O romance Max narra a história de um bebê "ariano perfeito" criado pela eugenia nazista. A semelhança com nosso mundo atual é aterradora.

Algumas vezes, em um passeio pelas livrarias, livros desconhecidos nos chamam a atenção, atropelam os clássicos e nos pedem para serem lidos. Livros de autores desconhecidos por nós, mas que têm algo de impactante. Com Max foi assim. A sua capa é perturbadora. A autora é desconhecida por aqui e a orelha chama a atenção.

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Ao começar a leitura, faltou coragem para desfilar pelo transporte público com ele, precisou ser encapado. No metrô, não daria tempo para terceiros entenderem o tema, a prudência falou mais alto.

Tanto quanto a capa, a leitura foi perturbadora. Não pela excelência romancista da autora, Sarah Cohen-Scali, mas pela crueza da narrativa histórica contada no livro.

Max, romance de Sarah Cohen-ScaliMax é o bebê criado para ser o ariano perfeito. Cresceu acreditando que sua mãe é a Alemanha e seu pai é o Führer. Fruto de uma relação sexual pensada estrategicamente como parte de um programa para gerar arianos puros, o personagem principal narra sua vida em primeira pessoa desde o momento anterior à sua concepção.

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O início do livro com a narração da escolha da sua mãe pelas características físicas, a relação (meramente sexual) com o pai de alto escalão, seu nascimento, o momento das verificações e do eventual sucesso do “empreendimento” contados de maneira emotiva pelo “bebê”, torcendo para se adequar, são capazes de acender sentimentos extremamente conflitantes no leitor. Ao mesmo tempo que se testemunha um nascituro e seus pensamentos, imaginá-lo com tais sentimentos não é um exercício fácil.

Não há melhor forma de explicar do que os trechos abaixo:

“Conclusão, mamãe foi declarada ‘perfeitamente conveniente para a seleção’. Foi a melhor avaliação! Outras tiveram menos sorte, elas não conseguiram mais que ‘medianamente conveniente’, e outras, enfim, ‘de jeito nenhum’. Estas foram ‘reinstaladas’. Atenção! É uma palavra codificada, não quer dizer que as instalaram em outro lugar. Não, significa que elas foram ‘exterminadas’.

Lixo! Raus! Kaputt!

Há os palavrões e as palavras codificadas. Comigo podem usar tanto uma quanto às outras. Os primeiros não me chocam, e das outras eu conheço o sentido oculto. Enfim, vou precisar aprender uma longa série deles à medida que for crescendo. Aprenderei também os nomes em código. O programa dos anos que virão, estabelecido por nosso Führer, está crivado deles. Veja um exemplo: no momento, eu e meus camaradinhas devemos nascer muito secretamente. Ninguém ainda sabe o que significa realmente Lebensborn, o nome em código do nosso programa. Estou contando para você, mas não repita para ninguém. Isso quer dizer ‘fontes de vida’.

A vida programada. Regida em função de parâmetros precisos, estabelecidos antecipadamente. Uma vida que se nutre da morte. (…)

Havia um quadro afixado na sala de parto. (O quadro, como o retrato do nosso Führer, está em todos os cômodos do Heim. Ele mostra a classificação das raças arianas. Em primeiro lugar, a ‘raça nórdica’, em segundo a ‘westfaliana’, na raça da união com a terra e, em terceiro, a ‘dinárica’, aquela do amor profundo pela pátria. Os célebres Bismarck e Hindemburg são westfalianso puros, para citar dois exemplos. Mas um homem, um só, simboliza a união perfeita das três raças: o Führer. (…)

Eu ouvi boatos que corriam no Heim quando ainda estava na barriga da mamãe. (Há mulheres que sabem segurar a língua, tagarelas que fofocas sem trégua e assustam os outros). Algumas diziam que quando doutor Ebner, sozinho com sua secretária no laboratório, examina um recém-nascido é decide que ele não está de acordo, ele o ‘reinstala’. O próprio doutor. Em seguida, a secretária escreve no registro ‘Natimorto’ (= palavra codificada).”

Desse ponto de partida a história se desenrola: a criança cresce, é aclamada, ainda bebê, pelo Hitler em pessoa e adora todo esse ambiente e sua “perfeição”.

A história não é real, mas é baseada em fatos reais. Como consta no próprio livro, Lebensborn foi um programa iniciado por Heinrich Himmler, colocado em pratica a partir de 1933 na Alemanha, estendido aos países ocupados em 1940/1941.

Estima-se que cerca de 8.000 crianças nasceramna Alemanha nesse programa, entre 8.000 e 12.000 na Noruega e centenas na Áustria, Bélgica e França.

Um terror pensar nisso no exercício de imaginação durante a leitura, uma tristeza maior lembrar disso como uma realidade e uma necessidade urgente de ajoelharmos, pedindo misericórdia a Deus, vendo a História se repetir de maneira “limpinha”.

Lemos notícias de que a Islândia teria estatísticas fantásticas de nenhum nascimento de crianças com Síndrome de Down. Não se trata, porém, é óbvio, da cura para a Síndrome, mas sim de uma escolha pelo aborto dessas crianças, porque não cumprem o check-list da perfeição.

Onde está exatamente a diferença dessa escolha daquele programa para nascimento de bebês de raça pura da Alemanha nazista?

Trata-se, tão claro como cristal, de eugenia, da escolha de bebês que podem ou não nascer de acordo com suas características genéticas –  mas agora sem segredos, brindado como boa política pública, rebaixando o milagre e a dignidade da vida humana a uma medição mundana de parâmetros de perfeição.

Menina com Síndrome de DownE, questiona-se – uma pergunta incabível, é claro, dirigida apenas para os incautos da cartilha do “deixa disso” –, haverá limites para a definição de parâmetro? Sua propensão à obesidade e à baixa estatura não denotariam claramente uma imperfeição evidente?

Na França, chegou-se a proibir uma propaganda com crianças portadoras da Síndrome de Down para não ofender as mulheres que abortaram por essa razão. A vítima é esquecida para se proteger o ofensor, o opressor ganha o respaldo do Estado, que decide qual vida pode ser vivida e celebrada, diante de aplausos efusivos por essa “conquista”.

Os mesmos que aplaudem o Estado estão prontos para apontar os dedos e gritar “nazistas!” quando confrontados pelas suas defesas apaixonadas por direitos de escolha para matar livremente e não ter o fardo de o convívio com um ser “não-perfeito”. Não podem ser julgados, coitados: podem apenas matar e defender a matança de quem nem sequer pode se defender. E não querem fazer isso sozinhos, não têm coragem, precisam que o “pai Estado” lhes dê respaldo para poderem gritar bem alto que são direitos!

Isso é mesmo muito diferente de “minha mãe é a Alemanha”?

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