O cuspe de Jean Wyllys não foi criticado pela mídia?

jean wyllys cuspe

Pelas redes sociais, já é consabido que os personagens mais extremados do Congresso nacional, o ex-BBB Jean Wyllys e o militar Jair Bolsonaro, ambos do Rio de Janeiro, geraram quizomba ontem, quando o socialista Wyllys, após votar pela manutenção de Dilma Rousseff, cuspiu em Jair Bolsonaro e saiu correndo.

Destaque-se: o fato é consabido pelas redes sociais. A notícia parece quase inexistente onde o jornalismo realmente move a população: na televisão. E mesmo no jornalismo impresso.

Na internet, sobretudo Facebook e Twitter, comenta-se de tudo, sobretudo do que é mais engraçado, filão para o qual Jean Wyllys e Bolsonaro são ótimos quando próximos. Na TV, o que é Trending Topic vira notinha de 7 segundos em jornal.

Entretanto, é exigir demais da inocência e bunda-molice de quem conhece as cobras criadas que lidam com política no Brasil acreditar que o fato teve pouco destaque fora das discussões de internet pela sua irrelevância. Se fosse Jair Bolsonaro que tivesse dado uma cusparada em Jean Wyllys – muito menos do que isso, se tivesse lhe sacudido, dado um empurrão, uma ombrada, mostrado o dedo, qualquer coisa menor – será que a suposta “irrelevância” de Bolsonaro seria suficiente para a imprensa fingir que o fato não ocorreu?

Ao se procurar pelo nome de Jean Wyllys no Google hoje, seu nome nem gera o quadro “Notícias sobre”, que surge quando se busca o nome de alguém que está gerando muitas notícias recentes. Encontramos sua Wikipedia, suas redes sociais, uma notícia do UOL aparentemente mais moderada e “neutra” (“Jean Wyllys cospe em Bolsonaro e diz que faria de novo”), sua lista de colunas na Carta Capital, aquela que obedece a Lula, uma curiosa notícia da Band, também no UOL (“Jean Wyllys cospe em direção a Bolsonaro”), uma notícia de 2015 sobre o PSD tentar sua cassação após bate-boca e uma puxação de saco do Terra de quando ainda era apenas um Big Brother e candidato a virar deputado sem votos suficientes de eleitores em seu nome: “Jean Wyllys diz que entrou no BBB só para estudar”.

Mesmo no noticiário online, não parece que a cusparada de Jean Wyllys tenha chamado atenção. Até mesmo tais notícias são curiosas. No UOL, o socialista Wyllys declara: “Eu cuspiria na cara dele quantas vezes eu quisesse”. Se Jair Bolsonaro cuspisse no ex-BBB e afirmasse que cuspiria em sua cara quantas vezes quisesse, quantas manchetes chamativas sobre sua frase existiriam? Entraria no rol de “frases mais polêmicas” do deputado, constantemente arroladas e na primeira página do Google quando se busca por seu nome?

Logo após colher declarações de ambos os lados, a reportagem do UOL se foca na “provocação” de Bolsonaro, que citou o elogio do deputado ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, personagem acusado de tortura durante a ditadura, cuja defesa tampouco é alguma vez citada.

Nenhum comentário na imprensa, fora Felipe Moura Brasil, sobre o deputado Glauber Braga, do mesmo PSOL do Rio de Janeiro, que afirmou: “Eu voto por Marighella”, autor de um manual para formar terroristas. A comunista Jandira Feghali, ao criticar os “torturadores”, esqueceu de criticar o colega psolista – e também todas as torturas em todos os países socialistas, naturalmente. Pau que bate em Chico não bate em Francisco.

E, claro, a fala de Jean Wyllys como chamar o impeachment de “farsa sexista” (sic) é tratada com a mais plácida naturalidade.

jean wyllys cospe bolsonaroBolsonaro, por sinal, não reagiu. Jean Wyllys, que parece bastante corajoso para cuspir na cara de Bolsonaro quantas vezes quiser, saiu correndo como uma criança após a cusparada. Não há menção sobre o fato nas notícias que aparecem. Apenas manchetes edulcoradas, como “‘Reagi cuspindo no fascista’, diz Jean Wyllys sobre cuspe em Jair Bolsonaro”. O ex-BBB quase vira um herói.

O difícil é crer que os jornalistas televisivos manteriam o mesmo silêncio sobre o caso aparentemente de pouca monta se fosse o contrário. Basta dar uma rápida consulta pelo Twitter de qualquer jornalista, da Globo News à Rede TV, do Brasil 247 à Veja, após cada declaração de somenos importância e conseqüência praticamente nula na realidade de Jair Bolsonaro, para ver a festa do repúdio coletivo, massacre de críticas até o assassinato de reputações.

Jean Wyllys só precisa dizer que defende a “causa gay” (como se ser homossexual fosse uma sinonímia para ser socialista, pedir cotas, atacar religiões e praticar o vitimismo político) para ganhar efusivos aplausos e desculpas imediatas para qualquer toleima proferida, defendida ou vestida (como se vestir de Che Guevara, que assassinava homossexuais), incluindo o próprio socialismo.

Bolsonaro, por outro lado, talvez precisasse heroicamente salvar uma família de um assalto para então ter alguma notícia infinitesimalmente positiva sobre ele na imprensa. Mas espere: seu filho Flávio Bolsonaro, deputado e pré-candidato à prefeitura do Rio, fez exatamente isso na semana passada e foi massacrado com manchetes como “Flávio Bolsonaro saca arma e atira na Barra, RJ” ou a incrível “Flávio Bolsonaro coloca cidadãos em risco em troca de tiros com bandidos”.

Claro que tentar imaginar Jean Wyllys presenciando um assalto e salvando a vítima assaltada, ao invés de desculpar o assaltante pela desigualdade social, é praticamente impossível, mas imagine-se se ele receberia uma única crítica deste porte.

É o que se chama de infowar, a guerra de narrativas no jornalismo. Pergunte a qualquer pessoa a sua opinião sobre os Bolsonaro e veja se, caso a opinião seja negativa, ela não derive do filtro que o jornalismo coloca antes de sua pessoa. Tente o mesmo com o socialista e veja que qualquer menção positiva é que depende do mesmíssimo filtro.

Brincando de ser o deputado-moda da internet, o ex-BBB parece sempre vencer seu adversário, enquanto o pensamento do povo é majoritariamente favorável ao contrário do que defende o psolista. Resta saber se, graças a isso, vai sair incólume dessa – talvez futuramente até saudado como herói.

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