado – na verdade, uma tarefa não apenas heróica, mas verdadeiramente hercúlea, algo de que só os deuses são capazes hoje: Duvivier evitou multidões. E Duvivier pôde usufruir do Rio de Janeiro completamente disponível para ele porque os burgueses ficaram em casa. Bem ao contrário de você, seu individualista capitalista do inferno, que, se saísse de casa, iria atrapalhar Duvivier.

Duvivier salvou milhares de vida com este gesto divino. Foi maior do que abrir o Mar Vermelho. Deveríamos todos erigir, com rios de dinheiro público, uma estátua para Gregório Duvivier. De preferência com seguranças fortemente armados até os dentes para guardar a estátua e ninguém se aglomerar ao redor dela. Os guardas também poderiam aproveitar e fazer uma campanha pelo desarmamento ali.

Olhe, inclusive, como portais de notícia, que só querem o nosso bem, noticiaram o epopéico sacrifício de Duvivier:

Gregório Duvivier fura quarentena - portais de notícias

Gregório Duvivier “escapa” do isolamento social. Gregório Duvivier “desopila de quarentena” (sic). Gregório Duvivier – observe que lúdico, que simples, que singelo, que delicado, quase que bucólico – passeia de bicicleta com a filha! 

Enquanto isso você aí, querendo sair do seu barraco com outros 7 parentes disputando 68 m² só por ser um explorador bolsominion interesseiro! Ainda por cima, poderia estragar o homérico gesto de Duvivier!

Também teve David Pinheiro saindo do supermercado. E Gabriel Leone, andando pelo Rio de Janeiro sem máscara. E Guilherme Weber, de máscara. E Antonio Lopes, com máscara no queixo. E Aricia Silva e Ana Paula Minerato. Eu não faço a menor idéia de quem sejam essas pessoas, mas o site intelectual “OFuxico” noticia que eles “quebram quarentena” em dia de sol. Já pensou se tivessem que cruzar com você e seus germes no meio do caminho?! Você poderia ter matado mais celebridades que o Hitler, seu desgraçado.

Depois, teve também Renata Ceribelli, que apresenta o Fantástico, caminhando durante a quarentena. Irritada com as críticas – e como não se irritar com as críticas do rebotalho?! -, Ceribelli “se defendeu”, como explica o UOL:

“Uma foto minha praticando atividade física fora de casa tem repercutido nas redes sociais como se eu estivesse agindo em desacordo com as recomendações do Ministério da Saúde, da OMS, e da própria Globo em relação à pandemia do novo coronavírus.”

Mais uma heroína!! Mais uma membra da casta superior deste país – a pobre celebridade que quer dar um rolê e nós, essas baratas tontas ignorantes que espalham fake news no Zap, podemos zoar seu dia! E ainda deixa clara a nova pirâmide de Kelsen para os indoutos: primeiro, o Ministério da Saúde; acima, a OMS; e acima de tudo, a rede Globo! E disse ainda mais, no resumo mais perfeito até hoje:

“Mas, de acordo com essas recomendações, não é errado praticar atividade física ao ar livre, desde que você esteja sozinho, longe de aglomerações, não apresente sintomas de Covid-19 e não pertença a nenhum grupo de risco. Eu me enquadro nessa situação.”

Bravo! Poético! Maior do que Shakespeare! Esperamos que finalmente nossos leitores, os estúpidos entupidos de micróbios, entendam que Renata Ceribelli – e outras celebridades – estão sozinhas na cidade, então não estão fazendo nada de errado! Errado é sair de casa e conspurcar a pureza social do Rio de Janeiro com a sua presença e seus germes. Aí Ceribelli não estará mais sozinha.

Renata Ceribelli furando a quarentenaE se não apenas uma, mas cinco pessoas saírem no Rio de Janeiro ao mesmo tempo? O risco de virar baile funk, arrastão, roda de MPB com baseado ou novela das 7 ultrapassa as intenções de voto no Freixo em todo o Projac. E isto seria pior ainda do que pegar coronga pelo ânus.

E Marcelo Cosme, o jornalista da Globo News? A emissora não cansa de nos explicar como somos um lixo por insistirmos com essa mania tirânica, maquiavélica e putrefata de cobiça que é sair na rua. Quando tomou uma bronca de um neonazista por estar na rua, explicou o que deveria estar na bandeira do Brasil: “Eu não sou grupo de risco!”

E daí que 90% do planeta também não é? Precisa ter mais de 60, e além disso com problemas respiratórios, câncer, ser fumante, hipertenso ou diabético (quase nunca sem uma destes atributos). O problema é que se o resto do planeta também sair, Marcelo Cosme não estará mais sozinho: essa grande celebridade será obrigada a cruzar com você, sua massa gelatinosa de vírus e coisas de pobre, e ao invés deste gênio do jornalismo estar ministrando aulas gratuitas sobre farmacologia e infectologia, terá de enfrentar uma aglomeração. Nada pior do que aglomeração de pobre.

Falando em Globo News, teve também Leilane Neubarth! Ao afirmar que iria para o estúdio da Globo News, nossa celebridade teve de enfrentar mais uma vez o problema de nossos dias – gente – dizendo que ela, por ser velha (61 anos) não pode sair – de acordo com, como é mesmo?, o Ministério da Saúde, a OMS e a Rede Globo, nessa ordem.

Essas gentes! O que não fazem para atrapalhar nossas celebridades! Leilane teve de explicar, pacientemente, por que ela pode sair na rua (mesmo sendo grupo de risco) e os transeuntes quaisquer não podem transeuntar à vontade: porque ela é Leilane Neubarth.

Mas ninguém chegou aos pés da Monja Cohen. Também, como chegar aos pés de uma monja, que ao invés de estar reclusa em um mosteiro, dá mais palpites em coisas corriqueiras do que partícipe do Big Brother? Ninguém poderia mesmo chegar aos pés de Monja Cohen, deveria ser considerado profanação.

Monja Cohen, putíssima da vida como cabe bem a uma monja budista, mandou todo mundo ficar em casa. E, no meio do pandemônio da corongacrisis, fez um vídeo full pistola com você, energúmeno desgraçado gado que insiste em não ficar em casa para deixar as celebridades sozinhas, sem aglomeração.

A monja eleitora do PT não poderia ser mais clara: fique em casa, não vá à igreja. Poderíamos completar: se precisar morrer, morra sem ficar no caminho de celebridades.

Mas o gran finale é a passagem em que a Monja Cohen fala que quem quer trabalhar, trabalhe em casa: Deixem de ser gananciososParem de pensar em lucro pessoal. Isso aí, monja! Como esse materialismo do vil metal e da ganância bolsonarista está destruindo vidas!! Que apego fútil a coisas levianas, como o trabalho! Ao invés de concordarem com um pouco de sacrifício para deixar as ruas livres para celebridades! Que vida simples!

Inclusive vou transmitir sua mensagem no Zap para estes gananciosos aqui ficarem em casa. Buda ficaria orgulhoso. (Buda pode ficar orgulhoso?)

pobreza

Guten Morgen Go – Primeira Guerra Mundial já está no ar!! Conheça o conflito que moldou o mundo problemático em que vivemos em go.sensoincomum.org!

Faça seu currículo com a CVpraVC e obtenha bônus exclusivos!

Conheça a Livraria Senso Incomum

Vista-se bem e perca amigos com a Vista Direita

Assuntos:
Avatar
Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

  • 1