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Lavagem espiritual

Como estourar plástico bolha com a mente

Algumas observações sobre o comportamento humano em tempos de vírus mortal e de gente que leva youtuber a sério, o que dá no mesmo

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Você quer entender a cabeça da sua vizinha de vinte e dois anos, estudante de geografia na PUC, que acha que entende todas as minúcias do debate político? Do tio Nestor, ávido sindicalista, que passa mais tempo na bancada do café do que na mesa de trabalho? Do crítico especialista em estilo, cujo estilo não possui nenhuma especialidade? Daquela parente distante, que você sabe muito bem que não atina bem das idéias e adora chamar todo mundo de fascista? Do amigo de infância, formado nalguma federal, que diz no Instagram “vidas negras importam”, mas na vida real pouco se importa com os outros?

Ou seja, quer entender todo aquele que, mesmo sem possuir elementos primários de autoconhecimento, tornou-se obsessivo contra qualquer um que discorde de suas muy profundas opiniões políticas? Basta ler o capítulo Lunáticos, de Ortodoxia. 

Chesterton, aliás, é um excelente antídoto contra a aspereza da vida diária, contra o modorrento deslizar das horas que correm, consumidas sem critério algum.

Nesses tempos insanos, manter a coluna ereta e a mente firme depende muito mais dos voos imaginativos que você se permite do que do tipo de notícia que você consome. Ou será que a cabeça de quem fica caçando conexões entre perfis anônimos no Twitter é mais saudável do que aquela que só pára seus afazeres diários para ler um sermão do Padre Antônio Vieira ou uma opinião do Cavalheiro Tristram Shandy? 

Será mais sã a mente de quem vive a retuitar o Kim Kataguiri do que aquela que, quando acaba o expediente, só quer ver séries de vampiros ou descobrir uma receita nova no programa da Palmirinha? Um elemento com os atributos intelectuais de um Mamãe Falei (que codinome encantador!) está interessado em conhecer a verdade ou em aumentar os bíceps? Ele se sente mais realizado ao subir numa esteira ou ao se ajoelhar num altar?

Infelizmente, ao que parece, ninguém mais dá muita importância aos motivos que levam uma pessoa a sorrir ou quando o riso cessa. Ninguém mais se interessa apenas com o enredo de uma história boba, com o jeito canastra do ator, da atriz. A moda agora é se descabelar, mitando num tuíte do Joel Pinheiro ou da Vera magalhães, é lacrar nos posts do presidente, é cancelar qualquer que pie fora do tom. 

Tirar uma onda com o Joelzinho e a Verinha é divertido, sabemos – sobretudo porque são tipos rasos que se levam muito a sério. Mas é pra isso que acordamos todo dia?

“É a pura prontidão do intelecto que está sempre prestes a colapsar”, diz Chesterton no capítulo citado. As sutilezas do dia passam incólumes por tipos assim. Bolsonaro sorriu sem máscara? “Absurdo! Morreram mais de setenta mil pessoas, como alguém pode rir disso?” Tuíta, Naty Santiago, de trinta e dois anos, publicitária. Logo em seguida, Naná posta uma foto no seu quarto de 80m², uma cervejinha da mão, a fenda do decote quase chegando no umbigo, e a legenda: “É felicidade que chama?”. É fingimento por excelência, querida Naty.

Imagine a complexidade de uma mente que tem que recorrer a um youtuber, cuja formação intelectual foi orientada pelos Power Rangers e pelo Cine Privê, para corroborar suas opiniões. A consciência de alguém assim é tão desamparada que induz o sujeito a fugir de qualquer contato consigo mesmo. Daí a aflição que leva alguém a imitar uma foca ou a fazer origami com o cabelo. É a falsa consciência que não conhece a si mesmo, como diria Vauvenargues. 

É o farofeiro de alma, como diria outro moralista francês: eu. Emporcalha as coisas refinadas do espírito, polui com sua grosseria o gesto mais delicado. O que importa é que Bolsonaro é genocida e ele, o nosso animado farofeiro, grandioso como uma porta de saloon, é um vigoroso herói, entocado como um suricato na sua varanda gourmet. O tipo não diz mais “boa noite”, diz “ hashtag fica em casa”. Aí pede um ifood – o motoboy que fique em casa pra ver só! -, liga o note e começa a live com os amigos, todos na casa dos quarenta, todos muito revoltados com os furadores de quarentena. 

Lembro de uma cena que vi num documentário sobre a vida de James Joyce. Joyce, com um ar de satisfação que exala do seu semblante, está sentado numa poltrona quando a esposa entra no aposento. Ela pergunta: – Vejo que teve um bom dia, James. O grande escritor se inclina um pouco, ajeita a voz e diz: – Tive um dia repleto e muito produtivo hoje. A senhora Joyce pergunta: – Escreveu bastante? e Joyce arremata: – Duas frases.

Não sei se o diálogo existiu, se o documentarista inventou o diálogo, não me lembro sequer se foi esse o diálogo. Lembro-me da graça que produziu em mim. E imaginava: se um dos maiores escritores do século XX acha produtivo duas frases num dia, eu estou perdoado por conseguir, no máximo, um artigo indefinido ou um pronome oblíquo. Serviu-me, como um trecho da bíblia serve a um cristão, ou como uma frase do Paulo Coelho alimenta a um neurótico. 

E sinto falta dessas graças do espírito. Acho que sou um viciado nesse tipo de gracejo, em boas tiradas. Um dia sem uma pérola assim é um dia morto. Pra que o dia não acabe num caixão, com coroa de flores e tudo, é que recorro a Chesterton, Robert Benchley, Woody Allen, Karl Kraus; e também ao Costinha, ao Ary Toledo, a Dona Catifunda; às vezes, até a uma música do Falcão, do Adoniran. 

É possível recolher esse tipo de jovialidade do espírito nas criações mais variadas. O cavalheiro Tristram Shandy queria que seus pais tivessem prestado mais atenção no momento em que o concebiam; Chesterton acha que o queijo tem sido menosprezado na literatura européia; Robert Benchley acha um capricho os editores o cobrarem pelos seus textos só porque, uns dois anos antes, o adiantaram míseros mil dólares.

“Eu a odeio tanto. Não consigo parar de pensar nela nem por um minuto”, diz Glenn Ford a respeito de Rita Hayworth, em Gilda. 

– “O que, em nome de Deus, te trouxe pra Casablanca?”

– “MInha saúde. Eu vim para Casablanca por causa das águas.”

– “Águas? Que águas? Nós estamos no meio do deserto!”

– “Eu estava mal informado.”

Humphrey Bogart e Claude Reins, em Casablanca.

Casablanca tem alguns dos melhores diálogos do cinema. Bogart aponta a arma para Reins e diz: – “Esta arma está apontada diretamente para o seu coração”. E, Reins triunfal: – “É o meu ponto menos vulnerável”. Que maravilha!

Foi Karl Kraus que disse que “o que foi impresso num único dia dos últimos cinquenta anos fez mais contra a cultura do que a obra inteira de Goethe fez a seu favor”. Foi a cultura jornalística que contaminou o mundo e o afundou na miséria dos acontecimentos. A miséria racional.

O mundo enlouqueceu por excesso de razão. Chesterton acertou. É a razão excessiva, desmedida, que leva alguém a enxergar num termo – a coisa tá preta, por exemplo – uma confirmação do racismo estrutural, negando a mais óbvia das evidências contrárias. As razões de um Guilherme Boulos não são nada razoáveis. Lula, por acaso, se vê como um ladrão?

 Foi a razão excessiva que deu voz a lunáticos por essência. Ou há alguma diferença entre aquele que acredita que é um imperador francês e aquele que acha que nasceu no corpo de alguém do sexo oposto? Ou pior: há qualquer diferença entre aquele que diz ser um tamanduá-real e aquele que acha que tem direito de invadir a propriedade alheia? Charles Manson tinha valorosas razões quando mandou sua “família” retalhar Sharon Tate, grávida, e mais quatro pessoas. Só tinha razões, nada mais. Lula tem as dele.

Quem leva a sério as previsões de um Átila Tamarindo pode até ter bons critérios para isso, critérios muy científicos, imagine-se; pode passar o dia monitorando os seu contatos nas redes a fim de achar alguns infiéis que ousam pôr o pé na rua, mesmo que seja na inconveniente tarefa de trazer comida pra casa. Só não poderá compreender a necessidade mais que humana de interação real, de contato físico, de abraços, porque sua razão o proibiu de pensar com o coração. 

O mundo se racionalizou tanto, ou seja, enlouqueceu tanto que, num passado não muito distante, o heroísmo era a capacidade que você tinha de se sacrificar pelos outros; na saga moderna do herói, segundo nossa elite falante, os outros é que tem que se sacrificar por você.

Não há como isso acabar bem.

Vou terminar com mais uma pérola. Essa, do grande Peter Falk. É do filme Assassinato Por Morte (Murder by Death – um dos meus filmes de cabeceira, escrito por Neil Simon e que conta com um elenco fantástico: Maggie Smith, David Niven, Peter Sellers, Alec Guinness, Truman Capote, entre outros). Falk dá umas poucas notas para sua companheira achar um posto e buscar gasolina. O fato de Falk, que interpreta um detetive de fama mundial, mandar a mulher ao posto já é hilário. Quando ela retorna, ele lhe dá mais alguns dólares e pede pra que ela retorne ao posto para completar o tanque. Ela o olha estarrecida. Diz em seguida: – “Você não confia em mulheres, não?” E Falk responde: – “A última vez que eu confiei numa mulher foi em Paris. Ela me disse que ia comprar cigarros. Duas horas depois, os alemães invadiram a França.”

pequenosamuel


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Carlos de Freitas

Carlos de Freitas é o pseudônimo de Carlos de Freitas, redator e escritor (embora nunca tenha publicado uma oração coordenada assindética conclusiva). Diretor do núcleo de projetos culturais da Panela Produtora e editor do Senso Incomum. Cutuca as pessoas pelas costas e depois finge que não foi ele. Contraiu malária numa viagem que fez aos Alpes Suiços. Não fuma. Twitter: @CFreitasR

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