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Por que estão reclamando de Bia Kicis processar a Crusoé por uma fake news?

"Fake news" é o termo da moda, o novo "fascista". Todos querem punir as tais "fake news". Por que quando Bia Kicis processa, aí vira "censura"?

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Bia Kicis

A jornalista Helena Mader, da Crusoé, revista do blog de fofocas “O Antagonista”, publicou uma fake news sobre a deputada Bia Kicis. De acordo com a jornalista, Bia Kicis faria parte de uma “coalizão” para impedir a prisão em segunda instância – esta aberração jurídica brasileira que impede que um condenado por dois tribunais como Lula esteja preso.

A fonte da jornalista poderiam ser alucinações, dores de cabeça, ódio espumante ou outros efeitos colaterais do que virou “O Antagonista”. Afinal, Bia Kicis sempre se posicionou a favor da prisão em segunda instância – tema praticamente consensual entre a direita brasileira.

A desculpa aventada por Helena Mader para inventar tal fake news na Crusoé, entretanto, é digna de separar quem pode dirigir de quem não tem uma assinatura muito válida: Bia Kicis estaria impedindo a prisão em segunda instância e formando uma “coalização pró-impunidade” porque, desde março, não teria mais postado em seu Twitter sobre o tema (sic).

https://twitter.com/helenamader_/status/1284643755082035201

Talvez porque em março começou o Covid. Talvez porque não digamos todas as coisas que defendemos todo dia. E talvez porque não dizer “eu respiro oxigênio” não seja prova de que você parou de respirar oxigênio e de defender oxigênio em seu próprio pulmão. Levar a “lógica” de jornalistas desta jaez a sério e votar no Tiririca é a mesma coisa.

E, claro, enquanto metade do país não agüenta mais que deputados só sejam ativos em redes sociais, a Crusoé, que já publicou uma fofoca de Felipe Moura Brasil com conversas de WhatsApp vazadas a ele por Raphaella Avena, acha que jornalismo é varredura de tweets em rede social. Tente imaginar estes jornalistas lendo um livro.

Ou seja, é uma fake news da Crusoé, que ainda peca pela falta de verossimilhança: nem parece verdade, nem tenta parecer. É apenas acusação de fato difamatório sem prova (ou com a “prova” mais engraçada desde Felipe Moura Brasil tentando justificar vazamento de conversa que não prova articulação imoral nenhuma). Fake news clássica.

Se vamos punir fake news, por que reclamaram de Bia Kicis processar tanto a Crusoé quanto Helena Mader, que só entrará para a história com o silogismo torto mais chumbrega do país? É para punir fake news ou não é?

Por que quando a fake news é contra Bia Kicis, aí a deputada, ao processar seguindo o rito legal, estaria praticado “censura” – sendo que até mesmo o processo da deputada fala a favor da liberdade de expressão, apenas lembrando do caput do artigo 220 da Constituição, que “garante o direito de resposta e a indenização por danos causados à imagem física e social (art. 5º, V e X)”?

Por que quando a censura vem de verdade, sem lei anterior, com polícia, com busca e apreensão, com prisão, com impedimento à atividade, aí é só algo que “mira bolsonaristas” e que “combate fake news”?

Note-se, ainda, que Helena Mader e a Crusoé falam em “coalizão pró-impunidade”, um termo nitidamente negativo – e verdadeiro, mas com o “pequeno” problema de que a “prova” para Bia Kicis fazer parte de tal coalizão pró-impunidade é que Helena Mader e a Crusoé inventaram que ela é, e quem somos nós, informados por Crusoé, para discordar?

O teatrinho da revista agora é se considerar “censurada”, e trocar o nome da deputada por tarjas negras (estamos quase exigindo copyright). Ora, a grita é contra fake news ou é contra Bia Kicis? No que um processo é “censura” – ainda mais um processo que ainda cita a liberdade de expressão? Fake news contra pessoas que desagradem O Antagonista e a esquerda (para quem vê diferença) estão liberadas? Inclusive difamações mentirosas?

Este é o problema da política de identidade: ninguém mais raciocina em termos silogísticos, filosóficos, científicos – apenas se identifica os protegidos e os inimigos (exatamente o pensamento tão assustador de um sofista na República de Platão). Não há mais o pensamento “fake news são ruins”, e sim apenas “devo ferrar meus inimigos, de quem não gosto, per fas et per nefas“.

Fica nosso desejo para que a fake news de Helena Mader da Crusoé seja devidamente punida. Se a “prova” da jornalista é essa, vai ser difícil convencer quem tenha passado da primeira aula de lógica.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record).

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