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1925-2020

Obrigado, Rubem Fonseca!

Escritor mineiro faleceu ontem, aos 94 anos. Devo muito ao pai do advogado Mandrake

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O escritor Rubem Fonseca morreu ontem, aos 94 anos. Escreveu um bocado de livros: contos e romances. É bem provável que os urubus de sempre queiram fazer uso político de sua memória. Não me importa. Quero comentar quem foi Rubem Fonseca para mim.

Só o tempo e os bons críticos dirão aonde vai parar o nome de Rubem Fonseca na história da nossa literatura. O que me interessa é vasculhar onde o coloquei na minha história literária. E seu lugar é muito especial. Conheci Rubem Fonseca num momento difícil da minha vida. 

E ele me liga a duas pessoas que foram essenciais pra mim. Meu pai e minha tia Carmen. Eu tinha uns 23 anos quando minha tia me deu um livro com título esquisito e que deixei largado na minha, para a época, vasta biblioteca de uns 20 livros. Eu ainda era um leitor muito preguiçoso, lia com muita má vontade mesmo. 

Se a memória não me trai, faziam parte dela, da vasta biblioteca, relíquias como Eduardo Galeano e Dráuzio Varella. Pois é. O caminho literário de cada um esconde mistérios insondáveis.

Minha tia era uma grande leitora e, dizem, uma ótima escritora. Não cheguei a ler nada do que escreveu, mas recebi ótimas dicas de livros quando nos falávamos pelo telefone – ela morava em Jundiaí. Eu, começando a me interessar pelos livros, a enchia de perguntas sobre autores, estilos, grandes obras. 

Lembro de uma tarde que passamos ao telefone, ela me contando sobre um livro de um romeno chamado Cioran. Já faz muito tempo, mais de 20 anos, mas eu ainda lembro do entusiasmo dela com o autor. O livro era Breviário de Decomposição.

Cioran, Guimarães Rosa, Saramago, Graciliano, entre outros. Tenho até hoje uma edição espanhola da Biografia da Filosofia, do Julián Marías, com dedicatória do próprio Julián à minha tia. Não sei o que minha tia acharia do mundo tacanho de hoje, mas aquele amor à literatura eu trago como uma bela memória.

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E foi um pouco antes disso que meu pai adoeceu. O câncer havia se espalhado e comprometido a vida dele. Era uma questão de dias, semanas, meses. Sua coordenação motora era muito instável, ele caía bastante. Eu tinha saído do trabalho uns meses antes e estava indo à caça de novas oportunidades. Parei de procurar emprego para ficar com ele.

Estávamos morando no apartamento do meu avô, na rua 25 de março, centro de São Paulo. Meu pai passava a maior parte do tempo deitado e eu, para ocupar a cabeça, recorri aquela bibliotecazinha e resgatei o livro que minha tia havia me dado uns anos antes. O livro era Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos, do Rubem Fonseca. Fui capturado. 

Nunca mais o reli, mas o enredo, se não me engano, circulava em torno de um manuscrito perdido de alguns contos do Isaac Babel. Era, ao mesmo tempo, um mergulho na literatura russa e umas boas aulas de sedução. Quem já leu Rubem Fonseca sabe como seus personagens masculinos usavam a literatura para seduzir as mulheres. “Poesia pra mim sai no mijo”, dizia, eu acho, o personagem principal do livro. Eram boas frases de efeito que eu tentava repetir nos bares e nas baladas. Tive um enorme fracasso, claro. Depois do Vastas Emoções eu li quase toda a obra do Rubem. Eu tinha vários sebos perto de mim e sempre voltava com algum livro dele.

Excreções, Secreções e Desatinos, foi o primeiro que comprei novo, quando lançou. Num conto, um corcundo contava a alguém sobre como conseguia conquistar as mulheres mais belas. Depois vieram Bufo & Spallanzani; A Grande Arte; Lúcia McCartney; O Cobrador; O Caso Morel; A Coleira do Cão; Feliz Ano Novo, que tem um conto sobre um psicopata que sai metralhando todo mundo na noite de ano novo; Romance Negro; Pequenas Criaturas; E do Meio do Mundo Prostituto, Só Amores Guardei ao Meu Charuto, com título tirado do Poema do Frade, do Álvares de Azevedo.

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Tudo o que sobrou dos tantos livros que eu tinha.

Rubem nunca fugiu da literatura nos seus livros. Ela sempre estava lá, por meio de uma citação ou na fala de algum personagem. Rubem criou seus investigadores, o advogado Mandrake, o delegado Raul e o escritor Gustavo Flávio, inspirado em Gustave Flaubert. Rubem me ajudou a entrar de cabeça nesse universo e tenho por ele um profundo carinho.  

Para ajudar, meu pai, que sempre foi um homem muito sensível, mesmo muito doente, percebendo que eu vivia com o livro para todo lado, me deixou o encarte Mais da Folha de S.Paulo (a Folha já foi um jornal, acreditem) com uma matéria sobre a primeira tradução do russo de Crime e Castigo, do Dostoiévski.

O ano foi 2001. Perdi meu pai e, certamente por obra da Providência, recebi um tesouro que não larguei mais. Anos depois, minha tia faleceu também, com seus livros e seus escritos. O mundo descoloriu um tantinho. Ontem foi a vez do Rubem Fonseca que, sem saber da culpa que teve, me ajudou a olhar o mundo pelo prisma da literatura. 

Obrigado, Rubem Fonseca! Descanse em paz.

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P.S. Desculpem eventuais erros de enredo, de edição, de frases, de personagens e mesmo dos nomes dos livros. Fiz tudo de memória, para ser o mais natural possível. 


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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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