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Tias do Zap

Sua tia dos gatos precisa sair do F******* e do Z**

A força das Big Techs reside na coisa mais difícil de mudar em um ser humano: no hábito. Mas é hora de explicar pra Tia Lourdes que ela precisa acessar outras redes

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O Facebook tem duas forças enormes. A primeira é a mais potente e difícil de vencer: está todo mundo lá. Quem tem uma rede social tem o Facebook.

Não se trata, obviamente, do povo das mídias, sejam militantes divulgando notícias de que só lêem o título a cada 20 minutos, sejam consumidores de conteúdo supostamente “nerd”: estes estão em todas as redes, até no Snapchat e no Reddit (acho que Reddit é uma rede social, sei lá).

Não: quem está no Facebook é sua tia Lourdes, que só posta foto do cachorro. É seu primo distante de Mossoró, com quem você fala uma vez por ano, mas comenta em uma foto que você posta tomando um sorvete em Blumenau – ou em Dubai.

Por que o Mark Zuckerberg tem grana, se você nunca deu um centavo para ele? Porque até o seu Tinoco da quitanda tem perfil no Facebook. E isso dá ao Facebook algumas informações bastante interessantes, pelas quais muita gente paga uma grana altíssima.

Qual a cara do seu Tinoco? Quem são suas três filhas? Uma delas foi morar em outra cidade, qual? Em quem o seu Tinoco votou na última eleição? Que tipo de site o seu Tinoco acessa (reparou que todo link postado no Face sai com um monte de tralha no fim da url? então…)? Qual a marca de camisa preferida do seu Tinoco? Com quem o seu Tinoco conversou às 17:42 de 23 de agosto do ano retrasado? A página de qual atriz chamou a atenção do seu Tinoco, que ele gastou 2 segundos a mais vendo uma foto do que a de uma outra?

Sabe aquela coisa bonitinha do Face, de reconhecer quem está na foto com você assim que você posta, que você acha lindo, e tem certeza de que o criador estava pensando exclusivamente em seu bem-estar, porque ele é um anjo? Então, tudo aquilo tem um ônus.

E o ônus é que o Facebook sabe a cor da sua cueca. Sabe que o Mark Zuckerberg (o homem mais poderoso do mundo) coloca fita crepe na câmara do seu notebook igual um Neanderthal? Poi Zé. Porque ele sabe melhor do que você que não pode nem xingar o sócio falando sozinho com o Facebook ligado. Mesmo que a câmera e o microfone estejam, aparentemente, desligados.

E tem quem pague uma fortuna por essas informações que o Facebook vende (você não leu os Termos de Uso? só apertou em “Aceito”?). A propaganda de sapato que apareceu magicamente, por mera coincidência, no seu feed de notícias assim que você falou que queria comprar um sapato novo numa mensagem privada para a sua irmã, apareceu lá por menos coincidência do que você imagina (já aconteceu quando citei uma marca de relógio numa conversa FALADA, e não foi apenas uma vez, e nem estava perto do computador).

Candidatos procurando votos? Tadaaaaaa! Sabe esses caras dizendo que o Trump é uma “ameaça à democracia”, sendo que condenou a invasão ao Capitólio? Eles estão é doidos para empurrar os candidatos dele fazendo o contrário: sendo amiguinhos do Zuckerberg, este homem tão preocupado com a nossa vida – e a sagrada democracia! Isto ninguém diz que fere a democracia, né?

Uma marca vai lançar um novo sabor de pizza, o novo modelo de carro, uma lingerie nova? Meu amigo, ninguém tá interessado em sair batendo de porta em porta até vender 5 mercadorias, não. Isso é coisa da Marisa Letícia. O que se quer hoje é o algoritmo perfeito, pra vender pra quem acabou de dizer “Que fome de pizza!”, para o ricaço que postou foto dirigindo um BMW num dia, e um Audi no dia seguinte, para a sua sobrinha periguete cujo máximo de roupa que usou ao postar uma foto cobria 30% do colo do seu útero. Isto tudo em segundos.

Como o Facebook tem tanto dinheiro se ele “dá tudo de graça” pra você? Porque você entregou algo mais valioso do que dinheiro para usá-lo: sua vida inteira. E inclusive avisou a eles quem são seus amigos, quem é aquela falsiane desgraçada que tá pegando o gatinho que você acha que é seu, quem é a vadia da sua prima que falou mal do seu candidato, disse que seu gosto musical faz sangrar os ouvidos e ainda comeu sobremesa duas vezes. Também disse que horas toma café, que livro leu, seu padrão de vida, que dia não acessou a rede, em que hotel estava no dia 14 de março de 5 anos atrás.

Isto é o que faz o Facebook valer bilhões e bilhões. Todo o seu vício em likes, mais difícil de largar do que crack, tem um ônus no qual você não quer pensar. E agora que o WhatsApp quer cruzar informações com o Facebook, ou do contrário te proibir de usar o serviço, será que sua tia Maria Aparecida quer saber?

E imagine sua tia Dalva, que tem horror a aborto, não entendeu ainda o que deu no seu primo Renato que agora quer ser chamado de “Ludmila” e tem lá algumas ressalvas com a idéia de dizer que homicida tem que ficar solto por ser vítima da sociedade? Qual será a reação dela ao descobrir que aquele “like” maroto em uma foto da sobrinha fazendo intercâmbio em Amsterdã acabou de avisar para gente que quer vender erva que tem cliente novo na praça. Meio assustador, né?

Mas a TV só tem dito que o WhatsApp está combatendo “fake news”. Que o Trump que é um malvado que destrói a democracia. Ninguém contou para o tio Alcides e a tia avó Alzira deste “pequeno detalhe” das Big Techs. Que eles tanto amam!

Pois podemos mudar um pouco deste cenário pela segunda razão que faz com que o Facebook tenha força: o hábito. Livros sobre mudanças de hábito vendem muito – e têm idéias simples, mas muito difíceis de serem aplicadas.

O hábito é o que faz com que uma festa hoje tenha só gente olhando pro celular. Que, fora do celular, estejam todos falando do que postaram no Facebook. Old habits die hard (“velhos hábitos dificilmente morrem”) diz famoso adágio inglês.

Mas sabe por que você tem hábito de abrir o Facebook e o Twitter e o WhatsApp o tempo todo? Porque você quer interagir com quem está lá. Ou seja, precisa ter alguém postando algo (o Zuckerberg só posta pedidos de desculpas e críticas ao Trump). O Facebook sozinho é como a Arena Pantanal, estádio no qual Dilma torrou R$ 626 milhões para a Copa de 2014, e que foi abandonado logo depois, porque Cuiabá não tem como atrair 40 mil pessoas.

Então, vamos transformar algo negativo – a exclusão completa de qualquer coisa ligada a Donald Trump, sua família e seus negócios, de todas as redes ao mesmo tempo, imitando à perfeição expurgos e reescrituras da história do stalinismo – ou de 1984 de Orwell – em algo positivo: todo mundo migrou para os canais do Telegram.

Chame sua tia para o Telegram também! Já apresentou para a sua tia os canais com milhares de pessoas com quem ela pode interagir? Nós estamos lá! Siga a nosso canal! Sua tia vai adorar passar horas lá. Coisa que o Zap não permite.

Aliás, o Telegram já deu um problema bobo no passado, que fez com que um site especializado na receptação de roubo fosse alçado ao estrelato: que tal usar o Telegram para conhecer canais novos, mas só para coisas públicas?

Quer ter uma conversa privada, seja sobre se o seu sobrinho Lucas anda fumando bagulho, seja sobre qual presente de Natal comprar pra Simone? Use o Signal. Tem mensagens auto-destrutivas, criptografia brutal, é usado pelo Snowden. Adeus, Zap! O melhor jeito de a sua tia largar o Zap é você largar e instalar no celular dela (ela não sabe o que é Google Store) e voilà. A melhor forma de mudar de hábitos é mudar o ambiente ao seu redor.

Falando em usado pelo Snowden, sabe que o Gmail lê todos os seus e-mails, né? Você que não leu os Termos de Uso e apenas apertou “Aceito”. Ao menos um robô lê. Faça como o Snowden e troque para o ProtonMail. Está localizado na Suíça (único país no planeta Terra hoje com liberdade de expressão, já que a Primeira Emenda foi pro saco na América), ninguém lê seus e-mails.

Google? Que coisa ultrapassada, meu amigo. Estamos em 2021. Use o DuckDuckGo. Deixe como o buscador padrão no computador e celular da tia Carmen também. Ele vai inclusive mostrar quantas ferramentas de espionagem ele bloqueia em cada site.

O Google já tirou foto do seu quintal e você achou lindo. O Google já viu até o que só seu proctologista vê. Sua tia Iracema talvez passe a te ouvir com mais atenção ao saber disso.

Google Chrome? Safari? Firefox? Aprenda a usar o Tor ou o Brave. Eles já têm o DuckDuckGo como padrão. E são rápidos como um foguete, já que eles não carregam um manancial de cookies espiões a cada página. Ou seja: são ainda melhores do que essas bodegas que você usa. E até te dão recompensas se preferir ver propaganda sem espionagem!

Aprenda com Davi: vença o Golias no seu ponto fraco. Agora é o momento perfeito para trocar de hábitos: porque está todo mundo trocando ao mesmo tempo. “Ah, mas o Zuckerberg não vai à falência amanhã, enquanto todo o planeta Terra não for, eu não vou”. Ok, fera. Esse texto é para quem faz alguma coisa da própria vida. É para quem age primeiro. É pra homem. Definitivamente não é mesmo pra você.


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Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs". Tem passagens pela Jovem Pan, RedeTV!, Gazeta do Povo e Die Weltwoche, na Suiça.

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