Apesar de parecer simples, há algo de pernicioso no governo instituir o horário de verão: o Estado tentando controlar a realidade.

Não contente em imprimir moeda sem lastro, controlar preços e obrigar a depositar dinheiro no FGTS, o estado interventor muda as horas numa canetada.

O horário de verão é a intervenção estatal alçada ao status de magia. Os burocratas de Brasília simplesmente desejam controlar um dado físico, um parâmetro cósmico: o tempo.

É um poder que nenhum mago, pajé ou oráculo jamais sonhou ter. O horário de verão é a conseqüência do controle do tempo estatal. Tudo que fica nas mãos do estado tem resultados duvidosos e desinteressantes. Já o controle do tempo nas mãos da iniciativa privada proporcionou a Marty McFly salvar a vida do grande cientista Emmet “Doc” Brown. Bem melhor.

Uma coisa é certa: a Terra orbitando o Sol a 107 mil km/h e girando a 1600 km/h está pouco se lixando se no Brasil tem ou não horário de verão. O tempo cósmico continuará sua jornada inexorável.

O horário de verão é uma espécie de FGTS cósmico: o governo te obriga a depositar uma hora da sua vida e devolve depois, sem correções e rendendo menos que a inflação.

A energia, juntamente com o fornecimento de água, sendo monopólios estatais, são as únicas coisas que são vendidas e quem as vende implora para os consumidores comprarem menos. O horário de verão é o botox da economia estatal.

Se houvesse uma versão brasileira do filme Impacto Profundo, a solução do governo seria editar um decreto proibindo o meteoro. Já posso ver as pessoas de vermelho nas ruas gritando “sim à PEC 666”.

E talvez os populistas façam os seus discursos inflamados contra o “lobby das horas”, apoiado pela “bancada das rugas” e financiado pela indústria dos cosméticos.

Segundo Hegel, o estado é Deus na terra. O horário de verão é o apogeu da filosofia hegeliana, com um daqueles deuses mágicos e vingativos, que controlam o tempo e exigem rituais de sacrifício de seus súditos.

Contribua para manter o Senso Incomum no ar sendo nosso patrão através do Patreon

Não perca nossas análises culturais e políticas curtindo nossa página no Facebook 

E espalhe novos pensamentos seguindo nosso perfil no Twitter: @sensoinc

Saiba mais:

  • Alexandre Horbach

    Não entendi exatamente qual a crítica em relação ao horário de verão. Entendo que é uma arbitrariedade do Estado, mas nesse caso parece fazer sentido. Até gosto, afinal o dias ficam mais longos e dá pra aproveitar mais o sol. Qual exatamente é o problema?

  • Epaminondas

    O tempo não é cósmico, do ponto de vista físico. Em astrofísica, ele aparece em apenas um terreiro, da entropia. No resto é um elemento ignorado. Já aqui neste planeta, o tempo sofreu não uma ação governamental, mas um acordo sobre como medi-lo. É formidavelmente acordado até por nações historicamente inimigas — noves fora, claro, alguns revolucionários no meio das selvas tropicais, que adotam “horário revolucionário”, a ideia análoga àquela maluquice que você próprio adianta seu relógio para supostamente, nunca se atrasar. No caso dos bravos revolucionários, é para confundir os inimigos. Nossa, que estratégia complexa de combater.

    Horário de verão não é uma das piores ideias: Aproveitar melhor o dia solar. Ponto. O Governo é injustamente culpado quando é uma convenção humana o problema.

    Por que o trânsito engarrafa antes das 8h00 e depois da 18h00: É porque nenhum gênio da humanidade está apontando que todo mundo entra no trabalho na mesmíssima hora. Se houvesse flexibilidade, a quantidade de gente no trânsito ao mesmo tempo seria reduzida. Mas parece que é importante que o turno comece no mesmo horário com todo mundo presente. Fazer o quê, engarrafamento é a adversidade disto.

    Não precisaríamos de horário de verão se cada indivíduo flexibilizasse sua atividade. O que acontece é que botam o Governo então para forçar a flexibilização. Não está fazendo isto porque é o governo, está fazendo isto porque nos apegamos à convenção do horário. 8h00 começa e 18h00 termina. Deus assim determinou*.

    (* certa vez vi uma evangélica criticando o horário de verão dizendo que não via “a hora de voltar o ‘tempo de Deus’” — segundo ela, a mais difundida convenção humana era obra divina)

    Tá, dou o braço a torcer: O governo tem culpa no horário das atividades, mediante leis que determinam cargas horárias. Mas a lei fala sobre quantidade, não quando começa. As empresas poderiam flexibilizar isto ou os funcionários demandar tal benefício.

  • fausto atilio

    “Segundo Hegel, o estado é Deus na terra ” ? E segundo os fatos históricos, o Estado em alguns países, é o próprio Diabo agindo. Fazendo o mal, sobretudo na vida daqueles que creem nos valores cristãos.

    • Rodrigo Ribeiro

      E com certeza o diabo deve achar-se Deus, obviamente.
      Ou seja, o Estado é o inferno na Terra.

  • Rafael

    Por mim ficávamos o tempo inteiro no horário de verão.

  • Ilbirs

    Não gosto de horário de verão e por mim ele não existiria, mas precisamos levar em conta que mesmo sem ele não estamos no tempo cósmico, mas sob padrões de hora legal. Fôssemos pensar só em meridianos perfeitamente retos e levá-los a ferro e fogo, teríamos aqui no Brasil a maioria absoluta dos estados com mais de um fuso:

    http://www.atlasdigitalmaps.com/media/catalog/product/cache/1/image/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/n/s/nsamericastimezcs2013_1.png

    Haveria uma bela dificuldade de entendimento entre as muitas zonas brasileiras, aqui entendendo negócios, transportes e o resto do dia a dia da população. Optou-se por uma aproximação que acaba levando em conta principalmente o desenho do território nacional e as afinidades entre estados localizados em um conjunto de latitudes parecido, gerando aí o fato de a maior parte da nação estar em UTC-3, ainda que este fuso horário seja imaginário para algumas áreas que na realidade estariam em UTC-2 ou UTC-4, assim como temos zonas na prática UTC-5 que foram postas em UTC-4.
    Portanto, há sim distorções em comparação ao tempo cósmico de quem estiver nos extremos das zonas de hora legal, como o caso de o sol na pequena zona continental que estaria na realidade em UTC-2, horário aqui só adotado para os arquipélagos distantes da costa, como Fernando de Noronha. Dá 5 da manhã e tudo está claro no Recife, por exemplo. Em São Paulo ainda está bem escuro, uma vez que estamos falando de cidades que de fato estão em meridianos diferentes, mas enquadradas em uma mesma zona de hora legal por causa do tal conjunto aproximado de latitudes.

    http://gmttimedate.com/country1/brazil/files/Brazil%20Time%20Zones%20Maps.jpg

    Logo, querendo ou não, aqui estamos sim sob controle de tempo estatal mesmo fora do horário de verão e o povo acabou se habituando a isso. Foi uma aproximação que, como se pode ver pelo desenho do mapa, tentou ser o mais natural possível, não sendo por acaso que quando haviam extinguido UTC-5 (Acre e parte do Amazonas), houve referendo em 2010 que aprovou a volta desse fuso, uma vez que UTC-4 estava indo contra o ritmo natural daquelas localidades. A extinção de UTC-5 no Brasil durou de 2008 a 2013, após muita reclamação dos habitantes daquelas bandas, que inclusive tiveram de esperar três anos para que o resultado do referendo finalmente fosse sancionado. Observe-se também que originalmente o Pará tinha dois fusos, mas acabou sendo todo enquadrado em UTC-3 a partir de 2008. Se essa parte uma hora irá reivindicar o retorno a UTC-4 como ocorreu com a parte UTC-5, só o tempo dirá.

Sem mais artigos